Tenho ruminado a escrita. É que eu tenho muito para falar, e geralmente isso acontece quando estou com muita raiva.
Pensamentos nascem como um surto e me fazem refletir intensamente, até dar sintomas físicos.
Tenho vertigem e sinto um cansaço interminável, como se eu tivesse abusando do meu corpo. Mas, sinceramente, já trabalhei mais horas, já tive a vida mais dura, já fui mais fundo. Será que estou estabelecendo novos limites?
Acho que estou chegando no fundo do poço. Por um lado, isso sempre vem acompanhado de muita dor. Por outro, pela primeira vez, acho que não está tão escuro aqui embaixo. Conheço estas paredes. Talvez eu tenha deixado algumas recordações da última vez que estive por aqui.
E não posso mentir: chegar aqui me dá esperança. Não que eu fique me colocando na tristeza, mas é que das últimas vezes eu peguei impulsos tão intensos, vi o nascer de novas asas que me levaram à superfície, para um lugar que eu realmente queria estar. Então, posso dizer que tenho a sensação de que algo muito bom está para acontecer.
E eu tenho repetido essa frase na minha cabeça todos os dias pela manhã: “algo muito bom está para acontecer… algo muito bom está para acontecer”. Tenho medo de que seja só uma ilusão, uma maneira inconsciente de me fazer continuar.
Afinal de contas, todos vivemos da esperança de um amanhã feliz. Não que a gente não saiba ser feliz agora, mas se pensássemos que o futuro vai ser horrível, talvez não sobreviveríamos para contar história.
Talvez eu só esteja ficando mais madura. Porque chegar no fundo do poço e achar que nunca vai conseguir sair significa que você não conhece a própria angústia - e disso eu sei bastante.
O caminho até aqui é longo.
Como boa ansiosa, vou dando trancos para descer mais rápido. Para mim, chegar no fundo do poço tem a ver com encarar verdades que você não quer assumir. Coisas que estavam ali faz tempo, você só não estava preparada para ver. Talvez sejam estas as memórias não curadas que deixei. Cavei uma cápsula do tempo para que, quando eu chegasse aqui, eu soubesse ao menos porque desci.
E não vou falar que foi fácil achar essa cápsula. Da próxima vez, não vou cavar tão fundo.
Vi verdades (nem sempre) reveladoras, mas que me obrigam a tomar uma decisão: “o que eu vou fazer com isso?”.
Diferente da felicidade, a tristeza te obriga a repensar, uma coisa que eu gosto muito de fazer. Gosto de mudar de ideia, perceber o que não via antes. Agora me pergunto se eu sou depressiva porque gosto de repensar, o que faria que essa doença fosse mais branda, mais aceitável.
Minha psicóloga dizia que o mais louquinho da família é o que mais sabe. Talvez porque sintamos tudo a uma intensidade superior - mesmo não nos permitindo.
Como imigrante tenho a sensação de que vou me colocando em caixas, nas quais uma hora vou ter que sair. Como se eu fosse uma boneca russa, só que ao contrário. Comecei pequenininha e fui me convertendo em versões maiores.
Conforme vou crescendo, estas caixas vão se tornando pequenas, e eu preciso rompê-las. As expressões break free e break through fazem muito sentido para mim neste momento. Eu vou dando com a cabeça no teto da caixa até rompê-lo, doa o que doer.
E quando chego lá, colocar a cabeça para fora é libertador, mas ao mesmo tempo me dá muita angústia, porque me mostra como a vida é lá fora, aonde posso ir, o que posso ver, o que posso ter.
Com isso, meus braços se alargam, e eu preciso me agarrar em algo para conseguir puxar o resto do corpo para fora.
Vou criando planos, buscando alternativas. E essa parte é a mais difícil. Porque sei que a vida é melhor lá fora, mas eu preciso lutar muito para tirar o resto do meu corpo de dentro da caixa já rompida.
Quando estou simplesmente tentando romper o teto, não tenho esta dimensão. Só me sinto apertada, mas não sei a grandeza do que me espera.
E é aí que vou pegando o meu baldinho e descendo pro fundo do poço, um pouco pela frustração de me sentir presa, um pouco para tentar pegar aquele impulso.
Me pergunto se ao sair destas caixas, eu me coloco em outras ou se sou uma boneca russa: guardo várias versões de mim, uma dentro da outra. Será que uma delas é a que eu quero ser?