Cara, hoje eu percebi que perdi a conta de quantas vezes eu esqueci de comer. E o pior não é nem a fome que não vem, é que quando eu decido colocar alguma coisa na boca, tudo tem o mesmo gosto: papelão seco. Sabe aquela sensação de que o mundo perdeu o tempero? Pois é. Eu olho pro prato e só vejo obrigação.
É bizarro, bicho. A gente costumava rodar a cidade atrás daquele X-is específico, daquela pizza que ela adorava, ou passava horas inventando moda na cozinha. Cozinhar pra ela era o meu jeito de dizer "eu te amo" sem precisar abrir a boca. Agora, abrir a geladeira é um exercício deprimente. É tudo solitário demais. Um pote de sobra, um leite vencendo, o vazio ocupando as prateleiras onde antes tinha o iogurte favorito dela.
Eu tentei comer naquele lugar que a gente ia sempre, sabe? Pedi o de costume. Mas a cada garfada parecia que eu tava mastigando areia. O prazer de sentir o gosto das coisas foi embora junto com ela no banco do carona daquele outro cara. É como se o meu paladar tivesse entrado em greve em solidariedade ao meu coração.
Dizem que o amor passa pelo estômago, mas ninguém avisa que o luto faz o caminho inverso, trancando tudo por dentro. Eu tô sobrevivendo a base de café e desse amargor que não sai da garganta. O Dia 20 me mostrou que a saudade não só dói, ela desnutre. Eu tô ficando magro de alma, cara.
Desce mais uma rodada aí, porque se a comida não tem gosto, pelo menos o álcool ainda queima o suficiente pra eu saber que ainda tô vivo.