Era um dia nublado, seco e monótono. Dias assim que me agradam, pois a calmaria é plena é me traz uma paz imensa. Nesse dia decidi sair de casa e ir até a praça ali perto para observar o movimento e me sentir bem comigo mesmo. Dias assim são bons para pensar e refletir um pouco sobre tudo aquilo que já foi vivido, relembrar momentos e pessoas que nunca mais voltarão.
A nostalgia tomava conta de mim a partir do momento em que me sentara no banco. Era como se um filme passasse diante dos meus olhos, como se eu avistasse a vida. A minha vida. E logo ali, do meu lado, encontrava-se ela, a mulher que me fez mais feliz e que, ao mesmo tempo, me fez sofrer. Estava ali, com sua pele clara, cabelos negros sobrepondo seus ombros de maneira perfeita e com um sorriso estampado no rosto. Aquele sorriso que somente ela tinha. E eu lá, de maneira estúpida, apreciava tal momento e me culpava por estar adorando tudo aquilo, mesmo sabendo que eu não estava tão são. Acredite caro leitor, eu não estava pronto para tirar aquilo tudo da mente. Há tempos em que vivo com tudo isso rodeando o meu eu. Viver do passado não é bom, mas se desfazer dele é pior. Muito pior. Pelo menos pra mim.
Enquanto eu permanecia num profundo delírio, ela continuava ali do meu lado. Apreciava minha dor e meu prazer ao vê-la ali. E eu sabia que, como nas outras vezes, ela iria partir. Ela sempre partiu. E eu, como sempre, esperaria por ela, como sempre. Mesmo sabendo que ela não permaneceria para sempre. Afinal, ela sempre foi de partidas. Sempre gostou disso. E aquilo continuava. Meu delírio fazia-me ficar atordoado, pensativo, em completo transe. Quando me dei conta de mim mesmo, havia percebido que estava anoitecendo. Ela? Bom, ela já não se encontrava mais ali.
Foram várias as vezes que pensei estar me tornando um louco alucinado e perdidamente apaixonado por um passado que eu deveria esquecer. Mas de alguma forma ou de outra, precisava tê-la comigo. Pra mim, somente. Ela parecia não se importar. Não é a toa que, sempre que mergulhava num profundo delírio, ela sorria. Com certeza se divertia com a minha dor de tê-la apenas em minha mente. De qualquer maneira, aquele sorriso me iluminava. Era lindo. Não era possível encontrar tristeza naquele olhar, tampouco encontrar lábios trêmulos e prontos para dizer algo. Era apenas um sorriso. Um lindo sorriso. O sorriso dela. Dela. E não importa quantas vezes eu tenha que entrar em profundo delírio; eu vou querer tê-la ali, comigo.