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CFBDSIR2149 - Canção sobre o vazio
O meu caminho à prosa nunca fora encantado como os outros. Precisava, antes, de algumas lágrimas derramadas; de uma fronte caída. Facilmente há de se pensar que me entregava ao silêncio, mas nas ruas sempre ouvia enredos. O problema, talvez, é que os enredos não me ouviam. Nesses momentos apenas a dor me faz gritar. Então, os enredos me ouvem; eu me ouço. E minha vida torna aos lábios do narrador.
A jornada em busca de corações calorosos sempre será silenciosa. E até hoje não há sinais de que possa também ser conclusiva. Após ter dito isto sei que há de vir inúmeros relatos e histórias de algum amigo ou um outro conhecido. Sem dúvidas não é agradável. Não é o que se espera. Mas do horizonte racional é apenas a primeira – e muitas vezes última – reação das pessoas. Há de negar e rejeitar aquilo que fere. A esperança acalenta, mas ao mesmo cega e entrega ao abismo. A lança, por sua vez, faz sangrar e põe também a andar. A caminhada é nua, solitária e fadada à desgraça.
Nas antigas terras eu saberia exatamente aonde ir agora. Uns poucos degraus e logo poderia me sentiria próximo às estrelas. O firmamento parecia a mim como uma moldura que me delimitava, me compreendia e me unificava. Poupava-me todo e qualquer dizer, pois suas cores, seu reluzir, a mim era como afago. No mais, um espelho que me trazia a verdade que tanto fiz questão de esquecer: até mesmo as estrelas temem a escuridão.
Bruno Jefferson
Pode-se prometer atos, mas não sentimentos; pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou sempre odiá-lo ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; no entanto, pode prometer aqueles atos que normalmente são consequência do amor, do ódio, da fidelidade, mas também podem nascer de outros motivos: pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato. A promessa de sempre amar alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos: de modo que na cabeça de nossos semelhantes permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo. — Portanto, prometemos a continuidade da aparência do amor quando, sem cegar a nós mesmos, juramos a alguém amor eterno.
Friedrich Nietzsche,100 aforismos sobre o amor e a morte.
Two Highschool Students, Tokyo, 1979
Sinto o meu coração indo, mas ainda não sei sentir. Num trote prolongado, com minhas pernas cansadas do meio círculo que persegue o retilíneo sonho de quem rescindiu o freio, aprecio o trajeto do açoite. Uma lamúria, uma desgraça, uma ruína. Não sou mais do que um balão de ossos no singular, sentindo o que não sabe sentir pelo resto do mundo. E sinto, ou pelo menos penso sentir, agregado ao que eu suponho ser um sofrimento de amor, o peso da falha entrecortando os meus caminhos. Eu falhei por nós dois, sem nunca ter conhecido plenamente a mim mesmo. Sem nunca ter descoberto o prazer de saber o que sinto. Invejo as árvores que sabem que são árvores, pois sofrido é um humano enraizado no meio da claridade, sofrendo no meio da existência. Invejo também os pássaros, porque a natureza não lhes permitiu o amor lascivo ao ninho abandonado pelo instinto de sobrevivência. Pássaro que sou, nômade que me permito ser, ainda não sei dizer adeus ao galho mais fraco. Ainda amo o que poderia ter me matado, o que me impediria de continuar. E dói. Permanecer vivo é um egoísmo com as renúncias mais sofridas da minha história. Numa hipótese macabra, numa hipótese acalentadora, talvez eu apenas pense que abandonei assim como só penso, iludidamente, que sinto saudade. Mas eu já não sei o que sinto. Eu já não sei o que eu sou. Eu sei sim, olhando para as pegadas de pele morta, o que fui, imaginando o peso da minha matéria bruta como um pintor imagina o som da arte. A dor estanca e o sangue coagula. A vida é que não se cura. Debaixo de toda essa terra infértil impregnada em mim, o cadáver não exala cheiro. Os cupins roeram a minha madeira de tal forma que o superficialismo adquiriu os trejeitos de um homem comum, um homem que ama, um homem que chora, um homem que sabe o que é, um homem que sabe o que sente. Mas a única verdade é que não sei. Já não sei mais sequer de qual dos meus inícios eu fingi que parti.
Cinzentos.
Um amigo meu me ensina a diferença entre ‘chatear’ e ‘encher’. Chatear é assim: você telefona para um escritório qualquer na cidade. - Alô! Quer me chamar por favor o Valdemar? - Aqui não tem nenhum Valdemar. Daí a alguns minutos você liga de novo: - O Valdemar, por obséquio. - Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar. - Mas não é do número tal? - É, mas aqui não trabalha nenhum Valdemar. Mais cinco minutos, você liga o mesmo número: - Por favor, o Valdemar já chegou? - Vê se te manca, palhaço. Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui? - Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí. - Não chateia. Daí a dez minutos, liga de novo. - Escute uma coisa! O Valdemar não deixou pelo menos um recado? O outro desta vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis. Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação: - Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar. Alguém telefonou para mim?
Paulo Mendes Campos, “chatear e encher”.
Deixem-nos sós, sem livros, e imediatamente ficaremos confusos, perdidos – não saberemos a quem nos unir, o que devemos apoiar; o que amar e o que odiar; o que respeitar e o que desprezar. Até mesmo nos é difícil ser gente – gente com seu próprio e verdadeiro corpo e sangue; sentimos vergonha disso, achamos que é um demérito e nos esforçamos para ser uma espécie inexistente de homens em geral. Somos natimortos, e há muito tempo nascemos não de pais vivos, e isso nos agrada cada vez mais. Estamos tomando gosto. Em breve vamos querer nascer da ideia, de algum modo. Mas basta, não quero mais escrever “do subsolo”… Entretanto, aqui não terminam as “notas” desse paradoxista. O autor não resistiu e prosseguiu com elas. Mas nós também pensamos que é possível terminar por aqui.
Notas do Subsolo, Fiódor Dostoiévski
É você, que faz do seu óculos, máscara… Que pensa que me engana, que finge não ser poeta…
É você mesmo! Eu o vi (e admito!) rascunhando versos sentado em um banco… É você que vi, e que admiro… Enquanto eu rascunhava, pelos cantos, poemas que você nunca lerá.
Mas, não se preocupe… Afinal, quem foi que disse que eu já me assumi?… Quem foi que disse que já olhei na cara do mundo e disse, enfática, "Vão ter que me suportar, virei poeta!"?
Palavras
Palavras me derrubam. E quando estou no chão por causa delas é como se um caminhão de outras palavras fossem insuficientes para me levantarem.
Palavras me ferem. E pra essa ferida, o único remédio é o tempo. E mesmo assim elas ainda doerão. Mas ficarão mais suportáveis. Palavras destroem fortalezas que demorei a construir. Uma simples combinação delas em uma frase faz ruir toda a auto confiança que levei tempo considerável para estabelecer. É quando atinge a base de tudo. Não preciso mais de palavras dizendo que tudo vai ficar bem, que as pessoas são assim mesmo, que a vida se encarrega de fazer justiça. Todo esse óbvio se esvaziou. E tudo que é vazio não preenche mais. E não tenho mais certeza de que as palavras certas virão um dia. Mas já estou cansada de depender apenas de mim. Das minhas palavras mentais. Da força que elas precisam exercer em mim. Estou cansada sim. E fraca. Tentando entender por onde minha força se esvaiu. Tentando aceitar que palavras, além das minhas, aparecerão. Tentando não levar meus dias iludida. Mas é triste. É triste ser sozinha quando se está rodeada de pessoas. É triste estar carente ao extremo. É triste ir se afundando nessa tristeza. E é triste precisar ser salva de si mesmo. Leca Castro - 11/01/13
Da noite que cruenta
Enquanto o dia jaz belo e avança Seu licor mortuário e escarlate A noite obscura no céu morto lança Sua gangrena como um estandarte;
Qual demônio, afronta a virgem donzela Num rito de prazer cerimonial, Tem a noite dos males a sequela Que invoca as feras do fosso Infernal;
Saca a adaga o facínora sedento E mescla a sombra o veloz furtador; Casam numa sinfonia o tormento E a noite em véu de fúnebre fulgor.
Ao raiar, dia lívido e rosáceo, Que rebenta a placenta do universo O sol fulge indiferente aos prefácios E aos resquícios noturnos perversos;
Um cadáver, um ébrio na sarjeta Ou o crasso que na colcha verteu, Ilumina o sol e com força esquenta O sangue que ontem n’asfalto escorreu.
I understand, all right. The hopeless dream of being - not seeming, but being. At every waking moment, alert. The gulf between what you are with others and what you are alone. The vertigo and the constant hunger to be exposed, to be seen through, perhaps even wiped out. Every inflection and every gesture a lie, every smile a grimace. Suicide? No, too vulgar. But you can refuse to move, refuse to talk, so that you don’t have to lie. You can shut yourself in. Then you needn’t play any parts or make wrong gestures. Or so you thought. But reality is diabolical. Your hiding place isn’t watertight. Life trickles in from the outside, and you’re forced to react. No one asks if it is true or false, if you’re genuine or just a sham. Such things matter only in the theatre, and hardly there either. I understand why you don’t speak, why you don’t move, why you’ve created a part for yourself out of apathy. I understand. I admire. You should go on with this part until it is played out, until it loses interest for you. Then you can leave it, just as you’ve left your other parts one by one.
Ingmar Bergman
"James Whitcomb Riley was the poet of the Hoosier, and Jimmy loved to read from his work, which he did for me one day after dinner, to give me a feeling of the people and place whence he had come." Dennis Stock
Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu queria mesmo um espaço sossegado, e obscuro pra viver a minha solidão; por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo, e não conseguia nada.
Charles Bukowski
Perto de uma distância só sua, refaz passos em direção ao passado. Cada um se revira, ébrio, dentro de uma mente particular. As calçadas escondem o chão próprio da terra. A solidão futura leva o presente aos céus, derramando-o em delírios vívidos. Enquanto os travesseiros expõem pensamentos atravessados, crateras da lua em quartos corpusculares. Os lares estão desabrigados. A insegurança deixa as luzes acesas, mas não há ninguém em casa: o conforto as apaga.