As Palavras do Meu Silêncio
Bom... faz tempo que eu não apareço por aqui. E faz ainda mais tempo que eu não consigo escrever de verdade.
É estranho admitir isso, porque as palavras sempre foram o lugar para onde eu corria quando tudo dentro de mim parecia confuso demais. Elas eram o meu refúgio, minha forma de respirar, de organizar o caos, de entender o que eu sentia. Sempre que alguma coisa doía, transbordava ou simplesmente existia dentro de mim, eu escrevia. E, de alguma forma, aquilo fazia sentido.
Agora, não.
Ultimamente eu passo horas encarando meu diário, meu bloco de notas, esta página e todos os lugares que um dia me fizeram sentir livre para colocar a alma para fora. Eu abro uma página em branco, deixo o cursor piscando, espero que alguma coisa aconteça... e não acontece.
Não sai nada.
Nada bonito, nada feio, nada triste, nada feliz.
Só um silêncio absurdo.
E o pior é que esse silêncio não significa que eu esteja em paz. Pelo contrário. Eu sinto que existe alguma coisa dentro de mim querendo sair. Eu sinto um peso, um incômodo, uma angústia, um vazio que ocupa espaço demais. É como se houvesse um grito preso em algum lugar do meu peito, mas ele nunca chegasse à minha garganta.
Foi aí que eu comecei a pensar que talvez eu não esteja sem palavras.
Talvez eu simplesmente não saiba o que estou sentindo.
Eu sei que existe alguma coisa aqui dentro. Eu sinto. Mas não consigo dar um nome. Não consigo olhar para isso e dizer "é tristeza", "é ansiedade", "é medo", "é cansaço". Parece que tudo se misturou em uma massa informe, impossível de traduzir.
E isso me assusta.
Porque sempre acreditei que, enquanto eu conseguisse escrever, eu conseguiria entender a mim mesma. Mas agora nem isso. É como se existisse uma parte de mim tão escondida, tão enterrada, que nem as palavras — justamente elas, que sempre me salvaram — conseguem alcançar.
Então, sei lá...
Talvez eu esteja escrevendo justamente sobre a incapacidade de escrever.
Talvez esse texto seja uma tentativa desesperada de fazer alguma coisa nascer desse vazio. De provar para mim mesma que ainda existe alguma voz aqui dentro, mesmo que ela esteja fraca, rouca ou quase desaparecendo.
Nos últimos meses eu tenho me sentido sufocada.
E eu nem sei dizer exatamente pelo quê.
Talvez seja a faculdade. Talvez sejam as responsabilidades que parecem nunca acabar. Talvez sejam as interações sociais que, às vezes, me drenam mais do que eu gostaria de admitir. Talvez seja eu mesma. Talvez seja alguma coisa que eu ainda nem descobri.
Eu realmente não sei.
Eu só sei que, às vezes, sinto como se estivesse sem ar, mesmo respirando normalmente. Como se existisse um peso invisível sobre o meu peito o tempo inteiro. E, junto com isso, veio esse bloqueio absurdo para escrever, para falar sobre mim, para transformar sentimentos em palavras.
É uma sensação muito estranha.
Como se alguma coisa estivesse tapando a minha boca.
Como se alguma coisa estivesse, aos poucos, calando a minha alma.
E isso é estranho porque eu sempre fui uma mulher de muitas palavras. Eu sempre tive textos demais, pensamentos demais, sentimentos demais. Sempre existiu um excesso dentro de mim.
Agora existem pausas.
Silêncios.
Espaços em branco.
Para falar a verdade, eu tenho evitado entrar aqui. Há um tempo eu até desinstalei o Tumblr. Nem sei exatamente por quê. Talvez eu só estivesse cansada de abrir um aplicativo onde eu não tinha mais nada para dizer. Talvez doesse lembrar de uma versão de mim que escrevia com tanta facilidade enquanto eu encarava uma tela vazia sem conseguir formar uma única frase que parecesse verdadeira.
Mas, hoje, eu senti vontade de voltar.
Não porque eu tenha recuperado as palavras.
Na verdade, continuo sem elas.
Ou talvez não seja exatamente isso.
As palavras ainda existem. Prova disso é que este texto está sendo escrito. Meus dedos continuam formando frases, meu pensamento continua encontrando um jeito de se transformar em texto. Mas elas já não têm a mesma clareza de antes. Antes, eu escrevia e entendia a mim mesma no meio do caminho. Hoje, eu escrevo sem saber exatamente para onde essas palavras estão me levando. É como caminhar no escuro, esperando que cada frase acenda uma pequena luz, mas encontrando apenas mais um pedaço da escuridão.
Talvez eu só quisesse deixar um sinal de vida por aqui. Dizer que eu ainda existo. Ou, pelo menos, que continuo tentando existir.
Sei lá... eu tenho essa mania idiota de desaparecer de vez em quando.
Às vezes eu volto.
Às vezes demoro.
Às vezes eu simplesmente não volto.
Mas eu me recuso a não voltar para as palavras. Me recuso a continuar encarando esse espaço vazio como se ele fosse definitivo. Então eu vou preenchê-lo, nem que seja com o meu silêncio.
Às vezes nem sei por onde andei.
Mas, dessa vez, a sensação é diferente.
Não parece que eu desapareci daqui.
Parece que eu desapareci de mim mesma.
Como se eu tivesse me perdido em algum lugar do caminho e ainda estivesse procurando a pessoa que eu era antes.
E talvez seja justamente isso que mais me deixa confusa.
Porque eu sinto que existe um universo inteiro dentro de mim querendo ser dito.
Mas, quando eu abro a boca...
Ou quando encosto os dedos no teclado...
Tudo o que encontro é esse silêncio.
E, por enquanto, esse silêncio é a única coisa que eu consigo escrever.
@souamorte











