pensamentos do novelo.
Tenho as telas pousadas no canto da sala à espera que lhes dispense tempo, da mesma forma que tenho os buracos da cadeira à espera que eu compre o tecido para a forrar. Ao lado, o lençol "das pinturas" ficou a olhar para mim por mais de um mês até eu o decidir lavar. O tempo não estica, mas o que estraga é não decidir o que fazer com ele. Dedico-me às teclas? Às cores? À fotografia? Leio? Pego na consola que acumula pó há mais de três meses ou forço a síntese da vitamina D para aproveitar o número alto que é tão raro na minha terra? Um número alto sem vento. Então, por não decidir, procrastinei naquilo que trazia menos esforço de mim no momento. Pus-me a ver vídeos no youtube. Parece-me tão brainless e confortável como fazer scroll no telemóvel. Até decidir. Até desbloquear a tecla e dar o passo da escolha. Era só isso que bastava. Escolher um. E parece que as telas consomem demasiado tempo para a libertação da dopamina ou outro transmissor qualquer mais adequado. Ganhámos aversão às atividades demoradas. Desligadas. Sentimos que estamos a perder tempo por o ver passar numa atividade só. Como se isso fosse mau. Ando numa reflexão progressiva sobre a pressão que sinto em estar atualizado. Em dia. De certa forma sempre o consegui evitar, mas ultimamente vejo-me ainda a recorrer ao default de abrir o telemóvel por abrir. De ter de lutar contra essa vontade. Como um tique. E no computador evitar carregar em mais um vídeo. Porque depois é disso que me queixo. De não ter pintado. De não ter escrito. Até de não ter jogado. Tento apenas ficar mais consciente disso para que o possa evitar. Adiar. Pois na verdade escrever ainda vou fazendo, mas tenho saudades de pintar.
17 | 07 | 2026 | espinho













