olfatei.
Sinto que volto sempre a casa com o cheiro do mar, e à reflexão de como o olfato é um sentido muito subvalorizado. Bastou o aroma da maresia da noite para me trazer de novo o conforto e a calmaria que a ânsia de andar em frente me tem afetado. Estou impaciente. Quero dar mais um passo, e sei que o farei como sempre o tenho feito, um de cada vez. No entanto, estou farto de esperar. Como uma criança na fila de um carrocel. Parece que nunca chega a minha vez. Mas vai chegar. E pergunto-me se o cheiro a mar se tornaria banal caso não previsse esta mudança geográfica. Caso não fosse drástica a evolução litoral do custo. Caso não me visse obrigado a abandonar o mar.
Será sempre casa. Terei sempre a maresia para mo trazer de volta a mim. Será batota apoderar-me do cheiro a protetor solar para fingir tê-lo mais perto? Perderá o efeito se o usar todos os dias, ou tem apenas valor pela memória associada? Pelos outros sentidos que evoca com a sua presença? O som das ondas, o salgado nos lábios, a areia nos pés, o dourado do céu. Se calhar perdia o impacto. Se calhar aumentaria o nível basal de felicidade. E eu sei que felicidade não deve ser um objetivo, mas... porque não? Um objetivo pode não ser uma meta. Pode ser a viagem. Pode ser uma presença rotineira como um amigo que é mobília, ou uma necessidade regular como uma refeição. A felicidade é como um pequeno-almoço reforçado. Não é o objetivo do dia, mas tem o potencial de o tornar mais cheio. Mais completo. Menos árduo. E isso pode ser um objetivo. Repetir a refeição mudando o tempero. Mantendo o cheiro.
Seja a protetor solar. Seja a mar. Seja amar.
29 | 05 | 2026 | espinho










