Segundo domingo do mês de maio
No dia 11 de maio foi o dia das mães. Minha folga dominical iria ser justamente nesse dia. Eu iria assistir ao jogo do Real x Barça, almoçar com minha mãe, mas meu patrão trocou minha folga pois só haviam eu e mais dois no meu setor. Estavam necessitados no setor. Foi a primeira vez que passei o dia das mães longe da minha. Pra piorar eu trabalho em um restaurante. No geral, o brasileiro não costuma ir a restaurantes, claro, sempre tem alguns dias que estão mais movimentados que o normal. Mas no dia das mães, todo mundo se organiza pra levar a mãe ou a parceira mãe de seus filhos pra uma ocasião diferente e especial. Já sabíamos que seria o dia mais corrido do ano. No dia, o patrão fez um discurso falando sobre a importância de estar ali. Não foi um discurso digno de entrar pra história, mas eu quase chorei. Era a primeira vez que eu passava o dia das mães longe da minha mãe, e já faziam 5 dias que eu não a via.
Minha mãe é cadeirante então quando eu chego do trabalho ela já está na cama pra dormir, quando eu saio ela ainda está dormindo. Não é que ela seja acamada, mas era eu quem passava maior parte do tempo cuidando dela antes de arrumar um emprego.
Minha mãe é uma pessoa que reclama muito da vida, eu não julgo, pois a situação é realmente difícil. Ela não nasceu assim e cada vez mais vem perdendo as forças, dessa vez dos braços, da fala e dos olhos. Ainda assim é uma negatividade que afeta toda a família. Geralmente, por causa dessa negatividade toda, dessa característica dela de reclamar muito de tudo, brigamos muito. Sério, há vezes que nem tem do que se reclamar mas ela fica caçando.
Pois bem, esse foi meu primeiro dia das mães sem minha mãe, e ela ainda está viva. Eu chorei. Chorei discretamente e por isso ninguém viu. Chorei pq vi os clientes comemorando com sua mãe, ou suas esposas mães de seus filhos. Mães que apesar do dia das mães, foram ao restaurante comprar comida da melhor qualidade pra seus filhos, pagaram pra que seus filhos pudesse ficar no parquinho do restaurante, mesmo não sendo o dia dos filhos mas sim dia das mães. As mães são guerreiras e fazem de tudo por seus filhos. Minha mãe mesmo, quando eu era pequeno, dormiu fora de casa e eu não sabia o pq. Só alguns anos depois minha tia me contou que ela dormiu fora pq estava na fila do melhor colégio da cidade pra conseguir uma bolsa de estudos pra mim. E ela conseguiu. Conseguiu uma bolsa pra mim da mesma forma que conseguiu pra minha irmã, com muito esforço e insistência. Já doente, mas não na cadeira de rodas, apenas de moleta e cmg ajudando, minha mãe que me levou pra um psiquiatra semanalmente após a escola pq uma professora, a tia Renata, suspeitou que eu tinha dislexia, foi lá que descobri que de fato eu tinha dislexia, e também TDAH. Minha mãe sempre quis o melhor pros filhos dela. Principalmente no quesito educação. Ela acreditava que estudando muito no melhor colégio, com os melhores professores, alunos e materiais, um dia iríamos ter uma condições de vida melhor. Ela trabalhou muito e insistiu muito nos filhos pra que eles não se tornassem criminosos ou moradores de rua. Pra que seus filhos não passassem pelas mesmas dificuldades que ela passou. Eu não acho que a crença dela de estudar na melhor escola, com os melhores professores, alunos e materiais seja real, mas ela acreditou e lutou por isso como uma mãe.
Apesar de todos os seus defeitos, apesar de toda sua negatividade, apesar de toda sua energia tóxica. Eu agradeço. Sou grato por tudo o que minha mãe já fez por mim, eu amo a minha mãe e mal posso esperar pelos dias em que não irei perder ela. Pelos dias que ela estará lá pra me contar as histórias intermináveis de suas novelas da tv globo a qual eu não faço a menor questão de saber. E ao mesmo tempo, mal posso esperar pelo dia que ela vai embora, pois talvez o leito seja o melhor pra ela, pra acabar com um resto de vida cheia de dor, sofrimento e limitações. Pra que só assim ela possa ter a paz que não tem