❛ ⧼ —— ⟡ Se havia algo que Úrsula sempre detestou em — além é claro, do péssimo gosto para decoração — era a falta de serviçais a sua disposição. Em seu palácio, quando queria algo, era apenas pedir que os criados praticamente lutavam entre si para atendê-la — ou ao menos era o que a antiga princesa parecia acreditar —, mas naquele lugarzinho infernal e após o roubo de seu trono, ela só poderia contar com Vladmir e, como se isso já não fosse sofrimento demais, ela ainda precisava persegui-lo pelo colégio. Apenas para ouvir aquele tipo de coisa. ❝ — Vladmir ❞, ela sibilou, segurando o súbito impulso de massagear as têmporas. Eu só posso ter usado o Santo Sudário como lenço demaquilante para estar sendo castigada desse jeito. ❝ — O que te faria pensar que eu me importaria com o que o que o seu irmão escreveu numa lista de compras?! ❞, a voz se tornou mais aguda ao pronunciar aquelas palavras, como se para frisar a falta de nexo daquelas sugestão. Porém não ofereceu muito tempo para que o cozinheiro lhe respondesse. Ele não pensava, simples assim. Ao invés disso, arrancou a lista de suas mãos e então a amassou de qualquer jeito antes de tacar em algum canto do chão e desatar com suas reclamações. ❝ — Agora foco no que é realmente importante: eu estou morrendo de fome e preciso que você venha comigo trocar todos os móveis do meu quarto de lugar. A da princesa da China ousou dizer que seu não seguisse o tal de fugu shu dela, não só não viraria rainha como acabaria com rugas!! Para ser sincera, acho que aquela vaca só falou aquilo de inveja, mas não posso correr o risco de ter rugas! Já imaginou como eu ficaria horrível nos meus retratos reais?? Você por acaso quer que eu fique horrível nos meus retratos reais?? Não, você não quer, então vamos logo! ❞
A presença de Ursula na vida de Vladmir já era comum. Desde que ela o recrutara para o honroso cargo de ser seu cozinheiro e faxineiro ––– tarefas que o terceiro Donndubhán realmente tinha apreço em realizar ––– ele se esforçava ao máximo para ser do completo agrado da princesa romena, mas ela nunca parecia totalmente bem consigo mesma. Vlad tentara de tudo: lavara o banheiro, fizera os mais deliciosos bolinhos de alho poró e espinafre, organizara seu quarto com o quadro ornamentados com a escrita "Úrsula é A Rainha e Ninguém Vai Dizer que Não" posicionado na cabeceira da sua cama ––– e Donndubhán tinha certeza de que 'dizer' estava escrito errado. Provavelmente se escrevia 'diser', e os pintores haviam se confundido. Será que se Vlad consertasse aquela palavra Ursula ficaria finalmente feliz? " ––– O Dmitri? Pode se importar, talvez, menos da vez que ele te chamou de mala de Hela e mandou você pegar seu ego e enf..." Vlad não completaria nenhuma frase com palavrões ––– eles já eram muito utilizados pelo Dmitri e pela Natasha ––– mas mal teve tempo de processar essa informação quando sentiu a lista de mercado ser arrancada de suas mãos. " ––– Ursula!" Proferiu, a tonalidade da voz melancólica. " ––– Não jogue papel no chão. Faz mal para o meio ambiente." Das poucas coisas que Vlad sabia, aquela era uma delas. " ––– Os esquilos podem comer e morrer! Não queremos esquilos mortos." Nunca mandava a mais jovem fazer nada, visto que quem mandava nele era ela, mas não podia evitar se a vida dos esquilos estava correndo risco. " ––– Fome? Mas eu acabei de te fazer uma macarronada vegana deliciosa. Você..." Cogitou por um tempo, até proferir um "ah" que indicava entendimento da situação. " ––– Já sei! Você não comeu a sobremesa, claro! Temos salada de frutas tropicais vindas diretamente da Rússia, e também mousse de chocolate e maracujá. E um cafezinho no final, é claro." Sorriu com as inúmeras e deliciosas possibilidades de alimentos que ele mesmo havia preparado ––– se queria deixar Vlad feliz, era só elogiar sua comida, ou seus escoteiros. " ––– Vaca? Na China? Achei que elas eram sagradas na Inglaterra, mas não lembro bem... Você falou com uma vaca, Ursula?" E cogitou a possibilidade de uma vaca falar, mas... aquilo seria obviamente impossível. Se falassem, Vlad já teria conseguido se comunicar com elas. " ––– Acho que seus retratos reais sempre saem muito bonitos, principalmente quando o Escoteiro Josh que o faz. Da última vez ele fez você num estilo que chamou de arte abstrata. Quando ele explicou os traços que utilizara e o porquê você parecer pesar muito mais no desenho ele falou que seguiu a interpretação de Pablo Pigarro, e fez você grande e com muitos quilos porque por dentro você era grandiosa. Achei inteligente e poético, você não?"