Era mais uma noite daqueles, solitária, silenciosa e escura.
A casa limpa e organizada.
A qualquer momento ela chegaria.
Nada especial. Ela também não era especial.
Só duas pessoas sobre o mesmo lençol frio, tentando sobreviver.
Como sempre
Ela trouxe vinho e cigarros.
Eu já tinha whisky.
Bebemos.
Falamos por horas, não diria que conversamos, pois em uma conversa, as pessoas alternam entre falar e escutar. Neste caso, apenas cuspíamos palavras um para o outro.
Até que, apagamos as luzes.
Quando acabou, foi necessário apenas um cigarro para que ela apagasse, santo remédio.
Respiração profunda, cabelo espalhado, um leve ronco.
Peguei meu celular, roubei um de seus cigarros e fui para a varanda.
Noite de verão, as palmeiras ao longe balançavam, ouvia de longe os carros na rodovia.
Continuei bebendo o whisky direto da garrafa, e cada tragada era uma sensação de liberdade da alma.
Peguei meu celular, nenhuma notificação.
Observei algo na lista de contatos, e fiz oque imaginei ser um erro, mas não resisti.
Mandei uma mensagem para ela.
Faziam meses que a gente não se falava, mas eu pensava nela todo dia.
Ja ia guardando o celular, quando senti ele vibrar
Ela respondeu na hora.
E antes que eu pensasse muito, ela ligou em vídeo.
Ela parecia animada. Curiosa.
O rosto iluminado pela tela.
Conversamos um pouco.
E em algum momento ,talvez por autossabotagem, talvez por álcool, contei que aquela garota dormia no quarto ao lado.
Mas ela ja sabia disso, apenas deu uma risada decepcionada e me encarou.
Ela sabia o motivo de eu estar a chamando a essa hora, neste estado.
Foram alguns segundos de silêncio, nos encarando
Então eu comentei de um conto do Bukowski que eu li.
Ela pediu para que eu lesse pra ela.
As palavras escorregavam um pouco na boca por causa da bebida, mas até que eu estava lúcido para quem tinha acabado com uma garrafa de whisky.
Ela escutava com atenção.
Séria.
Segurando cada palavra.
E via ternura em seu olhar
Quando cheguei no final, ela arregalou os olhos, surpresa com o fim trágico, daqueles que Bukowiski ri da nossa cara.
Ficamos em silêncio.
Olhando um para o outro.
Aquele tipo de olhar que diz:
“pois é…”
Isso é a ultima coisa que lembro daquela noite.
Acordo no sofá, com o celular sem bateria no meu peito.
A garota da noite passada me chamando.
Com olheiras que estampavam seu arrependimento pela noite anterior.
Mas ela fazia um carinho no meu rosto.
Me chamando para o café da manhã.















