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Eu dei o meu melhor na versão mais sincera que eu tinha e mesmo assim não foi suficiente e isso… quebra a gente de um jeito que ninguém vê.
Escriturias
Escolhida
24/04/2026
Não precisei te escolher, nossos guias fizeram isso por nós, e há algo de profundamente inquietante nessa ideia de não escolha, como se, antes mesmo de qualquer decisão consciente, já existisse um desenho traçado, uma espécie de acordo silencioso firmado em algum plano que não depende da nossa compreensão imediata.
O firmamento do Orí soube antes de mim que você era a escolhida por ele, e talvez por isso eu tenha chegado até aqui sem resistência, não como quem atravessa um caminho desconhecido, mas como quem, em algum momento, percebe que nunca esteve fora dele, que apenas demorou a reconhecer os sinais que sempre estiveram ali, discretos, insistentes, aguardando o tempo certo de serem entendidos. Havia algo no chão molhado, nas folhas espalhadas aos meus pés, que não parecia acaso, como se cada detalhe tivesse sido cuidadosamente disposto por uma intenção silenciosa, dessas que não se explicam, mas se impõem ao corpo antes mesmo de qualquer elaboração racional.
Pisei descalça, e naquele instante percebi que não era apenas o corpo que se despia de proteção, porque havia uma outra camada sendo exposta, mais antiga, mais sensível, mais difícil de nomear, como se eu estivesse sendo convidada a existir de uma forma que ainda não dominava completamente. E então a dúvida veio, inevitável, quase como um reflexo dessa lucidez repentina, será que escolha mesmo existe quando o encontro já foi decidido antes da consciência, ou será que tudo o que chamamos de decisão é apenas o reconhecimento tardio de algo que já estava em curso?
Porque, se penso com mais cuidado, o primeiro passo nunca foi exatamente sobre você, embora hoje seja impossível te separar desse percurso, foi sobre chegar, eu entendi depois, exige um tipo de coragem silenciosa, dessas que não fazem alarde, mas que deslocam tudo internamente sem pedir permissão. Chegar sem saber exatamente o que se está buscando, mas com uma inquietação que já não cabe mais no próprio corpo, chegar ainda atravessada por outras crenças, outros medos, outras tentativas de explicar o que sempre foi maior do que linguagem, chegar desconfiada, mas, apesar de tudo, aberta.
A religião me acolheu primeiro, e não como resposta pronta, mas como processo, me ensinando a escutar o silêncio, a respeitar o tempo das coisas que não se revelam de imediato, a entender que pertencimento não é algo que se declara, mas algo que se constrói lentamente, na repetição dos gestos, na permanência, na entrega gradual que só depois de algum tempo ganha sentido. Me deu chão, mesmo quando eu ainda não sabia andar descalça sobre ele, me deu nome para forças que antes eu só sentia de forma dispersa, quase caótica, como se, aos poucos, tudo começasse a encontrar algum tipo de organização dentro de mim.
E então, quando eu já começava a compreender o que era pertencimento, você aconteceu, não como ruptura, não como desvio inesperado, mas como continuidade de algo que já vinha sendo preparado em silêncio, como se a primeira casa tivesse me ensinado, pacientemente, a reconhecer a segunda sem medo de estar enganada, sem a urgência de nomear antes de sentir.
Porque foi isso que você se tornou, casa, mas não no sentido fácil, romântico, desses que cabem em frases prontas ou em idealizações confortáveis, você se tornou casa no sentido mais exigente da palavra, aquele que abriga e, ao mesmo tempo, revela, que acolhe, mas também confronta, que oferece permanência, mas exige verdade, um lugar onde já não é mais possível fingir que não se sente, onde toda tentativa de distração falha diante da evidência do que se tornou impossível de ignorar.
E talvez seja por isso que tudo tenha feito sentido só agora, não antes, não no tempo impreciso das outras versões de mim que ainda não sabiam sustentar o que sentiam sem transformar tudo em excesso ou em fuga, porque havia sempre alguma imaturidade disfarçada de intensidade, alguma tentativa de nomear o que ainda não estava pronto para existir com essa nitidez que hoje me atravessa sem pedir licença.
Aos 31 anos, te encontrei, e digo encontrei com a consciência de que essa palavra, aqui, falha um pouco, porque não houve exatamente um começo, não houve aquele instante inaugural que costuma marcar as histórias que ainda precisam se provar. O que houve foi um reconhecimento lento e inevitável, como se o caminho até você já estivesse traçado muito antes de mim, como se cada desvio, cada tentativa frustrada, cada história que não se sustentou tivesse servido apenas para me trazer até esse ponto específico em que nada mais parecia fora de lugar, nem mesmo o que ainda doía.
Porque aos 31 eu já não confundia mais intensidade com permanência, já não romantizava silêncios que ferem nem presenças pela metade, já conhecia o peso das escolhas que não se fazem e o custo emocional de permanecer onde não se pode existir por inteiro, e ainda assim, mesmo com essa lucidez quase inconveniente, foi você quem apareceu, justamente quando já não havia mais espaço para ilusões confortáveis, justamente quando tudo em mim exigia verdade, mesmo que ela viesse acompanhada de conflito, de medo ou de impossibilidade.
E talvez tenha sido exatamente isso que tornou tudo diferente, porque você não chegou como promessa, nem como preenchimento de ausência, nem como resposta para alguma falta que eu ainda carregava, você chegou como revelação, no sentido mais exigente da palavra, revelando não só o que eu sentia, mas o que eu já era e ainda evitava sustentar, como se, ao te reconhecer, eu também fosse obrigada a me reconhecer sem desvios, sem atalhos, sem a proteção confortável de não nomear.
E eu poderia insistir na ideia de acaso, poderia reduzir tudo a coincidência ou ao tipo de encontro que acontece porque duas pessoas, em algum momento, se cruzam no tempo certo, mas isso seria simplificar demais algo que, desde o início, carregava uma densidade diferente, quase como se já estivesse sendo conduzido por uma lógica que não depende inteiramente da nossa vontade, uma lógica que eu aprendi a respeitar quando cheguei à minha primeira casa, aquela que me ensinou a escutar, a esperar, a entender que certos processos não se explicam, apenas se atravessam.
A religião me ensinou a chegar, mas foi você quem me ensinou a ficar, e aos 31 anos eu finalmente entendi o que isso significa, porque chegar exige coragem, mas ficar exige verdade, e a verdade, eu aprendi, nunca é confortável quando envolve reconhecer onde, e em quem, a gente realmente pertence.
e eu sou sua, de corpo e alma.
Lorrane :)