Capítulo 1 - Mulheres que correm com os lobos
O alerta para ouvir com a “escuta da alma” começa logo no primeiro capítulo do livro, é um toque da autora para que os leitores entendam a importância das histórias antigas e como elas atuam na nossa vida quando bem interpretadas. A Mulher Selvagem está sendo ressuscitada conforme ouvimos os uivos, os contos e os cânticos, ela pode te visitar em sonhos, nos impasses e nos sentimentos injustiçados. A história contada nesse capítulo vem de povos que se dedicam aos ossos para que os mortos sejam ressuscitados e se chama “La Loba”.
A Mulher dos Ossos ou a Mulher-lobo, como é conhecida, habita um lugar que poucas pessoas tiveram a chance de conhecer, mas todos já ouviram falar. Normalmente ela cruza com pessoas perdidas, andarilhos ou exploradores de algo que preencha o âmago. La Loba é retratada como uma mulher que vive à espreita, com vastos cabelos e com corpo largo. Ela possui costume de evitar grande parte das pessoas e vive para uma única utilidade: recolher ossos. Apesar da sua morada ser repleta de variados ossos de várias espécies, ela tem preferência por lobos. Quando consegue reunir o esqueleto por completo, senta a beira de uma fogueira e prepara uma canção. Assim que a voz de La Loba e os braços caem sobre os ossos, lentamente vai sendo revestido por músculos e carne e depois pêlos, até que a criatura retome a vida. Seu canto permite que o ar entre nos pulmões do lobo, permite que seus olhos se abram e que a magia aconteça. O lobo sente toda a energia do canto e corre livremente pelo desfiladeiro, não se sabe exatamente o quê, se é a velocidade das suas patas, se é a lua banhando seu corpo ou a dança que a chuva faz em seus pêlos, mas repentinamente o animal torna-se uma mulher que se põe a rir enquanto corre sem amarras na direção do horizonte.
E é por isso que dizem que no entardecer, se estiver perdido, pode ter a sorte de aprender algo da alma com La Loba.
A Mulher Selvagem renasce quando mulheres se unem aos seus destinos de loba, à sua psique virgem e sem civilização. O cantar sobre os ossos se trata de resgatar fragmentos perdidos de nós mesmas e dar vida ao nosso todo, fazendo com que o selvagem nos guie. La Loba também é conhecida como "Aquela que Sabe", uma anciã que resguarda o destino de todas as mulheres e também as cria a partir de uma ruga na sola de seu pé divino. A sola do pé é percebida por muitos indígenas e povos da mata como se fossem seus olhos, sua conexão com a terra e sua energia, então caminhar com sapatos seria como estar de olhos vendados, e é por isso que Aquela que Sabe criou as mulheres assim, para lhes dar sabedoria inata e capacidade de se conectar.
Seja a Mulher Selvagem, La Loba ou Aquela que Sabe, esse arquétipo é mais velho do que o tempo e vive dentro de cada mulher como uma memória intrínseca do instinto feminino. É um espaço-tempo onde encontramos a fusão entre a delimitação do corpo e a alma, a racionalidade e o instinto, é onde mulheres e lobos correm sem mordaças. Esse lugar, essa força selvagem, pode ser vislumbrado na nossa busca pelo divino, no interesse pelos mistérios e pelo obscuro, pode ser sentido quando nosso coração acelera com uma música ou quando lágrimas caem ao ver uma criança correndo livre, sendo apenas o que é... La Loba ressurge toda vez que tocamos no nosso âmago algum lugar que nunca foi tocado antes, alguma parte que não sofreu influências das conjecturas sociais e nem foi corrompido e adestrado pelo mundo. La Loba é o que é, livre e inocente para ser, e não há nada que seja capaz de alterar sua natureza inefável e atemporal.
A brecha no espaço-tempo onde a Mulher Selvagem habita foi chamado por Jung de inconsciente coletivo, sendo retratado como o lugar onde as respostas são achadas, onde a cura mora. Esse mundo-entre-mundos requer muita sabedoria, já que é uma outra realidade onde tudo se encaixa e faz sentido, o que gera fantasias e desequilíbrios, por isso o mergulho interno se torna uma dificuldade para muitas; essa experiência precisa ser percebida como um mergulho em águas divinas, onde saímos mais sábias e esclarecidas do que antes de entrar. Todas as mulheres possuem capacidade em potencial de acessar o mundo-entre-mundos, rio por baixo do rio, nossa Atlântida, e é possível chegar até lá por meio da meditação, de sonhos intensos, da dança da alma, do canto que sai do peito, da escrita, de qualquer coisa que faça perder a noção da realidade em volta e apenas deixe imersa em magia... é nesse momento que pisamos no território de La Loba.