Dia 19: O algoritmo do meu inferno
Mano, quem foi o gênio sádico que inventou essa função de "Neste dia, há 2 anos"? Puta merda, cara... eu tava de boa, tomando meu café, tentando focar na primeira tarefa do dia, quando o celular vibrou. Eu, inocente, achei que era trabalho. Mas não. Era o Google Fotos me mandando uma notificação colorida, toda alegre, como se tivesse me dando um presente.
A gente tava naquela viagem pra serra, lembra? O vento bagunçando o cabelo dela, aquele sorriso de quem não tinha uma preocupação no mundo, e ela me abraçando por trás enquanto eu tentava tirar a foto. O brilho no olho dela naquele dia... cara, parecia que o sol tinha nascido só pra iluminar a gente. A legenda que ela escreveu na época dizia "Para sempre".
"Para sempre", bicho. O "sempre" dela durou menos que a garantia do meu celular.
O foda é que a foto não mostra a briga que a gente teve depois, nem o silêncio que foi crescendo, nem o noivo que apareceu meses depois pra ocupar o meu lugar no porta-retrato. A foto congela uma mentira bonita. E eu fiquei ali, olhando pra tela, sentindo o estômago embrulhar, como se eu tivesse levado um soco no plexo.
Eu tentei apagar. Juro que tentei. Mas o dedo travou. Como é que se deleta a prova de que a gente já foi feliz um dia? Se eu apagar a foto, parece que eu tô apagando a única parte de mim que ainda prestava. Então eu só fechei o app, joguei o celular na gaveta e fiquei encarando a parede.
O Dia 19 me ensinou que a gente pode fugir de todos os lugares da cidade, mas não tem como fugir de um algoritmo que guarda os nossos fantasmas em HD. Eu sou um arquivo corrompido tentando rodar num sistema que já me deletou faz tempo.
Desce mais uma, cara. Hoje a nuvem tá carregada e o backup da minha alma tá cheio de erro.