universos paralelos (e suas infindáveis possibilidades)
era assim: em algum lugar do multiverso, nós dois estávamos brigando no corredor de um apartamento minúsculo, com a chuva batendo na janela e um prato quebrado no chão. você gritava algo sobre "nunca estar presente", eu calado, olhando a fenda na louça estampada de girassóis – a que compramos naquela feira de domingo... dois universos à parte: o seu cheio de palavras afiadas, o meu mudo de tanto querer dizer.
mil novecentos e vinte e três, alguma estação de trem na europa: em outra dobra do tempo, éramos dois estranhos trocando cigarros num vagão de terceira classe. você fugia de um casamento arranjado, eu carregava uma mala cheia de livros proibidos. não havia apartamentos para brigar, só o balanço do trem e o medo nos seus olhos quando os soldados passaram... escrevi meu endereço num pedaço de jornal - você o guardou no bolso do casaco, onde ficou até virar pó.
mil novecentos e oitenta e sete, lanchonete de beira de estrada: nessa versão, você era a garçonete que me serviu café às três da manhã... eu, um caminhoneiro com prazos a vencer... você desenhou um coração no meu cupom, eu deixei gorjeta em dobro... seu chefe gritou "próximo cliente" e você virou as costas antes que eu encontrasse coragem de pedir seu nome. anos depois, meu caminho nunca mais passou por ali...
noutra realidade possível, talvez estivéssemos rindo. você me puxando pela mão pra dançar no meio da cozinha, eu reclamando que não sei, você insistindo até que meu corpo desengonçado se soltasse. a música? algo tolo da rádio, dessas que a gente esquece no dia seguinte... mas o cheiro do seu shampoo misturado ao café fervendo ficaria pra sempre.
ou quem sabe – e essa doía mais – estávamos sentados num banco de praça, olhando o mesmo pôr do sol, mas separados por um espaço invisível. você pensando em como seria fácil me tocar se não fosse o peso do "quase" entre nós. eu contando os segundos até você decidir ficar ou ir embora. nada de super-heróis, só dois humanos com superpoderes desperdiçados: o de machucar sem querer e o de perdoar em silêncio.
dia após o fim do mundo, ano incerto: na última versão possível, éramos os únicos sobreviventes - ou pelo menos os únicos que ainda se importavam em contar histórias. você guardava nossas memórias em latas de conserva vazias, eu tentava sintonizar rádios mortas. quando perguntei por que ficara, você respondeu "ninguém mais sabe como eu tomo meu café". era mentira. ninguém sabia mesmo.
mas o universo mais cruel era o que não existia... aquele em que nossos caminhos nem se cruzavam: você passando direto por mim na rua, eu virando a página de um livro cujo nome você nunca saberia. dois estranhos perfeitos, sem dívidas de abraços, sem pratos quebrados pra recolher.
e entre todas as realidades possíveis, havia uma especialmente estranha: um lugar onde os números existiam, mas nunca eram escritos da forma certa: "dois mais dois" não era "quatro", mas sim "o resultado inevitável quando juntamos o que se separou". as contas de amor eram feitas assim:
"se você subtrai seu medo do meu medo, sobra um resto que é quase coragem."; "quando dividimos o mesmo pão, a fome some – mas a conta nunca fecha se um come mais que o outro." e até mesmo quando "multiplicamos beijos, mas a soma dos nossos silêncios sempre dava um número primo."
nesse universo, não havia algarismos – só a certeza de que, no final, todas as equações terminavam com o mesmo paradoxo:
"eu te amo" equivalia exatamente a "não dá mais". e a conta, ah, a conta sempre batia...
agora, olha só a piada cósmica: eu aqui, escrevendo sozinho num quarto qualquer, inventando realidades onde nós dois ainda somos um "nós"... você, em algum lugar do espaço-tempo, talvez fazendo o mesmo – ou talvez já tendo desistido de procurar minha versão em outros universos.
e no fim? a única magia real era essa: a de poder imaginar infinitos finais felizes, sabendo que o verdadeiro seria sempre o mais simples – um de nós virando a chave na porta e dizendo, sem nenhum efeito especial:
"acho que vale a pena tentar de novo."
mas isso... isso só acontecia nos universos onde a coragem ganhava da nostalgia. e pelo jeito, não era o nosso, não por enquanto...














