“Ei ei... espera!” Lorcan se aproximou da loira levando sua mão ao pulso dela. Fazia um tempo que não conversavam sobre aquela possibilidade: dividir um mesmo espaço. Talvez alguns anos, provavelmente desde o término. Mesmo para melhores amigos não era fácil encerrar um ciclo sem que outro fosse desbalanceado e foi a duras penas que Lorcan entendeu. As mentiras se aglutinaram com o passar do tempo e o medo por feri-la o cegou, tanto que agora estava prestes a quase vê-la se afastar mais uma vez e não podia fazer nada além de pedir. “Você pode ficar... meu apartamento é grande o suficiente para nós dois e assim você ficaria perto do St.Mungus, não teria que atravessar a cidade depois dos plantões da madrugada”correção: não teria que morar o outro lado da cidade onde provavelmente as rotinas atribuladas os afastaria ainda mais. “Quem eu vou perturbar para testar meus experimentos da witchnet?” tentou brincar com as palavras, mas aquele era o traço da ansiedade latente de mais uma lua cheia que se aproximava e que ele teria que se deparar com sua vida vazia. “Antes de qualquer coisa... somos amigos, não?” @lucemd
“Multiverso é um termo usado para descrever o conjunto hipotético de universos possíveis, incluindo o universo em que vivemos. Juntos, esses universos compreendem tudo o que existe: a totalidade do espaço, do tempo, da matéria, da energia e das leis e constantes físicas que os descrevem.”
❛ —— * ˙˖✶ “ BRIANA BRUNELLESCHI; TASK!’ 〉
A pequena Briana carregava consigo um exemplar de um livro de autoajuda conforme caminhava até o lado exterior do palácio sob a luz das estrelas. Certo, não seria necessário lembrar que era relativamente cedo para que a garotinha de nove anos estivesse realizando uma leitura como aquela, porém – em algum momento de sua vida – Briana tinha aprendido que a melhor maneira de aprender algo era através dos livros. E, certamente, aquele poderia ser útil no seu pequeno dilema que vinha enfrentando no colégio. O adiantamento de turmas havia sido relativamente bom em sua vida acadêmica – não bom o suficiente para empolga-la, visto que ainda não tinha aprendido nada novo – porém a sua vida social não poderia estar pior naquela fase de sua vida. Nenhum adolescente em sã consciência gostaria de ser visto andando como uma menina no meio do ensino médio e isso acarretava em uma exclusão eminente da Brunelleschi.
Particularmente, aquele estava longe de ser um problema para a princesa, pois, por exemplo, ela poderia ocupar a sua mente pensando com coisas importantes como o efeito das forças gravitacionais na aproximação do horizonte de eventos enquanto os seus colegas estavam perdendo tempo em conversas banais que pouco interessariam daqui a alguns anos. No entanto, nem todos pareciam ser condescendes com a ideia da garota de isolamento social. Lorenzo poderia ser o príncipe regente da Itália, ter dezenas de obrigações com o principado que era responsável, mas, acima de tudo, não deixava de ser pai. E, como tal, vinha mostrando uma recorrente preocupação com a situação que sua filha enfrentava no colégio. No telefonema da noite anterior, inclusive, a sua voz havia soado triste demais enquanto sugeria que a filha tentasse fazer amigos.
E apenas a consciência de que seu pai estava chateado havia impulsionado Briana a tentar a fazer amigos, mesmo contra a sua vontade. “Mas pode ser divertido, Briana!!” Gian comentou em sua mente, transformando-se em um pequeno passarinho e pousando sobre seus ombros. “Nós poderíamos chegar a mesa dos populares, se você se empenhasse em ajudar aquelas meninas bonitas do outro dia!” o daemon continuou a falar em sua mente, soando animado até demais para o gosto da italiana. Ao contrário da princesa, Gian pensava que a solidão não deveria fazer partes de sua vida; por ele, ambos deveriam ser como Verena, rodeados de amigos e mais ligados em bonecas, não em livros empoeirados da biblioteca. —— Você também, Gian? Achei que conseguisse me entender! Eu não quero amigos. —— a italiana retrucou para ele, movimentando a mão de maneira que pudesse espantá-lo para que ele deixasse o seu ombro.
O diminutivo corpo abaixou-se, então, e o exemplar do livro fora deixado sobre o solo conforme ela se sentava sobre o chão. Ainda soava irracional demais que seu pai não conseguisse entender o seu lado da moeda. Lorenzo era sempre tão inteligente e perspicaz! Por que ele não conseguia ver o seu ponto de vista?! —— Tudo seria mais fácil se a mamãe estivesse por aqui. Titio Miguel me contou que ela tão inteligente quanto eu. E eu sei que ela não deveria se preocupar em fazer amigos. —— ela comentou com o seu daemon, deixando a pequena bolsa com a sua bombinha asmática no próprio colo. Eram raras as vezes em que a garotinha se permitia lamentar pela morte de sua mãe, mas pareciam ser naqueles momentos em que a mulher mais fazia falta em sua vida. Doía não ter ninguém que conseguisse compreendê-la e, em alguma parte de seu interior, ela sabia que Belinda seria essa pessoa.
E o seu incomodo era facilmente palpável em seu laço, pois, pela primeira vez em muito tempo, Gian se dedicou a ignorar uma possível ascensão social. Não precisavam fazer amigos ou fingir ser o que não eram por causa de terceiros. “Você não precisa fazer amigos se não quiser, Briana. Nós não precisamos fazer nada para agradar o seu pai.” o daemon, então, teve a sua forma mudada para a de um cachorro, um Husky Siberiano, e se aproximou da princesa de maneira que pudesse subir em seu colo em uma espécie de consolo. “Além disso, quem garante que a sua mãe não deve estar em algum lugar cuidando de você?” O daemon tinha se lembrado da leitura que haviam feito na semana passada e, certamente, aquele era o momento ideal para empregar a famosa teoria das cordas. Qualquer coisa que envolvia ciência era válida para ele quando se tratava de animar a sua amada Briana.
Mas você disse que não acreditava na possibilidade da coexistência dos universos… Disse que era uma teoria com falhas consideráveis. —— a princesa rebateu com uma aparente confusão em seu rosto, erguendo ambas as sobrancelhas se fixavam sobre a figura em seu colo. Podia parecer exagero, mas, sinceramente, Gian parecia mais bonito do que nunca naquela forma. Gostava da segurança que o animal transmitia e, pelo que havia lido há alguns anos, aquela era uma das espécies mais inteligentes de cachorros.“As falhas existem, correto. Mas como nós poderíamos deixar de acreditar em uma teoria que Hawking defendia?” e com isso o Daemon tinha ganhado a discussão e sabia disso. Briana, então, passou a se deitar sobre a relva da grama, fixando seu olhar nas estrelas brilhantes no céu conforme o cachorro descia de seu colo para tomar um lugar ao seu lado.
Se a sua mãe existia em algum outro universo paralelo ao dela, as estrelas poderiam ser a única coisa que compartilhavam em comum. Não importava qual era a profissão de Belinda, como seria a vida de Briana no outro mundo, se a mulher realmente poderia compreendê-la como a princesa achava que podia, nem mesmo outros planetas e galáxias seriam capazes de apagar o gosto em comum que deveriam ter pelos cosmos. —— Eu espero que ela também tenha gosto por apreciar as estrelas, Gian. Assim, nesse momento, nós podemos estar olhando uma para a outra. —— a princesa comentou baixinho para o seu daemon, esticando a mão para passar a mão pela extensão do corpo do Husky Siberiano. E, bem, daquela vez, Gian se limitou a assentir em resposta. Não era necessário que falasse nada por agora. Tudo que precisava era apreciar a paz que tomava conta do corpo da garotinha.
Passaram-se, então, minutos de quietude até que Briana tivesse vontade de dizer algo. —— É loucura, mas eu realmente posso sentir que ela está em algum outro lugar, Gian. Eu quero acreditar que ela está comigo, seja onde for. —— soprou as palavras em meio a quietude do jardim, virando a cabeça para que pudesse ter uma melhor visão do daemon ao seu lado. “Sua mãe está com você em algum lugar, Bri. Você não precisa apenas acreditar nisso.” o daemon considerou no seu ápice de otimismo. —— Mas como eu poderia provar isso pra alguém? —— a princesa perguntou com uma genuína curiosidade, erguendo ambas as suas sobrancelhas e balançando a sua cabeça em um contido gesto de confusão. “Do jeito que você sempre provou que estava certa, Briana. Mas, acredito, que para isso nós vamos precisar de um livro de física em vez desse.” Gian retrucou em sua mente, se colocando de pé sobre as suas patas e pulando contra o corpo de Briana, passando a lamber o seu rosto em um gesto de carinho. —— Física? Parece interessante, Gian. Tão interessante quanto uma continuidade a teoria do Hawking. —— a italiana considerou conforme abraçava o seu daemon, sentando-se sobre a grama. “Interessante? Vai ser brilhante, Briana!”
Ouvir a risada dele era como escutar a minha música favorita. Não importava quantas vezes ela tocasse, eu simplesmente nunca me cansaria de apertar o replay.