catorze,
vez ou outra, admirando a rua pela janela do ônibus, esbarro com o sonho de te encontrar, de repente como num susto, caminhando pelos lugares que jurei nunca te ver. porque o que desejo dizer não se traduz em palavras.
é preciso o silêncio.
é preciso enrolar o olhar e a respiração.
é preciso engolir a seco. perdi a esperança de ouvir os motivos que te fizeram virar as costas como se eu fosse desimportante ao ponto de sequer merecer adeus, mas ainda alimento a ilusão de enxergar na sua retina que apesar de errar, você não é o que meu coração tem provas pra nomear. nem toda verdade é fácil de ser dita, mas sair deixando a casa bagunçada e a porta aberta é desumano. tento admirar o que se perdeu em meio a revolta e reconstruir seu caráter a partir do pó, mas o pedido de desculpas que não veio faria o papel de coluna – num sopro de frieza sua tudo desaba. e a cada vez que a poeira me abraça, me importo menos. veja bem, não é com você que eu quero esbarrar. é com a pessoa que você foi antes da gente se desencontrar em um cruzamento da capital. sua voz me dizia que talvez agora fosse pra sempre, ficaríamos juntos sem chance de volta, mas não demorou muitos meses pra você me tratar como uma completa desconhecida. finjo não lembrar teu jeito, o gosto que você deixava na minha pele, o toque da tua mão no meu rosto, as madrugadas em que nós viramos caminhando por calçadas malfeitas no centro da cidade. porque o silêncio doeria um bocado mais se eu lembrasse. mas nem uma amnésia proposital fez arder menos. vez ou outra te recrio de ponta a ponta, como num sonho, pra ver se nossos corpos conseguem caminhar na mesma direção por um tempo maior. mas, meu peito ainda estranha o seu sorriso, o tom da tua fala, o silêncio que fica quando nenhum de nós tem a coragem de dizer qualquer coisa – ainda que seja um pedido de perdão. acabou que era preciso o silêncio que ficou e ecoou em mim quando você resolveu me libertar no meio de uma floresta escura – eu só tive que aprender a chamar ela casa.
lorena pimenta // @pimentalorena // feat. Júlio hermann















