H O B G O B L I N
Quando disseram pra Nell que o negócio da família era o que a tornava unida e permanecendo mesmo com todas as dificuldades e mantendo o legado de todos os Moon intacto, ela não fazia a menor ideia que podia ser tão difícil, e definitivamente não se lembrava de ser tão trabalhoso.
Mas isso na sua percepção de ex- bailarina daquela instituição que tinha trago renome, prestígio e um teto na cabeça da família por anos, e não na de sócia majoritária, porque quando ela só tinha que se preocupar com sapatilhas e aulas de dança, não precisava usar mais de 10% de seus neurônios pra ter quaisquer outros tipos de responsabilidade.
— Então… O que é isso? — Donovan pergunta em tom curioso, olhando o Tablet prateado que estava sendo estendido em sua direção pela assistente da tia, e mesmo que pudesse ler seu nome nele, N E L L em letras garrafais bem no topo, ela queria ter certeza.
— Esse, senhorita Donovan, é sua onisciência dentro desse prédio e fora dele, quando for preciso. — A mulher mais velha começa, abrindo um sorriso mínimo, fazendo uma pausa dramática que só fez Nell erguer as sobrancelhas na direção dela em puro julgamento. — Agora que a senhorita se predispôs a ajudar…
— Eu disse que podia cobrir uma ou duas horas por semana do seu horário, só isso!
— Agora que a senhorita se predispôs a assumir seu lugar como sócia majoritária e parte influente e ativa da nossa equipe, você tem acesso a tudo que move essa empresa, e força pra resolver e fazer tudo o que for melhor pra ela.
Ela não ia mentir, gostava da sensação de poder e de ser útil e cuidar dos próprios negócios. Acreditava que se a avó tinha pedido por aquilo, era porque acreditava que os remanescentes da família podiam trabalhar juntos e ela queria tudo, menos decepcionar a pessoa que ela mais amava e respeitava e tinha apresentado aquele mundo pra ela, e aceitado bem mesmo quando ela decidiu migrar pra outro tipo de meio artístico-esportivo. Com aquele Tablet nas mãos, ela sentia que podia e faria qualquer coisa pra manter aquele negócio da família estável e operando a todo vapor, sentia que era capaz e que podia aprender a lidar com aquilo tão bem quanto a tia e a avó fez um dia.
Até ela se lembrar que tinha dezessete anos, estava no ensino médio, e era a pessoa mais imediatista e responsável que ela mesma conhecia.
— O que você quer dizer com o navio com nossas encomendas de sapatilhas artesanais vindo da Rússia simplesmente parou no meio do oceano por causa de uma chuvinha? — Estava no meio do pátio da escola, uma mão segurando um yakult e a outra segurando o celular no ouvido, enquanto discutia com um dos parceiros responsáveis pelas compras e fornecimentos importados da Academia, puta da cara. — O que os alunos têm a ver com isso? Quer que eles se apresentem descalços? Sabe quanto tempo um bailarino leva pra se adaptar a uma sapatilha nova e quanto o tempo deles vale qualidade e trabalho de aperfeiçoamento, que agora vai ser jogado fora por que um barquinho medíocre parou de funcionar? Pois eu quero ele andando, agora mesmo, nem que vocês tenham que ir lá e rebocar ele nadando!
Quando a ligação termina com o homem dizendo que ia pegar um helicóptero e ir ele mesmo lá e fazer todo o descarregamento no meio da tempestade, ela volta a sorrir, exibindo as covinhas sutis nas bochechas, sentindo até o brilho natural voltar pra si quando se vira pra mesa com os primos, amigos e namorado, e bebe um gole do leite fermentado de baunilha como se não tivesse acabado de ameaçar a vida de alguém.
— Vocês estão animados pro fim de semana? Porque eu sim.
Ela já achava muito difícil ir pra escola, treinar no ginásio, participar do programa de jovens astrônomos amadores no observatório, apoiar Ryuji e ainda cobrir ele com todo o amor que ele merecia, e ainda estar lá sempre pras pessoas com quem ela se importava quando elas precisavam, mas por algum motivo, quando incluiu a posição ⅕ CEO em sua rotina, as coisas não ficaram mais difíceis ou se tornaram caóticas.
— Eu prometi que ia fazer valer minha cadeira nessa sala, e pra mim mesma que não ia falhar nisso.
Porque tudo o que ela fazia, e tudo que ela dedicava tempo e esforço, era por amor e sempre com carinho e pensando no melhor.
— E é por isso que agora, a Academia vai contar com uma equipe especializada em cozinha orgânica e vamos oferecer aos alunos uma alimentação de qualidade todos os dias, em todos os horários, e mesmo quando eles quiserem fora deles. — A mais jovem então espera a bancada de sócios e parceiros abrirem o documento de proposta dela, enquanto narra todas as ideias que tinha levado semanas pra organizar antes de apresentar e até sonhar em botar em prática. — As famílias deles confiam que estão tomando uma boa decisão quando entregam eles aos nossos cuidados por causa da nossa fama na parte artística, acadêmica e profissional, então nada mais justo do que garantir que eles vão ser bem cuidados, pra muito além de um lugar seguro pra morar e se preparar pro mercado de trabalho do ballet, mas onde eles só vão consumir o melhor enquanto estiverem aqui também.
— Por mais que a proposta da senhorita seja cuidadosamente pensada e muito atrativa, como exatamente pensa em custear… Um chefe premiado, uma equipe especializada e opções tão variadas? Eu nem sabia que vegano era uma palavra. — O homem mais velho a sua esquerda tem tanto cuidado pra falar com ela, que ela se pergunta se é por causa de sua tia, ou se ele realmente já a viu gritando por aí feito ela.
Mas ela não se importa. Estava usando o uniforme da Constances enquanto decidia negócios e projetos dentro de um lugar que até meses atrás, ela não passava de uma herdeira que vivia às custas dos lucros que ele rendia pra ela e toda a família.
Ela queria aquilo, queria fazer algo de bom com a responsabilidade que ela tinha agora.
— Se os senhores passarem pro próximo slide, vão ver como eu consegui custear tudo fazendo ajustes quase imperceptíveis em outras áreas de custo, e que venho fazendo isso desde o dia que me sentei aqui, e me apresentei como sócia dos senhores também. — Nell sorri quando eles passam, e ficam realmente chocados com os gráficos perfeitos e como ela tinha feito dinheiro brotar, quase que do nada, graças a estratégias que a própria tinha traçado por mais de seis meses. — A maior parte dos produtos são de fazendas locais e que prezam pelo reconhecimento da produção justa e limpa, e quando disse que esse podia ser um diferencial nas nossas temporadas de inscrição e procura por bolsas, nossos investidores ficaram felizes em me dar um crédito, que por menor que seja, eu consegui distribuir igualmente e até o último centavo. Sem contar que desperdício não é e nem nunca vai ser uma opção, por isso já fui atrás de uma permissão pra doar a comida não consumida seguindo os protocolos da vigilância sanitária e serviço social da cidade, e os próprios alunos e funcionários vão ser responsáveis pela distribuição, já que eles são nossa maior responsabilidade, e peças importantes no todo do nosso negócio.
Ela dá de ombros, relaxando na cadeira depois de, mais uma vez, ter deixado aquele monte de idosos endinheirados sem palavras.
— Eu sei o que fazer com números quando estou diante desses, e o resultado é sempre maravilhoso e impressionante, como podem ver. — Nell abre um sorriso, e então junta as mãos debaixo do queixo. — Então, quando vamos avisar aos pais que agora temos um cardápio para celíacos veganos também?
Quando era criança e tinha que conciliar o começo da escola com sua jornada no ballet, gostava de passar horas na sala da avó, na presença dela enquanto a mesma trabalhava pra fazer daquele lugar um lar e ela conhecia o próprio amor por aquele mundo, com base em suas sapatilhas. Agora que sabia que a vida não era um morango e exigia muito mais dela do que parecer bonita e encantadora em um palco, e que ela não fazia menos parte daquele lugar só porque tinha saído daquele meio, as coisas tinham ganhado outro significado.
Se antes passava horas se dedicando em barras e estudando o próprio corpo e presença de performance, ia agora se dedicar à parte administrativa e que exigia boas ideias e novos planos todos os dias pra manter tudo sempre funcionando, ainda na sala da avó, na mesma cadeira que costumava sentar pra colorir um monte de desenhos, agora pra anotar tudo o que aquele lugar precisava segundo ela, e fazer dever de casa. E mesmo que ela não estivesse mais lá, checando ela, a atacando com abraços inesperados e dizendo que ela estava iluminando seu dia só de estar ali lhe fazendo companhia, se sentia motivada a continuar, e confortável com o fato de que ela não tinha mudado, só crescido, por dentro e por fora.
— Eu prometo nunca deixar de fazer parte disso, e que esse lugar vai continuar de pé mesmo daqui mil anos se depender de mim. — Ela sussurra, uma mão segurando a maçaneta enquanto dá uma última olhada no escritório em que nada foi tirado do lugar, e que ela finalmente se sente bem em revisitar e passar suas tardes lá como fazia antes. — Nós estamos bem, vovó. Nós vamos cuidar disso.








