Quando eu te deixar, vou levar papel em branco, espalhar por cada canto um barco de papel… Irônico gostar dessa música. Pensar no barquinho de papel como fim, se ele também foi o nosso começo. Nada está claro aqui, se você quer saber. Afinal, você partiu antes de mim. E eu nem sei se tu partiu quando me disse adeus, agora, na verdade, parece que você foi bem antes.
Da tua parte, era amor? Já não parece mais. Percebo-me pensando em tudo o que relevei, em tudo o que fiz para estar e mesmo assim, não valeu, certo? Você não era a pessoa mais comunicativa do mundo, mas por que você não me falou, garota? Porque você não expôs verdadeiramente o seu coração sendo que mostrei por “a” e também por “b”, que eu abriria mão de todas as minhas vaidades para estar no nível de cuidá-lo? Amansá-lo, mostrar que a porra do amor é o que muda, é o que move e é o que cura. O amor refaz, o amor se adapta e o amor cede. Tu me viu cedendo? Tu me viu dizendo que cederia mais? Você VIU? Ou fingiu que não? Para ti foi mais fácil assim? Fechar os olhos para o tanto que quis fazer pela gente? É fácil para ti fingir que não me vê? Fingir que não me viu? Que não me sentiu? Que esqueceu das sensações, das trocas, dos sorrisos? É fácil para você assim? Se não é fácil, eu diria, pelo menos, que me parece um grande dom. Um, inclusive, do qual sou completamente desprovida.
Não me parece amor, mas então, o que era? Como era fácil ver você querendo tudo, nos momentos que parecia me amar. Porém, como era fácil duvidar que tu me amava quando se recusava a falar comigo. Não se abria. Não me deixava entrar. Me culpava. Eu me sentia sozinha, completamente sozinha. (Des) amada; era como se, na verdade, tu estivesse me fazendo um favor por estar comigo. Punições. A permanência de um desapego latente, como se tu estivesse a ponto de ir embora a qualquer instante. E foi. Foi e voltou. Foi e voltou. Foi. Voltou. Foi e voltou. Até que foi e nunca mais.
É confuso e decepcionante. Eu não sou um alecrim dourado, mas eu me responsabilizo por cada um dos meus deslizes. Me moldei. Me calei. E mais do que isso, coloquei-me pronta para ser alguém que servisse para você. Por que isso? Porque eu nunca me senti assim por alguém. Nunca quis o pra sempre de maneira a plantar (ou tentar plantar) ele todos os dias. Eu me refiz por você. E, para ser bem sincera, disso não me arrependo. Porém, claro, dói mais que tudo o fato de você se recusar a enxergar isso, sendo que estava mais do que exposto. Eu escancarei o meu amor para você. Tu se alimentava dele quando era conveniente, mas ao menor desentendimento, você o vomitava em cima de mim. Como se te embrulhasse o estômago, como se fosse comida velha. Como se não servisse mais.
Ainda assim, é importante que saiba: não te culpo. Não te enxergo menor. Não finjo que a gente não existiu. Sei o que vivi. Tuas palavras se contradizem com o que tu coloca no olhar. Olho não mente. Aqueles abraços apertados não mentem. Não sei qual é a sua, mas sei que você não quer mais estar na minha. Tu foge de mim como quem sabe que se baixar a guarda, vai querer de novo, vai sentir de novo. A gente existiu. Você pode negar ou me dizer que não lembra. Mas a gente existiu pra caralho.
Não é só o meu ego ferido, mas também é. Dói saber que eu perdi a batalha que mais me esforcei para ganhar em toda a vida. Lutei por você. Até me negligenciei nisso. Tanto perdão, tanta compreensão me levaram para onde? Para o mundo em que você não existe. Infelizmente, ou felizmente, não sei me arrepender disso. Não sei amar de outra forma. Se o amor exige coragem, exijo de mim, tê-la. Mas amar é ser nu, é se expor, é divagar no desconhecido mundo do outro, até conhecê-lo tão bem, que os mundos se fundem, fica parecendo casa.
Achei que você seria a minha casa. O teu mundo foi o mais escuro dos mundos por onde andei. Mas foi também o que eu mais quis desvendar. Eu te amei mais do que já fui capaz de amar em toda vida. E pareceu o meu maior ato de coragem, porque amar o que é igual, é fácil, mas te amei em meio a todas as particularidades, amei tuas singularidades, amei o teu lado duro, porque eu simplesmente queria estar. Amar não é isso? Eu espero que seja. Tu teve o meu lado mais bonito. E eu não me arrependo de ter me virado e desvirado por você. Te quis pelo que tu é, na essência, no pelo. Te amei dos átomos às entranhas. Te amei com meu corpo e com cada pedaço da minha alma. Na verdade, eu ainda amo. Amor não finda assim, quando ele existe, vira parte de nós. Você é parte de mim. Sempre será. Obrigada por ter me mostrado quem eu quero ser e quem eu não serei novamente.
Saint-Exupéry fala que somos eternamente responsáveis pelo que cativamos. Me responsabilizo pelo que provoquei aí, mas também me responsabilizo por esse amor todinho que dedico a ti. Ele é meu, além de ser seu, agora é meu. Cuidarei dele com a dedicação que ele merece. Até ficar guardadinho, em silêncio, mas vivo. Amor é vivo. Amor se existiu, viverá. Além da vida, viverá.
Voltando para o barco, tu partiu antes de mim e eu realmente naufraguei por te dar o meu coração. Não por isso, mas além disso, canto todo poema em ode sua e recorto em dobraduras, mais um barco de papel. Para nós.
Que encontres a paz que procuras. Que ame o próximo peito que te amar.
O amor da vida, vive. E viverá.




















