キスで殺して
No templo vermelho habitava um espírito humano.
[*espírito no sentido de yuurei]
Há quanto tempo estava preso ali? Como mais um objeto deixado para trás, esquecido pelo tempo no antigo e grande templo, outrora majestoso e muito frequentado. O torii vermelho ainda se impunha na entrada, mas as paredes, outrora com desenhos de camélia e crisântemo em ouro, já estavam gastas, entre as pedras e corredores, dentro e fora, a grama crescia, e muitas estátuas já haviam quebrado.
Um desperdício pelo tamanho e formosura.
Mas a montanha era longe, o caminho, ouvira dizer, fora dificultado depois de um terremoto e a população local pareceu desistir de reconstruir com rapidez. Talvez Benzai-Ten houvesse mudado de residência, voltado para os céus e deixado-o ali para cumprir sua pena.
Ainda assim, muitos fugitivos iam até a montanha, escondiam-se nas ruínas, mas nunca entravam no quarto central, o que ele habitava. De frente para um lago, de pedras com musgos, poucos peixes, e sem a glória de outrora. Havia ainda aqueles que iam até o templo por seguirem o barulho de água, os que se perdiam nas florestas e seguiam o pequeno rio que contornava o leste do local.
Ninguém ficava muito tempo. A montanha era maldita.
Outros espíritos ali viviam, irracionais, a procura de almas para saciarem sua fome – ou sangue, e, no caso de animais selvagens, carne humana.
A ele foi concedido maior poder, não era um ayakashi, seu orgulho, o mesmo que o levou à queda, o impedia de transformar-se em um monstro qualquer (ou fosse o desejo da deusa). Poderia salvar os pobres jovens que, por amor, ali se escondiam, tentando encontrar a liberdade almejada por seus corações, de outros espíritos; poderia guiar os perdidos, mas mantinha-se em silêncio, fingindo não ouvir os pedidos de socorro ou as marcas de sangue nas árvores.
(nada restava, ainda que não se tratasse de grandes bestas, os espíritos sempre conseguiam eliminar vestígios e tornar a pessoa apenas lembrança para a família)
Em outros tempos, quando ainda era vivo, habitou um castelo, sua linhagem nobre o dispensava de trabalho, dedicando-se às artes e música, seu coração, porém, sempre frio e distante, quase inexiste. E ainda que fosse belo, nunca se casou, por uma dama não se interessou e nem mesmo admirou o amor – não considerava necessário, apenas uma fonte de inspiração para artistas populares. Sua dedicação às leis acima da compaixão, seu orgulho acima de qualquer emoção.
Não seria sábio culpar toda a família e gerações por seu erro, disse, porém, Benzai-Ten, a deusa que seu irmão era devoto, ainda que não fosse comum a um homem. Se, em defesa da honra, e do que acreditava, ele preferiu ignorar a benção da deusa no casamento de seu irmão com a pessoa que amava, para que houvesse união entre outra família nobre, fazendo com que à morte seu irmão preferisse entregar-se, então, decidira a deusa, que ele vivesse pelos dois.
Até que seu orgulho não superasse sua humanidade.
Até que, de fato, compreendesse aquilo que nunca aprendera em vida.
- sozinho, pois até mesmo depois de morto, aos outros afastava -
E embora fosse um espírito, ainda mantinha a marca que a espada deixou ao tirar sua vida – a espada de uma deusa, para que seu corpo se mantivesse jovem, que sua mente não pudesse se esquecer do motivo de estar ali, mas que para que um dia entendesse que não lhe era uma maldição.
Tratava-se de uma graça, pois seu irmão sabia, e desejou, que ele pudesse sentir verdadeiras emoções. Porque Benzai-Ten lamentou pela alma vazia e, muito além de vingar pelo dedicado fiel, como deusa do que era, desejava que todos provassem daquilo que prezava.
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No templo vermelho habitava um espírito humano. No templo vermelho habitava Fuyuzuki.
Seus olhos ainda eram como as folhas de outono de momiji, seu cabelo, longo, era negro como o céu sem estrelas, pálido, esguio; o kimono vermelho à antiga moda Heian, muito diferente do que se passara a usar desde então.
Uma vez que o tempo não o afetava, logo esquecia quantos dias se passavam, percebia apenas as estações, mas nunca as contava para ter consciência de quantos anos chegavam. Às vezes sentia como se fossem horas desde que recebera sua condenação, em outras parecia séculos.
No início andava entre os visitantes do templo, que logo vieram a diminuir, não conversava, mas ainda aceitava alguma ou outra comida oferecida no grande quarto central. Foi a fonte de lendas, a de que um espírito habitava o antigo templo de Benzai-Ten, por vezes confundido com a própria, ou com um monstro, a memória humana é falha e sempre estavam a contar coisas novas. Com o passar dos anos, e após o encerramento de visitas de devotos (devido ao terremoto), percebeu que já não sentia fome ou sede, a não ser que assim desejasse – mas já não via frutas ou a própria água com desejo –, que dormia menos ou nem mesmo o fazia. E que nem todos podiam vê-lo, ainda que a maioria ouvisse sua voz ou seus passos. Podia se molhar, mas não se afogar; podia sentir o vento, mas dificilmente frio.
Dava-lhe agonia, mas também parecia não se importar. Porque mesmo que quisesse colocar um fim àquela existência sem sentido, não poderia.
E se outrora pensava em ajudar os que ali chegavam, as décadas lhe drenaram a vontade.
Não pedia perdão a Benzai-Ten, não adiantaria; também não pedia por companhia – embora houvesse sido garantido a realização de um único pedido.
Já havia lido todos os antigos livros da biblioteca, alguns já esfarelavam nas estantes – mas suas mãos, uma vez não mais mortais, não as danificavam como a de um homem vivo. Caminhara até o fim da montanha, há muitos anos, para ver uma estrada de chão deserta – e ali era seu limite. Nos últimos tempos (porque não saberia dizer se eram meses ou anos) do templo já não saía, raramente, durante a noite, caminhava pelo jardim, como se pudesse encontrar um túmulo e ali poder descansar.
Recentemente, porém, passara a ouvir mais vozes (mais do que o os costumeiros casais fugitivos, ladrões ou andarilhos), se tivesse ido até os limites de sua morada, saberia que a estrada estava nova outra vez, apenas a montanha que se mantinha esquecida.
Até o início da primavera, de algum ano que ele jamais poderia imaginar.
Alguém havia conseguido passar por quaisquer obstáculos, pontes quebradas, animais, ou ayakashi, e, aparentemente, ainda com todas as histórias más sobre o local (que Fuyuzuki ainda pensava que falavam), o templo lhe era o local mais seguro. As flores de cerejeira começavam a desabrochar, aguentando as chuvas daquele mês, mostrando-se fortes para dar novas cores ao local após um severo inverno que deixara temperaturas ainda muito baixas.
Era um jovem de cabelos curtos e negros que, como um corvo atrevido que não pede licença, adentrou o templo e escolheu um dos melhores quartos ainda existentes, mais adentro, provavelmente do que fora de um monge do local, para repousar. Não que o templo fosse seu, mas depois de tanto ali viver, Fuyuzuki sentiu-se ultrajado.
Havia muito que não via alguém de perto, ou que fazia questão de, logo, surpreendeu-se com as roupas da nova Era que existia (ao menos foi o que concluiu, já que nem mesmo uma katana o jovem possuía, e o corte de cabelo? E o que era aquilo que segurava em uma das mãos e soltava fumaça e mal cheiro?), jamais poderia dizer com certeza se tratava-se de um mendigo ou alguém rico.
(e pela primeira vez quis saber há quanto tempo estivera ali)
Espiava do corredor e, o que via, parecia machucado, o rosto, as mãos, a roupa, talvez tivesse saído de uma briga. Não aparentava ser mais velho do que ele mesmo, talvez a mesma idade, resmungava alguma coisa sobre família, pai, irmãos, desgraça. Um soco no velho tatame e Fuyuzuki arqueou a sobrancelha e suspirou – somente um revoltado com a vida?
Já havia dado as costas para fazer qualquer coisa que não fosse observar alguém lamentar sobre a vida em um local que não lhe pertencia (claro que Fuyuzuki ignorava que ali era mais para uma cela do que sua casa também), quando o ouviu chamar.
Não por seu nome, claro, duvidava que alguém saberia seu nome; entretanto, aparentemente, o novo hóspede mostrava-se como um dos capazes de ouvi-lo ou até mesmo vê-lo, considerando a ofensa gratuita que recebera por supostamente tê-lo seguido.
Respirou fundo, não se rebaixaria, tudo o que precisava fazer era continuar andando e logo o ser vivo deixaria o local.
Mas quando dera alguns passos ouvira outros, pesados e nervosos, além de outra batida na parede (o que lhe fez pensar se o visitante sabia que o templo era antigo e poderia fazer o teto cair em cima dele se continuasse a ser rude).
“ Hey, princesa, o que faz aqui?”, ouviu pela primeira vez em décadas alguém referir-se a ele, e pela primeira vez em tom esnobe, depois de uma pausa, aparentemente, o jovem reformulara o que ia dizer.
Sentiu a raiva na garganta, os olhos semicerrando com o título que ouviu, mas ainda muito cheio de si para dar alguma atenção. Encontrou o motivo para deixar que humanos morressem pelo caminho pelas mãos de outros: corria o risco de ter sua paz perturbada.
Continuou com passos leves, atormentado pela ideia de ter de aguentar alguém querer conversar depois de tanto tempo. Teria de encontrar um esconderijo, uma vez que Benzai-Ten não lhe deu o dom de desaparecer quando bem quisesse, ainda que pudesse fazer algumas das coisas consideradas de espírito, como atravessar paredes, mas isso era devido ao seu corpo entre o limiar do material e imaterial. Poderia tocar, se desejasse, mas poderia ultrapassar se lhe fosse conveniente, nunca entendera muito bem, a deusa nunca lhe fizera questão de explicar.
Sua sentença era maior do que aparentava.
“Mas o que....?”, ouviu a própria voz, que já lhe soava estranha por quase não usar, ao ter o braço puxado pelo outro jovem.
Em outros tempos ninguém ousaria aquilo.
Na verdade, não sabia que alguém faria isso com um espírito, mas a surpresa até mesmo o fez esquecer que poderia resolver de uma maneira muito simples.
Não se importou com o que ouviu, sobre usar roupas estranhas, sobre como ninguém mais usava aquilo, sobre como se parecia como uma princesa, ou as perguntas acerca de ser um prostituto que havia fugido, ou qualquer outra coisa.
Estava atônito, desacostumara-se a conversar com outros, tocado, notado. Quando se está morto é esperado que fujam de ti ou que o tratem como um morto.
Além disso, a maneira que o jovem falava era diferente (e ouviria o mesmo comentário sobre si quando passasse a falar mais – que falava como um velho), e por mais que explicasse que dizia a verdade sobre aquelas serem suas únicas roupas, depois conseguir uma distância razoável, o jovem insistia em que confessasse, então, de qual casa noturna era. Havia percorrido todo o território do templo, inclusive o jardim, seu último ponto, tentando, em vão, fazer com que o homem perdesse o interesse em si.
Tudo o que conseguiu foi mais perguntas, para seu desgosto.
“Então você mora aqui? No meio do nada e sem comida?”, o observou rir cético.
“E poderia eu morar em outro lugar? Como lhe disse...”, ouviu outro riso, o outro não acreditava em deuses, nem mesmo em espíritos (o que se provou algo bem irritante, afinal, como poderia então afastá-lo?) ou maldições.
Olhou para o céu, cinza e com indícios de uma forte chuva, não que lhe incomodasse, mas, com sorte, logo o aborreceria e a chuva ajudaria para fazer o homem ir embora, deixando-o só novamente.
E assim aconteceu, mas o jovem partiu apenas depois da chuva, após mais algumas perguntas repetitivas, monólogo e descobertas do local – muito embora Fuyuzuki o alertasse sobre os perigos de andar sozinho na floresta de noite em mais uma tentativa de apressar sua paz.
E o templo vermelho voltou ao silêncio. E no templo vermelho Fuyuzuki voltou a passar seus dias, mas agora pensava se havia passado muitos anos desde sua sentença.
Não sentia falta de pessoas, ainda que o aroma do ar houvesse se alterado, o sabor do local tornara-se menos insípido. Ouviu mais alguém a perambular pelas árvores, mas não deu-se ao trabalho de ir ao encontro, viu algum ou outro monge rezar ao pé da montanha quando aventurou-se novamente para os limites, mas logo percebeu que nada havia alterado grandemente por lá.
Era uma ilha atemporal, uma montanha esquecida.
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Mas no mês seguinte ao templo vermelho o jovem retornou. E desde então suas visitas passaram a ser semanais, às vezes dois dias seguidos, às vezes falava, outras não. Alguns dias encontrava tudo vazio, devido à falta de simpatia do residente, em outros passavam horas lado a lado.
(logo as horas que ficava sozinho tornaram-se raras)
Hisoka era seu nome, Fuyuzuki aprendeu na terceira visita, já que na segunda ele estava ainda mais machucado e quieto – o próprio morador do templo preferiu não sair de onde estava e revelar-se, muito comum tratando-se dele. Por ser distante, Hisoka considerava o templo ideal para ficar só – mesmo que, tecnicamente, nunca fosse estar só –, problemas familiares, resumiu, seria preferível viver e morrer ali a aguentar tudo o que o esperava em casa (ainda que sempre voltasse).
Ainda não acreditava na história que lhe fora contada, para Hisoka, Fuyuzuki estava em um caso semelhante ao próprio, e a ver pela (única) roupa que usava, talvez bem pior. Sua princesa, como dizia, deveria contar logo a verdade para que pudesse receber ajuda. Depois de alguns encontros, porém, Fuyuzuki desistiu de tentar convencê-lo – assim como, quando vivo, desistiram de fazê-lo sentir algo. Limitava-se a conversas banais, muitas das quais não compreendia, principalmente sobre as que envolviam “estrangeiros”, “Tokyo” (que cidade era aquela?), “comércio com Londres”. Termos e conceitos que não existiam em seu mundo, novos conceitos que não fazia questão de pedir por explicação.
Passara, porém, a contar os dias, a aguardar o silêncio entre eles e as tentativas frustradas de Hisoka de ouvir algo que soasse mais sensato. Conversas pessoas eram raras, como se cada um não gostasse da própria vida que possuía, ou que havia tido. Muito, porém, estava subentendido: de um lado os atritos familiares, a vida um tanto quanto rebelde; do outro, a falta de interesse por outros, a maneira antiquada aristocrática medieval, a mania de ordens.
Talvez fosse a necessidade de ambos de permanecerem no templo, talvez já estivesse nos planos de Benzai-Ten, ou fosse mero acaso; aconteceu, porém, de agradarem-se da presença um do outro e de fazerem daquelas horas momentos de agrado, muito embora fossem apenas palavras, ou risos por parte de Hisoka. Claro, porque não havia como manter-se sério quando Fuyuzuki não sabia o que era livros modernos ou alguma outra comida ocidental (embora tivesse aprovado Hisoka levar sempre algum livro novo, já que havia decorado os existentes de lá).
Acima de tudo, Hisoka havia aprendido que não deveria fumar na presença de Fuyuzuki. Um acordo, um trato não dito. Sua recompensa foi, aos poucos, fazer com que o antigo nobre mudasse sua maneira ríspida de falar, mandando a todo momento.
Assistiram alguns verões, e mesmo Fuyuzuki não ser afetado pelo calor não foi o suficiente para convencer a Hisoka de que ele um espírito, assim como as poucas refeições ou as palavras já em desuso que saíam dos lábios do antiquado homem do templo.
Mas a natureza de Fuyuzuki não seria tão fácil alterada, tão logo percebeu o que estava a acontecer, tratou de evitar mostrar-se quando Hisoka ao templo ia. Como um pássaro que se esconde entre as árvores perante a presença de um estranho. Porque ainda era um nobre, ainda tinha em seu âmago resquícios de sua vida de outrora. E porque sabia que o inverno trataria de deixa-lo longe, a neve seria densa como nos outros anos e já o outono trazia ventos frios.
Não era correto expor o jovem aos perigos da floresta apenas por vaidade – pois já sabia que as idas ao templo não era apenas por fugas por paz e que não o tolerava apenas por não querer matá-lo.
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E o templo vermelho tornou-se como cemitério naquele inverno.
Com visitas, mas sem vozes.
Com saudade, cinza, apesar de branco.
(e as horas que ficava sozinho voltaram a reinar)
Até que no fim do ano já não havia mais marcas na neve do adorado visitante.
Fuyuzuki sabia que chamavam agora de mês de dezembro graças a um livro deixado para ele, aprendera poucas coisas, não por preguiça, mas por má vontade – não alteraria nada, não lhe seria útil conhecer o mundo.
Naquele mês, no último dia do mês, Fuyuzuki sentiu frio – como não sentia há muito tempo.
Passou dias sentado no topo da escadaria, de pedras antigas e com tantos pedaços quebrados. Um incômodo em algum lugar dentro de si que nunca sentiu antes, começava a supor que finalmente iria desaparecer e morrer de verdade, só podia ser aquilo. Amassava um punhado de neve e deixava num canto, semelhantes aos “onigiris” que Hisoka certa vez lhe oferecera. Até ouvir os costumeiros passos, a respiração pesada devido ao caminho ainda mais árduo naquela época do ano.
E, como um espírito no pensamento popular, veloz foi sua fuga para dentro do templo – ainda que fosse outra pessoa, não estava inclinado a ser gentil, ainda que não lhe restasse nada a fazer além de observar a paisagem imutável.
“Hey, princesa, eu sei que está aí.”, ouviu algo sobre neves não se darem forma sozinhas e alguma outra provocação.
E percebeu que daquela voz sentia falta. Não diria que seu coração acelerou, ele nem mesmo possuía um mais, nem mesmo formigamento na barriga (e, se fosse sincero, nem acreditava que tudo o que comia simplesmente desaparecia, como espíritos precisam para que assustem os vivos). Era muito mais profundo.
E por ser desconhecido tratou de esconder-se muito bem até que compreendesse, enquanto o ouvia chamar por seu nome. Quando finalmente parou, e havia novamente perdido a noção de tempo, pôs-se a andar pelo templo, precisava certificar-se de que Hisoka havia cansado e retornado a sua casa.
O que encontrou, porém, o fez arrepender-se de tanto demorar. Era noite, e não há hora instante menos recomendado para humanos estarem em locais próximos à concentrações de ayakashi do que este período. Na frente do templo, porém estava Hisoka, envolto a um cobertor preto (cor que parecia ser única na vida dele, notou Fuyuzuki), com outro ao lado, uma fogueira baixa a ser a única fonte de calor.
“Tolo.”, pensou, o fogo logo atrairia outros, e seria possível Hisoka tornar-se o próximo jantar. O que não lhe dizia a respeito, pouco importava se o outro dissera que pensou que talvez Fuyuzuki estivesse com frio ou que gostaria de conversar.
Observou de longe os lábios roxo tremendo ao vento gélido, enquanto ele mesmo sentia-se na obrigação de ir aquecê-lo – o que seria impossível, mortos são frios, no sentido literal.
(e é claro que não havia permitido ser tocado diretamente, ele era um nobre!)
Todavia, ainda que repetisse que não se importava, tão logo Hisoka adormeceu, retirou a camada exterior do kimono e colocar sobre o corpo adormecido. “Apenas porque não seria digno para minha honra deixar alguém morrer por algo assim”, murmurou enquanto, de fato, vigiava para que nenhum mal atingisse ao outro.
E por toda a noite permaneceu ali.
Mas, quando os primeiros raios de sol despertaram na manhã seguinte, revelou-se insuficiente sua ação. Hisoka adoeceu, pois fraca é a saúde dos homens vivos, mas a Fuyuzuki mostrou um sorriso, contando como fora difícil encontrar sua princesa daquela vez. E como talvez fosse verdade a existência de coisas estranhas, pois em seu caminho algo o acertara em sua perna, fazendo com que a caminhada fosse ainda mais cansativa, pois a perda de sangue possivelmente fora maior do que o imaginado.
Ora, Fuyuzuki vivera muitos séculos – percebia então – e havia visto muitos morrerem de várias maneiras, e reconhecia quando alguém já não teria dias a viver.
E, ah! Como desejou poder fazer um pedido a Benzai-Ten naquela hora.
Como desejou não ter demorado a ir ter com Hisoka, ou ter sido mais dedicado e checado se não havia ferimentos.
Porque pior do que perder alguém é saber que o irá.
“Hey, princesa, você está chorando?”, um riso fraco seguido de uma tosse, só então sentira as lágrimas descerem por seu rosto. Assustou-se, eram quentes e salgadas, a única coisa em si que tinha calor e gosto. Tocou-as com os dedos, procurando em suas lembranças algum dia que houvesse derramado por alguém, e somente pôde recordar-se de seu irmão.
Ah. Então era aquilo.
“Sabe, eu estou bem. Ah, já sei, você está emocionado por me ver”, Hisoka podia não perceber, mas sua voz já não estava tão forte como o costume. Pois somente os mortos percebem quem a morte já tocou para levar para si.
E somente aqueles que não terminam como há de ser o fim dos homens sabem qual o sofrimento dos que são alvos de ayakashi. Provavelmente Hisoka havia sido ferido para que não pudesse escapar enquanto o que quer que o tenha escolhido fosse torná-lo seu jantar e brinquedo.
“Fuyu?”, os braços que contornaram seu pescoço e o levaram para si, fazendo com que se encostasse ao peito do outro, impedindo-o de ver os olhos vermelhos amedrontados pela perda vindoura. Mas as próprias orbes negras surpreenderam-se ao perceber que não ouvia nenhum batimento cardíaco no outro. “Fuyu, seu coração...”, afastou-se, segurando nos ombros e negando-se a acreditar na história absurda que ouvira tantas vezes.
“Espíritos não existem. Monstros não existem”, Hisoka repetia mentalmente – porque se existisse, então, como poderia os dois serem reais?
Sua resposta, porém, foi o toque gélido, macio como a neve, em seu rosto. Uma textura estranha, um gesto simples, mas realizado pela primeira vez.
Se Fuyuzuki poderia fazer um pedido, e este ele desejou como nenhum outro, pediu à deusa que o deixou ali que poupasse Hisoka de tudo. Que lhe fosse garantido um beijo de morte, para que alma do outro pudesse repousar sem os males do mundo.
E conforme pedia em seu íntimo, as lágrimas lhe corriam – a única característica verdadeiramente viva em si –, e tão logo sentiu que lhe seria concedido, sentiu-se satisfeito e, ao mesmo tempo, triste.
A tristeza de perder alguém que se ama.
(mas pôde compreender o que não compreendeu quando vivo)
E com um pedido de desculpas o beijou pela primeira, e última, vez. Sem ouvir o que quer que Hisoka teria a dizer, sem dizer nada sobre si.
Em seu egoísmo humano.
Ainda que não soubesse ser o suficiente para ter sua sentença anulada.
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E o templo vermelho tornou-se um cemitério.
No templo vermelho habitava um espírito humano até que a paz lhe fosse concedida.
petitange0 tehe~ depois termino de editar e arrumar porque preguiça. ♥











