Dia 21: A rádio dos fantasmas
Cara, hoje eu cometi o erro clássico: liguei o rádio do carro e deixei no automático. E aí meu, começou a tocar aquela música. Não "uma" música, mas aquela. A música que era o nosso hino particular, aquela que a gente cantava errado, gritando, voltando da praia com o pé cheio de areia e o coração transbordando.
Puta que pariu, cara... em três segundos eu não tava mais no trânsito indo pro trampo. Eu tava lá, sentindo o cheiro do protetor solar dela, vendo o sorriso de lado que ela dava quando chegava no refrão. A música virou um portal, um buraco negro que me sugou pra um lugar onde eu ainda era feliz e nem sabia.
O pior é que agora eu não consigo mais ouvir nada, cara. Tudo parece gatilho. O rádio toca uma letra de amor e eu penso nela. Toca uma de fossa e eu me sinto o protagonista. Toca uma animada e eu sinto ódio de quem consegue dançar enquanto o meu mundo tá em ruínas. Eu virei o cara que odeia música, cara. Eu, que sempre vivi com fone de ouvido, agora prefiro o barulho do motor e o chiado do vento, porque o silêncio é o único que não me conta mentiras sobre "amores eternos".
Eu fico imaginando se essa música toca pra ela também. Será que ela troca de estação rápido? Será que ela sente um aperto no peito ou será que ela já trocou a nossa trilha por uma playlist nova, cheia de músicas que o "cara legal" apresentou pra ela? Dói pensar que a nossa canção agora é só ruído de fundo na vida nova dela.
Desce outra, cara. Hoje eu quero o som do gelo batendo no copo. É a única melodia que eu aguento ouvir sem querer quebrar o rádio.