Apenas o dicionário me compreende, com seus adjetivos hiperbólicos e vocábulos complexos. Acho me dentro de minha métrica chula, verso após verso, eu me reviro do avesso, desvelando as camadas de minha Atenas interior, em que sou mais guerra do que sabedoria. Escrevo o que sou, ou sou aquilo que escrevo? Será se torno-me eu mesma a partir da minha própria interpretação de meus atos? Sei apenas que formulo a realidade a partir de metáforas, de personificações... Talvez seja por isso que sou demasiado fantasiosa. Pois sou poesia, porém ninguém mais o é também. É uma vida terrivelmente solitária adoecer em poemas, em prosa perder a razão, enlouquecer numa única frase... Ninguém que lê compreende que esta é minha própria substância, que ao ler-me, tu verdadeiramente me tens.
E a violência com que ultrapasso os limites de minha carne carcome meu ego frágil, feito verme parasita. A cada breve impacto, um poderoso choque elétrico, fritando o meu cérebro atípico, contrariando instintos essenciais, impulsionando uma auto destruição feroz, como que uma colossal besta ensandecida. É como me sinto, tal qual uma besta. Uma besta que acorrento, que drogo, que disciplino, que prendo, que dobro, mas ainda assim, para sempre uma besta, as espera de um breve fechar de olhos de seu capataz para libertar-se e ser completa, ser assassina.
E a besta está presente em meus olhos borrados de rímel, em minhas cicatrizes, em minhas manias masoquistas, no cheiro inesquecível de carne fumegando. Está presente nos olhos semicerrados, na mão que se fecha, no peito que urge, na fala que suplica. Mas ela está principalmente aqui, entre estas palavras, espreitando a cada pausa, furtiva e esguia, com seu fedor de sangue e seu rosnar selvagem. E ao ver seu rosto, tu se perguntas se sou eu... Somos tão, tão similares. Ou seríamos a mesma pessoa?