Tem coisas que voltam sem avisar. Não como memória, como peso. Alguma coisa muito antiga que eu já tinha dado como resolvida decide que não estava, e volta pedindo pra ser sentida de verdade dessa vez, não só entendida.
Passei muito tempo confundindo entender com curar. Achando que se eu explicasse bem o suficiente uma dor, ela ia parar de doer. Não para. Ela só fica mais educada. Mais disfarçada. Até o dia em que alguma coisa aperta de novo, debaixo do tapete de palavras bonitas onde tudo ficou empurrado.
Esses dias o chão balança de um jeito que não é destrutivo, é só honesto. Como se algo obrigasse a olhar pra tudo que se sustenta sem nunca perguntar se ainda vale sustentar aquilo. Casa, dinheiro, vínculo, corpo... As coisas que dão base. Não é crise no sentido de desabar. É mais como remexer um solo que precisava ser remexido.
E ao mesmo tempo, bem devagar, alguma coisa ali está sendo colocada em pé. Reconhecida como força, não como falha.
Tem também um afeto meio estranho chegando perto de um lugar que sempre foi protegido demais. Não pede explicação. Só está ali, dizendo que dá pra existir sem precisar performar nada.
Não dá pra saber ainda o que fica depois que isso passar. Só que algo se move.