você me perguntou que tipo de amor nos conserta
e eu te disse
nenhum
[um dia, quando eu tinha nove anos, fui ao mercado comprar alho pra minha mãe terminar o almoço e vi o casal do apartamento ao lado discutindo na fila do caixa. eles eram o casal mais bonito que eu já tinha visto na vida. tanto ele quanto ela, as pessoas mais bonitas que eu tinha conhecido até ali. e eles sempre saíam de mãos dadas e sempre sorriam um pro outro, mas não naquela fila e não naquele dia. naquele dia ela parecia ter chorado e ele tinha a expressão cansada. eles não deram as mãos ou sorriram. e eu fiquei triste também, mesmo sem saber, mas fiquei. na volta pra casa eu pude ouvir ele dizendo: você precisa parar de tentar me transformar no seu pai. e ela dizendo: eu só quero o que é melhor pra nós dois. ele disse: pra mim não. e ela saiu andando na frente, com parte das compras e o pisar forte no chão.
quando eu cheguei em casa e entreguei o alho pra minha mãe, quis encostar o ouvido na parede da sala pra tentar continuar ouvindo se eles falassem algo, mas hesitei. fiquei sentada no sofá tentando captar na memória um dia em que eles pareceram não gostar tanto um do outro e, ao não encontrar, me perguntei como eu poderia ter perdido esse momento.
ninguém deixou de ouvir o barulho dele carregando alguma coisa pra fora, nem os soluços que ela soltava no que parecia ser um daqueles choros mudos que eu também dava quando minha mãe me batia.
meses depois, eu a vi conversando com a vizinha. ela não parecia a mesma pessoa de antes, mas ainda era assustadoramente bonita. a vizinha, assim como eu, custava a acreditar que eles tinham se separado. "vocês pareciam perfeitos", disse. concordei em silêncio. e ela respondeu, com uma voz tremida, "é isso que a paixão nos faz acreditar que sim, mas você só sabe que é amor quando aceita que não. nós não conseguimos".
eu tinha nove anos, pra mim era só como uma daquelas brigas que os casais tinham nos filmes. eu esperava que ele fosse aparecer, num dia de chuva, e gritar lá da rua que a amava e que eles foram feitos um pro outro, mas ele nunca veio. ela apareceu com um novo namorado, que não era tão bonito, eles não andavam sempre de mãos dadas ou sorriam feito bobos um pro outro. eles brigavam e deviam pedir desculpas, porque continuavam juntos.
então eu entendi.
eles se aceitaram. imperfeitos.
só podia ser amor]
você me encarou com olhos surpresos. eu ri.
o amor aceita. não a violência, nunca a violência, mas a imperfeição.
o amor não conserta. ele celebra.
a erosão da gente é quem a gente é.



















