Correntes linguísticas: as teorias da língua
Como prometido no post anterior, agora falaremos das escolas linguísticas de forma (na medida do possível!) breve. Bom, vamos lá!
Já vimos que epistemologia significa o estudo de uma ciência para que tal possa ser classificada como ciência. E também os três tipos de gramáticas que deram início aos estudos da língua como objeto observacional. Então, agora, vamos aos métodos analíticos da língua.
É válido lembrar que não existe uma corrente de pensamento melhor ou pior do que outra. A única coisa que elas têm em comum é o objeto observacional, ou seja, o objeto de estudo, que é a língua. Um exemplo ilustrativo (que ouvi antes) seria pensar em várias montanhas e cada uma com um mirante. O "objeto" que os mirantes iriam nos revelar é o mesmo, isto é, o horizonte. Porém, se cada pessoa estivesse em uma montanha, cada uma teria um ângulo, uma visão, um olhar diferentes sobre o mesmo horizonte. Assim são as quatro correntes que veremos.
1) ESTRUTURALISMO: a língua nua e crua
Foi o primeiro modelo de cientificidade nas áreas humanas, a partir de 1916. Podemos dizer que foi a "certidão de nascimento".
O autor do Estruturalismo foi Ferdinand Saussaure, inaugurado com a sua obra "Curso de Linguística Geral". Há controvérsias, pois ele não foi o autor propriamente dito. Essa obra consiste em anotações de alguns alunos que, após três anos de sua morte, publicaram esse livro com seu nome. Anotações de três anos de curso de Linguística que Saussaure ministrou.
O que essa teoria defende e qual seu modelo científico?
Essa corrente é de modelo empírico, ou seja, parte de um corpus. O trabalho é local (in loco).
Os elementos se organizam em estruturas (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, pragmática e discurso), havendo uma relação de interdependência entre eles. Uma alteração de uma cadeia, automaticamente, modifica todas as outras cadeias, pois não se leva em consideração apenas um elemento sem considerar os outros. Por exemplo: homem grande / grande homem > um homem fisicamente grande, e um homem bem reconhecido, admirável, respectivamente.
Percebe-se regularidades na língua. Exemplo: O menino, o gato. O determinante vem sempre antes do objeto no português brasileiro, e ainda sofre marcação de gênero. Diferentemente do inglês que não há marcação de gênero nem plural no determinante.
Seu domínio nas epistemologias é a semiótica.
E por fim, a língua é considerada uma instituição social, para Saussaure.
2) GERATIVISMO: a língua "biológica"
Com o lançamento de seu livro "Statyc Structures" (Estuturas Sináticas), Noam Chomsky deu início à corrente Gerativista a partir de 1953.
O que essa teoria defende e qual seu modelo científico?
A língua, segundo os gerativistas, é inata ao ser humano, Já nascemos com a capacidade de produzir linguagem por transmissão genética. Um argumento que reforça isso é quando alguém fala errado com um bebê. O aprendizado da língua se faz ainda que com conteúdos incorretos.
A criação da linguagem se sustenta também pela comprovação de que crianças inventam palavras ou juntam palavras formando palavras "novas". Por exemplo: comiloso (comilão + guloso).
A língua não é passiva de descrição, mas sim, de explicação. A capacidade deve ser explicada.
Portanto, essa corrente parte do fato de que os próprios dados fornecidos podem servir para explicação.
Não trabalha com corpus, porém trabalha com formulação de hipóteses sobre a língua. Exemplo disso é quando linguistas trabalham com línguas indígenas sem nunca terem ido a uma aldeia, ou seja ao campus.
Também utilizam o conceito de "universais linguísticos", no sentido de que a partir de um dado simples, constrói-se sentenças complexas (frase - texto - enciclopédias, por ex.), isto é, usa-se o princípio de recursividade.
Tem como domínio nas epistemologias a Sintaxe.
3) FUNCIONALISMO: a missão da língua
Dois autores dessa corrente foram André Martinet (francês) e Roman Jakobson (russo). Iniciou-se em 1950.
O que essa teoria defende e qual seu modelo científico?
As línguas têm várias funções. Por exemplo:
Para Saussaure: função comunicativa.
Para Jakobson: manifestação subjetiva humana. A língua serve para explicar ela mesma (metalinguagem), para se fazer poesia e para expressar ou manter a língua funcionando com o receptor ("Entenderam?", "tudo bem?", "alô?").
Para Martinet: o uso da língua determina a mudança de status de uma palavra de uma classe para outra. Por ex.: Eu fiz isso, aí eu fiz aquilo... > "aí" é um advérbio de lugar, mas no contexto citado tem função conectiva. Outro exemplo: O carro freou de repente. / Fomos almoçar, mas de repente, o restaurante já tinha fechado. > De um advérbio de tempo, "de repente" passou a ser um advérbio de dúvida, tendo o sentido de talvez, não de algo que aconteceu de maneira súbita.
4) MATERIALISTA: a ideologia concreta na língua
Os fundadores dessa corrente foram: Michel Foucault (1967), Michel Pêcheux (1969) e Mikhail Bakhtin (1970).
O que essa teoria defende e qual seu modelo científico?
No final dos anos 70, houve grande repercussão na França com as traduções dos textos bakhtinianos.
A língua é um produto da sociedade que, por estar dividade, percebe-se uma relação entre a língua e as classe sociais. Por ex.: Uma sociedade machista > palavrões (maioria) no feminino. Na sintaxe: Telha e tijolo são feitos do mesmo material. A terminação de "feitos" vem masculino.
Para Bakhtin, a língua reflete e refrata a sociedade.
A língua é o lugar material da ideologia. Por ex.: O uso de (inseticida / veneno) na agricultura... / Os sem-terra (ocuparam / invadiram)...
A língua nos revela ideias. No caso de optar por esse ou aquele verbo, juntamente com ele vem o posicionamento crítico tomado pelo enunciador.
É isso, pessoal. No próximo post, iremos falar sobre os métodos científicos de Thomas Kuhn e Imre Lakatos. Não perca!