tecnologia.
No outro dia endireitei-me na cadeira no trabalho quando a página do email estava a demorar mais tempo a carregar do que o habitual, como se fosse a leitura facial que estivesse a ter dificuldades pela minha posição corcunda sobre a secretária. Um computador que nem câmara tinha. O quão entranhada está a tecnologia e os seus rituais para que nos reprograme o instinto? Já nem me surpreende o relógio interno saber o tempo certo que as coisas deviam demorar a carregar, mesmo que a ideia e a vontade seja ser cada vez mais rápido. O google ainda mostra quantos (mili)segundos demora com os resultados?
Não é de agora. É como um gato que se junta ao chão e de olhos atentos preparado para saltar, mas ainda escondido para a presa. Já mais novo lembro-me das teorias que se criavam. (Não é curioso como os rumores e os mitos viajavam de igual forma por todo o mundo mesmo não havendo internet?) Ora não era a sensação de saber que se ia receber uma mensagem antes mesmo de a receber, muitas vezes pegando no telemóvel polifónico e sem cores para ser surpreendido com o seu vibrar ritmado só depois de o ter na mão e nos olhos. Falavam de alterações das ondas rádio que precediam a receção. Falavam de radiação. Falavam de fazer pipocas com um milho pousado entre dois telemóveis que se conectavam. Falaram-me inclusivamente uma vez de uma rapariga que seria, alegadamente, alérgica ao wi-fi. Mas isso já foi mais recente. A internet já não é o luxo que me obrigava a partilhar tempo de ecrã com a minha irmã, sendo que pelo destino de ter nascido depois, perdia sempre.
Ao menos endireitei as costas.
20 | 03 | 2026 | espinho









