Samuel Beckett, Malone DIes
Samuel Beckett, Malone Morre.
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Samuel Beckett, Malone DIes
Samuel Beckett, Malone Morre.
Widowspeak, Wicked Game.
"Os olhos de gaivota me deixam desconfortável. Me recordam um velho naufrágio, não me recordo qual. É um detalhe evidentemente. Mas me tornei medroso. Conheço essas frasezinhas que não parecem nada e que, uma vez admitidas, podem empestar toda uma língua. Nada é mais real que nada. Saem do abismo e não param até arrastarem você para lá. Mas desta vez saberei me defender delas.
- Samuel Beckett, Malone Morre.
Albert Camus, from a notebook entry featured in Notebooks (1951-1959)
LCD Soundsystem, Never as Tired as When I'm Waking Up.
"Viver e inventar. Tentei. Devo ter tentado. Inventar. Não é a palavra. Viver também não. Não faz mal. Tentei. Enquanto em mim ia e vinha a grande fera da seriedade, irando-se, rugindo, retalhando-me. Fiz isso. Completamente só também, bem escondido, banquei o bobo, completamente só, durante horas, imóvel, com frequência em pé, na posição de um enfeitiçado, gemendo. É isso, gemidos. Não soube jogar. Dava voltas, batia as mãos, corria, gritava, me via perder, me via ganhar, exultando, sofrendo. Depois de repente me jogava sobre os instrumentos do jogo, se havia algum, para destruí-los, ou sobre uma criança, para fazer a sua felicidade virar urros, ou fugia, corria depressa para me esconder. Eles me perseguiam, os grandes, os justos, me agarravam, me batiam, me faziam entrar na roda, no jogo, na alegria. É que eu já caíra na rede da seriedade. Foi minha grande doença. Nasci grave como os sifílicos. E foi gravemente que tentei não ser mais assim, viver, inventar, eu me compreendo. Mas a cada nova tentativa perdia a cabeça, me precipitava como que para a salvação nas minhas trevas, me lançava aos joelhos daquele que não pode nem viver nem suportar esse espetáculo nos outros. Viver. Falo disso sem saber o que quer dizer. Tentei sem saber o que estava tentando. Talvez tenha vivido afinal, sem saber. Me pergunto por que estou falando de tudo isso. Ah sim, é para me desentendiar. Viver e fazer viver. Não vale a pena indiciar as palavras. Não são mais ocas do que o que carregam. Depois do fracasso, o consolo, o descanso, recomeçava, a querer viver, fazer viver, ser outro, em mim, num outro. Como tudo isso é falso. Nunca me deparei com nada parecido. Estou me dedicando agora ao mais urgente. Recomeçava. Mas pouco a pouco com outra intenção. Não mais a de ter sucesso, mas a de fracassar. Há uma nuance. Aquilo a que queria chegar, ao me içar para fora do buraco primeiro, depois na luz fustigante em direção a alimentos inacessíveis, era aos êxtases da vertigem, do abandono, da queda, do engolfamento, do retorno ao escuro, ao nada, à seriedade, a casa, àquele que me esperava sempre, que tinha necessidade de mim e de quem eu tinha necessidade, que me tomava nos braços e me dizia para não partir, que me cedia o lugar e velava por mim, que sofria cada vez que o deixava, que muito fiz sofrer e pouco contentei, que nunca vi. Aí estou começando a me exaltar. Não é de mim que se trata, mas de um outro, que não vale o que valho e a quem tento invejar, sobre quem estou enfim em condição de contar as aventuras chatas, não sei como. Eu também não, nunca soube contar sobre mim, não mais que viver ou contar sobre os outros. Como teria feito isso, sem nunca ter tentado? Me mostrar agora, às vésperas de desaparecer, ao mesmo tempo que o estranho, graças a mesma graça, aí está o que não seria desprovido de tempero. Depois viver, o tempo de sentir, por trás dos meus olhos fechados, fecharem-se outros olhos. Que fim."
- Samuel Beckett, Malone Morre.
Vashti Bunyan, I Want To Be Alone.
The House on Mango Street, Sandra Cisneros
"Situação atual. Este quarto parece ser meu. Não posso explicar de outro modo que me deixem aqui. Faz tempo. A menos que um poder qualquer queira. Isso parece pouco verossímil. Por quê os poderes teriam mudado em relação a mim? É melhor adotar a explicação mais simples, mesmo que seja pouco, mesmo que não explique grande coisa. A clareza grande não é necessária, uma luz fraca permite viver na estranheza, uma luzinha fiel. Talvez tenha herdado o quarto com a morte da pessoa que estava nele antes de mim. Não procuro ir mais longe em todo caso. Não é um quarto de hospital ou de manicômio, isso se sente. Apuro o ouvido em horas diversas do dia, sem nunca ouvir nada de suspeito ou inusitado, mas sempre os ruídos pacíficos do homem em liberdade, se levantando, se deitando, fazendo comida, indo e vindo, chorando e rindo, ou mesmo nada. E quando olho pela janela vejo bem, por certos indícios, que não estou numa casa de repouso qualquer. Não, é um quarto particular comum num edifício normal aparentemente. Não me lembro como cheguei aqui. Numa ambulância talvez, num veículo qualquer certamente. Me encontrei aqui um dia, na cama. Tendo sem dúvida perdido a consciência em algum lugar, me beneficio necessariamente de um hiato nas minhas lembranças, que só são retomadas com o meu despertar aqui. Quanto aos acontecimentos culminando no desmaio e aos quais ali na hora não devia estar insensível, não me resta nada, na cabeça, de inteligível. Mas quem não teve esses esquecimentos? Os dias seguintes à bebedeira costumam ser assim. Esses acontecimentos, às vezes me diverti inventando-os. Mas sem chegar a me divertir de verdade. Não cheguei tampouco a explicitar, para fazer disto um ponto de partida, minha última lembrança antes do meu despertar aqui. Estava andando certamente, andei toda a minha vida, exceto nos primeiros meses desde que estou aqui. Mas no fim do dia não sabia onde tinha estado nem em que tinha pensado. De que poderia então me lembrar, e com quê? Me lembro de um clima. Minha juventude é mais variada, tal como a reencontro por vezes. Naquela época ainda não sabia muito bem me virar. Vivia numa espécie de coma. Perder a consciência para mim é perder pouca coisa. Mas talvez tenham me golpeado, numa floresta talvez, sim, agora que digo floresta lembro vagamente de uma floresta. Tudo isso é passado. É o presente que preciso estabelecer, antes de ser vingado. É um quarto comum. Conheci poucos quartos, mas este aqui me parece comum. No fundo, se não me sentisse morrer, poderia crer que já estava morto, espiando meus pecados ou em uma das mansões do céu. Mas sinto enfim que o meu tempo está sendo contado. Tinha mais a impressão do além-túmulo faz apenas seis meses. Se tivessem predito para mim que algum dia me sentiria viver desta maneira, teria sorrido. Isso não seria notado, mas eu saberia que estava sorrindo."
- Samuel Beckett, Malone Morre.
Bonobo, Second Sun.
Our mistake was that we never broke free from our families to create something worthwhile on our own terms.
Scenes from a Marriage (1974) dir. Ingmar Bergman
"Sim, finalmente vou ser natural, sofrerei demais, depois menos, sem tirar conclusões disso, me escutarei menos, não serei mais nem frio nem quente, serei morno, morrerei morno, sem entusiasmo. Não vou me observar morrer, isso falsificaria tudo. Me observei viver?"
»micrograms« by robert walser
robert walser was one of the most misunderstood and strangest yet most wonderful poets in german language. he spent 27 years in switzerland asylums, with no visible signs of mental illness - his form of exile…
in order to overcome his writer’s block, namely the fear of pen and white paper, walser filled already labeled, partially crumpled paper with a soft pencil and tiny cursive. in 1985, almost thirty years after robert walser’s death, the first volumes of the decrypted “micrograms” appear.
on the 25th of december 1956 he was found, dead of a heart attack, in a field of snow near the asylum. the photographs of the dead walker in the snow are almost eerily reminiscent of a similar image of a dead man in the snow in walser’s first novel, geschwister tanner. (source wikipedia)
Robert Walser morreu em 25 de dezembro de 1956, durante uma de suas longas caminhadas pela neve.
Thom Yorke na trilha sonora do remake de "Suspiria", dirigido por Luca Guadagnino, 2018.
Sigo encantada.
"Encontro-me ainda e sempre na soleira da vida, bato na porta repetidas vezes - o que, aliás, faço sem grande ímpeto - e me ponho ansiosamente a escutar pra ver se alguém vem abrir o ferrolho. Um ferrolho assim é pesado, e ninguém quer vir atender, se tem a sensação de que quem bate lá fora é um mendigo. Não sou senão alguém que ouve e espera, o que faço à perfeição, porque aprendi a sonhar enquanto espero."
Robert Walser, Os Irmãos Tanner.
Thom Yorke foi o responsável pela trilha sonora do remake de "Suspiria", do Luca Guadagnino. Trabalho digno de grande admiração. Simplesmente bonito e inspirador.
"Quando Simon assim falava, ele o fazia em frases fluidas, entoadas corretamente, mas com perfeitas calma e simpatia, de modo que Klaus não sentia essas manifestações como rancorosas em relação ao mundo, e sim como se seu irmão caçula procurasse na própria alma uma explicação para sua situação no mundo."
Robert Walser, Os Irmãos Tanner.