It's hard to get around the wind — Golden Trio
Christopher bateu na porta da casa de Isaac pela terceira vez. E, pela terceira vez, não obteve resposta alguma. Ótimo. Realmente, a noite do garoto apenas melhorava. Lançou um olhar para o pastor alemão, sentado pacientemente ao seu lado. Ao menos, Lennon ainda não lhe virara as costas, como todos ao redor de Chris nas últimas duas horas. Era quase impossível imaginar como saíra da casa para a festa com o pensamento de que teria uma noite agradável. Ah, tudo bem, até parece. Desde o maldito dia no qual desprezara Cassie, sua vida nunca mais fora sequer próxima de agradável. Porém, desde o estranho momento em que beijara Chace no estacionamento do Pizza Planet, não culpava mais a morena pelos boatos. Até mesmo porque agora conseguia enxergar - ou admitir para si mesmo - o fundo de verdade naquilo tudo. Não era como se fosse sair gritando para aquilo para quem quisesse ouvir, mas ao menos criara coragem para encarar o que estivera diante de seus olhos por tanto tempo. Mas ainda tinha bastante certeza de que começara aquilo pelo lugar errado. Afinal, agora estava sem casa e, considerando que Isaac não parecia muito interessado em abrir a porta, provavelmente acabaria por dormir no gramado da casa do melhor amigo.
Pois sim, Chris fora gentilmente expulso de casa a tapas pelo pai, uns quinze minutos antes. Não fora uma cena muito surpreendente para o jock. Quer dizer, o garoto não ganhara um prêmio de sutileza ao chegar completamente alcoolizado em casa, de madrugada. Depois de derrubar e quebrar metade dos objetos de decoração no corredor de entrada, deparara-se com o pai sentado no sofá, com uma expressão de poucos amigos. Demorara cerca de dois segundos para entender o fato de Cassie ter ido à sua casa para contar ao sr. Lancaster sobre o pequeno vício de Chris em cigarros. Com o medo absurdo que o menino sentia do pai - ainda mais tendo acabado de agarrar um garoto no meio de um estacionamento vazio -, não pode fazer muito mais que ficar calado. Escutando o maldito discurso sobre como ele jamais conseguiria uma bolsa de rugby para a universidade se estivesse envolvido com aquele tipo de vício. Queria gritar como pouco ligava para aquilo, ou como ele era um idiota por pensar que o filho queria aquilo para seu futuro. Porém, ainda assim permanecera em silêncio. Inclusive porque imaginava que, caso abrisse a boca, não poderia formar muitas frases lógicas, depois de ter ingerido tanto álcool na festa.
Estava tudo indo muito bem - melhor do que o garoto imaginara -, até o pai abrir a maldita boca para provocá-lo. Provavelmente, Christopher teria sobrevivido àquela conversa, mas o outro inadvertidamente decidira colocar, com toda a sua eloquência, como “o próximo passo no futuro do filho seria virar um viadinho”. E então, o jock mandara o pai à puta que o pariu. Mas que diabo, não tinha obrigação alguma de aguentar aquilo. Ainda mais quando sequer sabia o próprio nome, depois de toda aquela situação do lado de fora da festa. A princípio, não queria ter contado sobre aquilo para o pai. Porém, no meio dos gritos e das ofensas trocadas, as palavras escaparam-lhe da boca. E pronto - o inferno estava feito, explodindo atrás do garoto. Não ousara revidar nenhum dos tapas que recebera, e não pudera fazer muito mais que uma tentativa ridícula de proteger-se. Estava simplesmente tão cansado dele, daquilo tudo dentro de casa. Parte de Chris até mesmo já esperava por uma cena como aquela. Claro que aquilo doía muito mais internamente do que os pequenos hematomas já surgindo em seu braço, mas ele não falaria sobre aquilo. Não ainda. Talvez pudesse começar a pensar quando estivesse sóbrio novamente.
A ameaça do pai fora clara. Dez minutos para sair daquela casa e nunca mais voltar. Simples, e ainda assim, bastante doloroso. Chris não pudera fazer mais que obedecê-lo, como fizera nos últimos dezessete anos. Juntara as primeiras peças de roupa as quais enxergara em sua mochila e pegara Lennon, e saíra dali sem olhar outra vez para o pai. Sua vida virara de pernas para o ar - mais uma vez - em menos de meia hora. Nunca entendia como aquelas coisas só aconteciam com ele, especificamente. Andara as poucas quadras as quais separavam sua casa da de Isaac, e desde então estivera esperando pela boa vontade do amigo em abrir a porta. Ocorreu-lhe a possibilidade de o garoto estar na festa, com alguma material girl de baixa auto-estima. Mas não vira o loiro em lugar algum no Pizza Planet, antes. E, naquele momento, Isaac era a única esperança de Chris, para não passar a noite na calçada. Esmurrou a porta de má vontade, novamente. Dessa vez, obrigou-se a avisar - Cara, abre essa porta ou eu vou dormir aqui na frente - gritou, revirando os olhos. Não estava brincando, realmente poderia deitar na grama e dormir ali mesmo.
Isaac já tinha chego da festa no Pizza Planet há algum tempo. Nada muito interessante havia acontecido. Poderia ser zoado pelo resto do mês pelos seus companheiro de time por não ter pego ninguém, mas não poderia fazer qualquer coisa contra, era verdade. Para ele, uma verdade um tanto dolorosa. Havia uma menina que não saía de sua cabeça e isso não era normal, além de não ser o que queria. Lutava para tirá-la de lá, mas não era muito uma escolha. Levou Gabrielle para casa consigo. Não era algo tão estranho, considerando que faziam isso quase todas as festas, ou então todos os dias. A menina praticamente vivia ali com ele, o que era uma ótima ideia, já que era completamente sozinho. Era feliz por ter um apartamento só seu aos dezessete anos, mas não era uma das situações mais animadas do mundo. Viveu assim a vida inteira, desde pequeno, teve de aguentar viver apenas na companhia de uma babá quando estava em casa, o que era absurdamente chato, já que suas babás eram todas senhoras que não aguentavam ficar cinco minutos de pé sem reclamar de dor nas pernas ou nas costas.
Conversar com Gabi era um de seus hobbies favoritos. Não tinha escrúpulos com a maior parte das pessoas, mas com ela, menos ainda. Sabia que poderia se abrir sem ser julgado, por mais ridículo que tivesse sido qualquer um de seus atos. O mesmo acontecia com Christopher, no momento em que se juntavam, sabia que estava com as pessoas certas, onde que que estivesse. Sentia-se muito bem por ter amigos assim, poderia confia-los e eram extremamente atenciosos. Encontrava nos dois tudo o que sua família não o proporcionou. Isaac, mesmo sempre rodeado de tanta gente, disputado por muitas meninas, era uma pessoa um tanto quanto sozinha. Ninguém sabia desse fato sobre si, claro, não fazia questão alguma de mostrar. Se dar bem no colegial era o que melhor conseguia preencher todo o vazio que dominava o seu interior. Preferia tentar esquecer tudo o que passava; sendo pouco perto de muita gente, mas ainda suficientemente significativo para ele.
Sabia que não era necessária a formalidade de convidar a loira para dormir ali mesmo, já que tal fato já estava subentendido desde o momento que tornaram-se amigos anos atrás. Estava cansado, sim, mas não o suficiente para parar de conversar com a menina. Sentia-se mal por não contar à ela sobre Rhea, mas ainda não sentia como se fosse o momento certo. Sabia que se Rhea desconfiasse que um mosquito além deles sabia sobre o que acontecia entre os dois, era um garoto morto e, além disso, poderia esquecer qualquer chance de repetição de um dos melhores momentos de sua vida. Preparava alguma coisa para comerem enquanto todos esses pensamentos passavam pela sua cabeça e conversava com a menina. Não era algo fácil de gerenciar, principalmente quando o gerente era Harper. Qualquer um da cidade de San Diego sabia sobre uma leve falta de agilidade mental do menino, mas, algumas vezes, conseguia ser um pouco mais rápido. O esforço talvez fosse grande, mas valia a pena.
Não ouviu a porta bater uma, duas, três vezes. Estava ocupado demais tentando manter seus neurônios funcionando na madrugada. Nos últimos murros, conseguiu perceber que tinha alguém lá fora um tanto desesperado. Christopher. Facilmente perceptível pela voz rígida do outro lado da porta. Chamou Gabi e foram juntos em direção à porta da frente, um tanto apressado, ou então seria capaz de perder a porta e não fazia ideia de onde comprar uma nova ou então como se viraria sem uma. Abriu-a, dando de cara com seu melhor amigo devastado e Lennon, com uma expressão muito melhor que a de Chris. Afagou o cão, como sempre fazia quando via-o. Alguma coisa estranha tinha ali, ele nunca ia o visitar levando uma mala e o cachorro, muito menos naquela hora da noite. Tinha algo bem errado ali. — Entra, cara! — Saiu da frente do caminho principal, deixando o menino passar para a parte de dentro. Por mais que Lennon fosse um cachorro adorável, era grande demais para ficar muito tempo dentro de casa, então abriu a porta dos fundos, deixando-o livre para passar para o quintal. — O que aconteceu? Provavelmente alguma coisa nada boa. — Não conseguia esconder a expressão de espanto.













