Há uma estranha elegância em fingir que certas dores já não nos alcançam. Aprendemos, com o tempo, a vestir serenidade como quem veste um velho casaco: não porque ele nos aqueça verdadeiramente, mas porque oculta o tremor que insistimos em esconder dos olhos alheios.
Então sorrio.
Sorrio com a delicadeza de quem deseja poupar o mundo de tempestades que jamais compreenderia. Enterro os pensamentos nas profundezas da consciência, onde ninguém possa ouvi-los ecoar, e faço deles um silêncio disciplinado. À superfície, tudo parece intacto. As palavras continuam gentis, os gestos permanecem leves e a vida segue seu curso como se nada houvesse se partido dentro de mim.
Mas há uma diferença imensurável entre o que repousa e o que apenas foi silenciado.
Porque aquilo que fingimos esquecer não desaparece. Apenas aprende a viver em lugares mais discretos da alma. Habita as pausas entre uma conversa e outra, os instantes em que a madrugada pesa sobre os ombros, os segundos em que um simples detalhe devolve à memória aquilo que julgávamos sepultado.
Ainda incomoda.
Não com o ímpeto devastador das primeiras feridas, mas com a persistência melancólica das cicatrizes que, vez ou outra, recordam ao corpo o lugar exato onde a dor escolheu permanecer.
E, ainda assim, permaneço calado.
Não por ausência de palavras — elas existem em abundância dentro de mim, organizadas com uma precisão quase dolorosa. Calo-me porque compreendi que nem toda verdade encontra abrigo em ouvidos dispostos a acolhê-la. Há sinceridades que, ao deixarem nossos lábios, sofrem uma estranha metamorfose: deixam de ser confissões para tornarem-se acusações; deixam de ser vulnerabilidade para vestirem a máscara da culpa.
É um destino curioso o de quem sente profundamente. Muitas vezes, o simples ato de dizer "isso me feriu" basta para que o mundo responda chamando-o de exagerado. Como se a dor devesse sempre justificar sua existência diante do tribunal das aparências.
Por isso escolho o silêncio.
Não porque ele seja menos pesado que as palavras, mas porque, às vezes, carregar a própria dor em segredo parece menos cruel do que vê-la distorcida pelas interpretações alheias.
Existe uma exaustão silenciosa em precisar administrar aquilo que sentimos para não ocupar, diante dos outros, o papel do vilão de uma história que jamais desejamos escrever. É como caminhar descalço sobre cristais e, ainda assim, preocupar-se em não deixar que percebam o sangue sob nossos pés.
Talvez essa seja uma das maiores tragédias da condição humana: não apenas sofrer, mas aprender a suavizar o próprio sofrimento para que ele não incomode aqueles que jamais precisaram carregá-lo.
E assim continuo.
Com um sorriso cuidadosamente esculpido, uma ternura que resiste ao desgaste e um coração que aprendeu a transformar o próprio peso em silêncio.
Porque há dores que não deixam de existir.
Elas apenas se tornam educadas o suficiente para não interromper a conversa.















