Puro português
Já andava há algum tempo ansioso pela chegada dos resultados, praticamente todos os dias consultava a dita app no telemóvel, para ver se acalmava a curiosidade. Tudo isto porque há cerca de um mês atrás surgiu no pequeno ecrã, um anúncio de que me pareceu mais uma premunição, pois porque de cada vez que esta situação surge sempre me ocorre o pensamento:
“Mas como foi possível esta coisa adivinhar o que me vai no pensamento…”
De alguma forma sabemos porquê, mas escolhemos sempre pensar que há uma força oculta e transcendente que nos persegue, e, de vez em quando se revela em anúncios no pequeno ecrã.
Dizia: “…desconto imperdível, conheça as suas descendências e encontre a sua no mundo, faça o seu teste de ADN!”
Segurei a roleta dos anúncios em série, e, de forma instintiva lá larguei os euros para obter a tal informação que iria transforma a minha vida. Primeiro chegou uma caixa por correio, impecavelmente organizada, com tutoriais, códigos, imagens, e um sem fim de outro centeúdos, enfim, fiz o que me pediram e enviei de novo para o remetente.
Seguiram-se cerca de quatro semanas de espera até ver que a meu teste se moveu do estado “em teste” para “resultados disponíveis!” Ansiedade no topo, mal segurava direito o telemóvel na mão, procurei um banco sentei-me, quase que a criar um momento sagrado, e cliquei para ver…
69,8% português, 16,9% espanhol, catalão e basco; 3% tunisino; 2,8%marroquino; 2,7% Italiano do Sul; 1,9%bretão;1,6% francês; 1,3% da sardenha…
Ora, eu um “puro português” na linguagem corrente dos ventos que sopram por São Bento, deixou-me algo confuso. Logo eu que reunião todas a condições de ser um dos puros, eu que era originário do lugar onde o nosso grande Viriato no uniu como um povo e cultura própria, e onde a nossa identidade cultural se melhor se espalha no passado, eu que sou do lugar onde os muçulmanos não alcançaram, ou os romanos a muito custo derrubaram, como seria isto possível.
Eu que não conheço nenhum familiar com origem fora de Portugal, e os que vivem ou viveram no estrageiro partiram desta terra sem margem para dúvida, afinal eu e todos os meus compatriotas, estes seres impotáveis e guardiões do que é ser português não somos puros!
Lá comecei a olhar com mais atenção e comecei a tentar arranjar alguma explicação naquelas percentagens:
Marroquino, ora talvez, depois de 500 anos de presença muçulmana na nossa terra, talvez um antepassado se tenha ramificado desta gente, pois deles temos palavras, agricultura, arquitetura etc.
Italiano, também, depois dos romanos andarem por aí cerca de 600 anos no, talvez também haja um italiano em nós, pois deixaram a língua que hoje falamos, a organização política, a cultura e umas tantas pontes e aquedutos de água limpa.
Alemães, pois bem, também por aí estiveram os suevos e visigodos uns bons 300 anos, seria natural sobrar por aí uns olhos azuis e alguma organização.
Gregos, Judeus, tunisinos e um sem número de povos do Levante também por aí estiveram cerca de 600 anos, coisas como navegação e comercio também por ai ficaram não tenho dúvidas.
De facto, e pensando sem os ventos de São Bento a soprar, somos muitos e de muito lugares, somos de diferentes e de iguais, tanto na cultura nos costumes e na religião, de facto somos de todos, sou afinal um produto do todos.
Virei-me para um espelho que estava no fundo de sala, e de repente vi-me com cara de muitos e de nenhum, afinal, carrego no corpo meio mundo, sou tanta coisa ao mesmo tempo, onde é que está o meu “puro português”? Onde mora esse tal espírito profundo, sebastianista, marítimo e ligeiramente dado ao drama.
Mais uma vez o velho Pessoa tinha razão em dizer que ser português é um estado de espírito, muito antes de haver testes de DNA a distância de um clique. É ser múltiplo por dentro antes de estar na moda sê-lo por fora. Ele dizia que ser português era ser tudo sem ser propriamente nada, ser universal pela constante falta de paciência para estar quieto, ser europeu na cabeça e oriental na sensibilidade, ser católico porque sim e pagão porque sabe bem, ser melancólico ao jantar e épico no café da esquina.
Somos de facto uma espécie de feijoada genética. Nada em excesso, tudo em quantidade moderada, mas sempre com um tempero que ninguém consegue copiar. O “puro português”, afinal, não vem de uma pureza qualquer, vem justamente da impureza. Somos miscigenação histórica, somos tudo.
E não deixa de ser deliciosa esta ironia, passamos séculos a discutir o que é ser português. Fizemos hinos, poemas, discursos inflamados, falámos de pátria, de raça, de missão. Entretanto, o nosso DNA estava ali, a rir-se de nós, a acenar com as mãos cheias de percentagens que basicamente dizem:
“Meu caro, és uma salada mediterrânica com molhos atlânticos. A pátria é só a mesa onde te serviram.”
No fundo, o nacionalismo português, se existir, deve ser isto: abraçar a mistura com um brinde, celebrar o caos com um fado, aceitar que somos mais universais do que gostaríamos de admitir, e que talvez seja essa a única certeza razoável que temos.
Sou “Puro Português” porque sou um bocadinho de tudo. E é isso que nos distingue e que nos condena, digo eu com alguma ternura, a sermos um povo eternamente poético, eternamente confuso, eternamente à procura de si próprio… enquanto deixa que o mundo lhe entre pela porta dentro e se sente à mesa como se fosse da família.
Afinal, o “Puro Português” é aquele que, como eu, como nós, traz na mala genética uma multidão de antepassados estrangeiros. E leva essa multidão consigo quando vai comer um pastel de nata como quem cumpre um ritual ancestral.
Se isto não é ser português, não sei o que será.
Filipe Cruz, Lisboa, 20 de abril de 2026.















