Há um momento na vida adulta em que o sujeito sente uma raiva intensa. É um mal-estar que assume diferentes formas: irritação com o trabalho, repulsa por alguém que se aproxima demais, impaciência diante dos próprios limites. O sujeito sente que algo o fere.
A Psicanálise, em suas vertentes mais profundas, já se ocupou desses estados. Melanie Klein falaria em projeção da agressividade inata — herdeira das fantasias inconscientes primitivas que estruturam o psiquismo desde o início. O adulto, nesse caso, não reage propriamente ao mundo, mas o recria à imagem de suas fantasias internas. O ambiente torna-se um espelho que devolve, ampliada, a destrutividade que ele não suporta reconhecer em si mesmo — destrutividade que, muitas vezes, já fora vivida em um ambiente hostil no passado.
Winnicott nos convida a olhar o mesmo fenômeno sob outro ângulo. E se o ambiente, de fato, tiver sido hostil? E se o sujeito não estiver projetando sua agressividade, mas reagindo a uma realidade que repete falhas antigas — negligências, invasões, ausências, falta de reconhecimento? A agressividade, nesse caso, não seria apenas pulsional, mas também uma resposta vital a um ambiente que ameaça a continuidade do ser.
É nesse ponto que a confusão se instala: o adulto não sabe se está sendo tomado por sua agressividade ou se está sendo responsivo a algo real que o invade. Ele percebe o ambiente como ameaçador, mas, ao mesmo tempo, suspeita que a ameaça habita dentro dele — em suas dúvidas e desconfianças. Quando tenta conter a raiva, sente-se monstruoso.
Essa condição ambivalente — ser ao mesmo tempo o injustiçado e o monstruoso — o paralisa. Entre o desejo de encontrar um ambiente acolhedor e a crença de que todo ambiente será inevitavelmente frustrante, o sujeito oscila entre dois polos: o da esperança e o do desamparo. Quer confiar, mas teme decepcionar-se. Quer pertencer, mas teme ser destruído. O resultado é um círculo de repetições, em que cada nova relação reativa o mesmo enigma antigo: “O outro me fere, ou sou eu que o transformo em inimigo?”
Klein diria que essa dificuldade em distinguir o dentro e o fora expressa o domínio das identificações projetivas. O que seria isso? O sujeito deposita no outro o ódio que não consegue metabolizar e, ao vê-lo retornar sob a forma de rejeição, confirma sua própria fantasia: “O mundo não presta! Estão contra mim! Contra meus valores! Contra meus sentimentos puros.”
Winnicott, por sua vez, lembra que nem toda sensação de hostilidade é delírio; às vezes, o ambiente realmente não acolhe, não suporta o gesto espontâneo, não oferece sustentação à experiência de ser.
A verdade é que a vida psíquica adulta se move em um território onde a realidade e a dor são indissociáveis. A agressividade nunca é totalmente interna nem totalmente reativa: ela é o ponto de contato entre o sujeito e o mundo, a borda viva onde o eu tenta se afirmar sem perder o vínculo.
Quando o ambiente se mostra empático, essa agressividade encontra vias simbólicas: transforma-se em assertividade, criação, desejo de transformação. Mas quando o ambiente falha — quando é insensível, indiferente ou brutal — a mesma força retorna como ódio, retraimento, vontade de anular o outro antes que o outro o anule.
O drama desse adulto é existencial: ele quer amar o mundo, mas teme ser devorado por ele. Quer confiar, mas carrega o registro primitivo de que o ambiente é imprevisível. E é justamente nessa oscilação que algo da condição humana se revela: o fato de que nossa percepção da realidade nunca é neutra, de que todo encontro é atravessado por resíduos de fantasias arcaicas e rastros de experiências reais de frustração.
O que o sujeito vive como “ódio” pode ser tanto a atualização de um enredo interno herdado quanto a defesa legítima contra um ambiente que repete sua falha. E talvez a tarefa analítica — e, num sentido mais amplo, existencial — seja permitir que ele habite essa ambiguidade sem precisar escolher um lado. Pois, se o mundo não tem canto, certamente há um lugar onde a pessoa pode reconhecer o que lhe pertence e o que é estrangeiro dentro de si. Porque há momentos em que o mundo é, de fato, hostil. Mas há também momentos em que o que chamamos de “mundo” é apenas o reflexo ampliado do caos que carregamos por dentro. Saber diferenciar uma coisa da outra talvez seja uma jornada difícil — mas aprender a suportar o não saber é, como nos lembra Lacan, suportar estar no lugar do suposto não saber.