Tem essa dor no meu peito que me puxa pra baixo. Ela prende minha respiração e volto para o meu lugar, a água, o único lugar silencioso o suficiente para sufocar meus pensamentos. Ser afogada nunca foi tão delicioso.
Mas então eu saio, as gotas pingando lentamente do meu corpo para o chão. Enquanto elas saem, os pensamentos voltam. Então estou no caos de novo, na gaiola, presa como um pássaro com suas asas cortadas. Aquela cobra volta a me persuadir, com sua língua roçando em meus ouvidos, dizendo mentiras e jogando uma boia salva vidas para que a ansiedade volte. Ela não é convidada, vem de penetra.
Desejo ser um peixe, um golfinho, um tubarão. Percebo que sufoco nesse ar, poluído, impuro e cheio de más intenções. Grito, mas nenhuma voz sai. Meus pulmões anseiam pela água, pelo que ela me faz sentir. Meus ouvidos doem, desejando estar anestesiados por aquele silêncio azul. Percebo que tenho uma relação de simbiose com o mar, com a água. Preciso dela para sufocar as coisas ruins, ela precisa de mim para manter o equilíbrio.
Por um momento, desejo que isso seja verdade. Mas ela nunca precisará de uma garota para sobreviver. Ainda assim, ela me recebe de braços abertos. Doce, salgada, quente, fria. Sempre convidativa, sempre derrubando todas as barreiras que criei ao meu redor. Respiro fundo, sinto seu cheiro e ouço seu chamado. Volto para a água, mesmo sabendo que é errado.
Pela primeira vez, desejo que os maus pensamentos morram afogados de uma vez por todas. Desejo que o mar os leve, como leva embora as algas que um dia lhe pertenceram. Mas essa não é a tarefa d'água, talvez seja minha. Talvez ela seja apenas o meio, apenas a medicina.
Com o aperto ainda no coração e o ar preenchendo meus pulmões, faço a única coisa que posso para voltar ao lugar a onde eu pertenço. O sal desce pelas minhas bochechas e a água sai de mim, me lembrando o que sempre soube:
Sou parte dela. E ela é parte de mim.