por que é tão difícil falar de narcisismo materno? pt.1
tanto por quem passa por isso, quanto por quem está de fora, a dificuldade em falar de mães que possuem esse transtorno de personalidade vem especialmente pelo motivo de estarmos falando de uma pessoa que na nossa sociedade é vista como uma "entidade" a ser respeitada, tendo em vista que a maternidade é como uma realização e conquista para a mulher. de fato é, mas nada disso torna uma mãe imune de ter tantos problemas - de cunho psicológico, não meramente da vida -, que acabam por ser levados para a sua relação com seus filhos, problemas que estão na raiz de sua personalidade.
eu possuo uma mãe narcisista. no começo dói e é um tanto estranho, mas aos poucos você nota como ela não te vê como alguém com uma individualidade, possibilidade de desenvolver a sua autonomia, de ser você mesma (o). você é a extensão dela. você deve viver para satisfaze-la, e a sua felicidade possui um limite: desde que não apague o brilho dela. para entender como essas mães funcionam, pense no transtorno de personalidade narcisista e simplesmente se aplique à elas, só que lembrando que enquanto mãe ela possui “poderes especiais” que são conferidos a ela pela nossa sociedade, poderes estes que com certeza ela não utiliza para fazer algo bom. a autoridade, o poder de influência sobre os filhos, dentre outras coisas, acabam por se tornar meios para ela agir de forma arbitrária, e não formas de corrigir a/o filha/o e então torna-la/o uma pessoa melhor.
vou tratar agora de pontos específicos que nos levarão a refletir sobre os motivos de ser tão difícil falar de narcisismo materno:
mãe é sagrada: é o que está presente até mesmo na religião: 10 mandamentos na igreja
"honra o teu pai e a tua mãe"
esta é uma barreira enorme para quem sofre com uma mãe narcisista. isso porque não é somente uma ideia interna que estará presente nessa filha, nesse filho, de que tudo que a sua mãe faz estará sempre certo, mesmo que for algo tão estranho e que machuque, que doa (no corpo, no psicológico), é uma ideia que vem sendo reafirmada por uma outra instituição muito importante para a sociedade - a igreja. ainda mais para quem for religioso ou possuir influência familiar muito religiosa, será ainda mais difícil validar a sua sensação (obs.: sensação, que nem chega a ser uma certeza) de que as atitudes de sua mãe merecem crítica, pois óbvio, é "a mãe". mãe está sempre certa, mãe "não se critica". por que não? só porque alguém se tornou mãe, essa pessoa é imune a estar errada? definitivamente não!
porém, ainda existem muitas barreiras, que inclusive são reforçadas pela igreja, que nos impedem de enxergar essas mães narcisistas como pessoas que NÃO, não amam incondicionalmente todos seus filhos de forma automática; mães que SIM, fizeram a escolha da maternidade mas não possuem nenhum preparo para isso. falta maturidade emocional, pois embora pareça que elas sejam maravilhosas e exemplares, porque ora, é uma "mãe!", elas possuem uma imaturidade psicológica tão grande quanto uma pessoa muito jovem. a idade e exatamente o "título" de mãe esconde toda essa infantilidade. como podemos enxergar todos esses traços negativos? na parte 2 ficará evidente isso, e na parte 3 a forma de buscar uma cura, bem como enxergar os resquícios disso dentro de você: para que você não leve isso para outras relações, seja sendo a pessoa que sofrerá ou que fará mal aos outros.
por fim, essas barreiras impostas pelos outros e por nós mesmos, vítimas dessas mulheres perversas, nos impedem de:
a) falar do assunto;
b) dar voz à nossa dor, mas também às dores de outras pessoas que passam por isso agora mesmo;
c) ajudar e dar luz à situações completamente fora do normal, que fogem do que significa a maternidade;
e no fim, quem sofre fica em silêncio. pois, antes de tudo, se censura e se sente muito sozinha (o).
aura de santidade que existe em torno do papel da mãe
toda mãe é santa. toda mãe está sempre certa. toda mãe quer o melhor para você. mães são incapazes de fazer mal a um filho, afinal, ela trouxe aquele ser ao mundo. será? e as mães que abandonam filhos em caçambas de lixo? amam seus filhos incondicionalmente, isso é um ato de amor? e as mães que tornam a vida de seus filhos um inferno e um terror psicológico constante, isso é amor? e as mães que cortam a liberdade de seus filhos e os mantém colados em si como se o cordão umbilical nunca pudesse ser cortado, mães que sufocam e manipulam, tudo isso é por amor? e as mães que agridem fisicamente, é por amor também? essas são poucas dentre as várias possibilidades de atitudes de mães que não, não são santas.
a mãe ideal: que nutre, protege; dá carinho, faz a filha/o filho crescer de forma saudável, que ama incondicionalmente, que é uma mulher a ser venerada.
ao olharem para uma mãe, automaticamente as pessoas pensam e afirmam com tamanha convicção que ela é tudo, pois:
a) ela nutre, não é? mesmo que o ser que deveria receber a nutrição emocional viva se sentindo mal e muito vazio emocionalmente, pois ao invés de receber amor de sua mãe, apoio e senso de valor, recebe somente críticas o tempo todo, uma mãe que não consegue possuir a capacidade de dar amor - exceto nas situações em que faz hoovering: querendo trazer a pessoa de volta para a relação, onde, do nada, vem com uns mimos sendo que no dia anterior estava fazendo a filha/o filho se sentir muito inútil e sem significado. ao notar que essa pessoa está prestes a se fechar e se defender, querendo se afastar da sua fonte de dor, assim como é natural de todo ser humano com um emocional saudável, ela reverte tudo que fez anteriormente (obs.: não pede desculpas NUNCA) para atos repentinos de amor. não se engane, quem ama de verdade não machuca.
b) ela protege. será? na realidade, a proteção e o senso de possuir alguém para nos ajudar no mundo, nos guiar, não existe com uma mãe narcisista. ela não tem o menor interesse em proteger, por sinal, se algo estiver ocorrendo contra a vontade dela, ela vai surtar e fazer a filha/o filho se sentir muito sozinha e desprotegida, exatamente para que a mesma não consiga viver sem ela. muitas vezes, por sinal, ela inclusive profere essas palavras: "você não vai conseguir viver sem mim", "sem mim você não é nada". MUITA vontade de ter uma pessoa co-dependente dela, POUCA vontade de amar de verdade.
c) dá carinho. uma das coisas mais difíceis de se receber de uma mãe narcisista é carinho e amor.
d) faz a filha crescer de forma saudável. na realidade, infelizmente, acontece exatamente o contrário: é triste ver o número de pessoas que ou chegaram a desistir de suas vidas por possuírem esse vazio ou que até hoje, mesmo adultas, possuem muitas sequelas no psicológico com relação à uma pessoa que às vezes não está mais aqui, mas que marcou muito a sua vida, porém de forma nada saudável.
honrar os pais incondicionalmente, em especial a mãe
para muitos, desde terceiros até a própria filha de mãe narcisista, reclamar de qualquer atitude de sua mãe, mesmo a mais absurda, sem sentido e maléfica, é desonra-la. bem, se é para falar de honra, que falemos de igual para igual. não existe respeito sem que a pessoa que o exige também dê respeito. a pessoa pode até parecer te respeitar, mas na realidade, respeito que não é recíproco não é respeito, é medo. você não respeita o outro e ao invés de dar uma base boa para a relação ser o mais horizontal possível, com sinceridade, abertura e companheirismo, abre espaço para o medo existir. a pessoa te "respeita" sim, mas é por medo. não existe desonra em uma frase de crítica à sua mãe. antes de você pensar em critica-la, quem criou toda essa situação foi ela.
porém, o que vemos na realidade e que eu gostaria que você leitor refletisse a respeito é que:
- nem toda mulher possui o espírito e maturidade emocional para ser mãe
- muitas mulheres escolhem ser mãe para preencher um vazio
- muitas mulheres escolhem ser mãe para tornar a (o) filha (o) uma extensão de si mesma,m para que, quem sabe, elas finalmente possam se sentir menos vazias. afinal, para a nossa sociedade a maternidade é uma “obrigação” e uma “realização da mulher”.