egyptianprincessxn:
Neftis deu risada depois que o mais velho explicou, de fato seu pai não tinha noção de como eram os filhos dentro daquela academia. A caçula adorava que seu pai não fazia ideia de muita coisa que ela aprontava longe do Cairo, pensa que é melhor que ele não saiba de suas peripécias visto que ele não entenderia nada. Diferente de sua mãe. Neftis contava tudo à Maya, e o que não contava sua mãe dava um jeito de descobrir e isso era levemente perturbador as vezes, de qualquer forma, não precisava esconder nada da matriarca, a relação dela com os filhos sempre fora a melhor possível e, diferente do Faraó, a rainha gostava muito mais de conversa do que de gritos. “Baba ainda acha que somos crianças. Se ele soubesse a realidade talvez estaríamos deserdados.”
“Os deuses são traiçoeiros. De qualquer forma ao menos os nossos não são gregos.” franziu os lábios segurando o riso. Deuses egípcios não eram tão humanos quanto os gregos, os egípcios pensavam nos deuses não a sua semelhança, mas como seres de fato divinos, era por isso que a maioria era retratada com cabeça de animais, eram sábios e não se via maldições ou a ira dos deuses para com os mortais. Só na história de Sehkmet, mas ninguém questionava as decisões do Grande Rá, o deus dos deuses com certeza sabia o que fazer. Tinha as costas recostadas no pufe agora, degustando de seu ‘baseado’ completamente despreocupada e já sentindo seus músculos se relaxarem de forma gradual, assim como a própria mente. “Ninguém iria querer esse ‘dom’, Tothamon. Acredite, iria desistir na primeira semana. De qualquer forma, prometo que vou dar um jeito nisso. Já controlei tanto, tenho certeza que com um pouco mais de treino vai melhorar.” dizia aquela frase mais como uma esperança para si própria do que para o irmão de fato, queria ter esperança de que sua mente perturbada iria se curar caso conseguisse mais controle já que ver fantasmas e mortes o tempo todo não era algo que fazia bem. Perdera as contas de quantas vezes acordou no meio da noite assustada por conta de suas visões, nem mesmo o melhor filme de horror sangrento era páreo para a quantidade de mortes que já havia visto, com homens, mulheres, idosos, crianças, até animais de vez em quanto. Parecia que seus fantasmas faziam questão de lhe mostrar as mais terríveis, era difícil ver uma pessoa morrer em paz. Deu outro trago, mais lento dessa vez, soltando a fumaça vagarosamente, a observando subir até desaparecer.
“Não conheci ninguém que morreu, mas vi várias mortes depois que fui socorrida… desculpe, não vou tocar mais no assunto. Aposto que já se cansou das minhas lamentações causadas pelo duat.” se censurou logo depois de abrir a boca, precisava mesmo de alguns passatempos diferentes para ter o que conversar além de almas e fantasmas. “Eu tive ajuda, Toth. Aliás, uma bela ajuda…” sentiu o rosto esquentar de repente, dando um pigarro lembrando do que ocorrera antes de desmaiar de cansaço naquele piso de estacionamento. “Enfim, eu não me feri e nem morri. Não é bom? É ótimo. Eu não iria conseguir te achar no meio daquele caos, achei melhor fugir. Quer dizer, primeiro eu pensei em te procurar e aí quase morri, mas aí pensei em fugir e acabou dando certo de qualquer forma.” ergueu os ombros antes de degustar outra vez do cigarro entre seus dedos. “Você ouve dizer muita coisa, até parece a mamãe. Que medo. Mas não, não conheci ninguém novo e também não era de fato um amigo e… Olha, eu não preciso falar disso com você. O que fez lá? Como saiu?”
Uma forte lufada de ar escapou em forma de fumaça esbranquiçada por seus lábios quando Toth riu do comentário da menina a respeito dos deuses. Era um desrespeito falar mal dos seres divinos, sejam quais fossem, mas ouvira ali apenas verdades e ninguém iria puni-los por isso. Ao menos não nas terras do Faraó. — Você tem toda razão. Agradeço por isso todos os dias. Os gregos são cheios de traições e intrigas. Deve ser cansativo. — franziu o cenho matutando sobre todos os herdeiros que conhecia e que tinham patronos gregos. Pareciam sempre muito carregados e confusos. Mas quem poderia culpá-los? Toth sabia que havia tirado a sorte grande por ter nascido egípcio. — Eu faria isso por você sem pensar, Neftis! — declarou seguido de uma tragada potente no cilindro, já sentindo os efeitos da erva atingindo cada um dos seus membros e os deixando super relaxados. Um pouco mais e ele viraria o homem gelatina. — Mas você sempre foi a mais forte de todos nós, sei que vai dar um jeito nisso. E Anúbis não lhe daria algo que você não seria capaz de carregar. — sua sinceridade, aparentemente, estava no auge desde que havia retornado ao Egito. Porém, no seu ponto de vista, não existia exagero nela. Desde pequena a irmãzinha passara por coisas com o Duat que nem ele ou Nefertiti poderiam imaginar ou sequer suportar se estivessem nos pés dela. Toth a respeitava imensamente por isso. Sentia-se feliz em ter duas irmãs independentes e fortes.
O corpo esguio foi se afundando cada vez mais no pufe almofadado. O príncipe inclinou o pescoço para trás, deixando a cabeça pender sobre o encosto e passando a ver o quarto da irmã de cabeça para baixo. Tragava o “cigarro” com muito mais determinação, tanto que o cilindro já estava com menos da metade de seu tamanho original, e ele lançava a fumaça em formas de arco para o teto. Deu uma olhada em Anath, que os observava de um canto com aqueles seus enormes olhos amarelados. A daemon tinha a mente limpa e suave, certamente compartilhando dos efeitos sofridos por seu humano e por isso estava tão relaxada que não reclamava de nada. Toth lhe sorriu antes de voltar a atenção para Neftis. — Mesmo que estivesse cansado, desde quando isso impediu você de falar? — brincou com um riso curto, achando intrigante como a irmã parecia estar muito na defensiva ultimamente. — Você pode se lamentar o quanto quiser, Neftis. Sou da família e é pra isso que nós existimos: para ouvir e dar apoio. Pelo menos até a gente aguentar. Qualquer coisa vamos glorificar a Seshat enquanto fingimos ouvir. — ergueu as sobrancelhas com divertimento para a irmã, tragando do cigarrilha teatralmente.
Se Tothamon estivesse um pouquinho mais chapado não teria reparado no desconforto da irmã. Por sorte tinha nervos de aço e parte de si sempre conseguia se manter lúcida. Ele ergueu o tronco do puff, sentando-se de forma a poder ver a menina com mais clareza conforme ela balbuciava coisas incoerente na tentativa de despistá-lo do que ela possivelmente estava mesmo tentando lhe dizer. — Fico feliz por sua bela ajuda ter aparecido então. Melhor uma irmã sumida do que morta! — Tinha uma breve noção de quem poderia ter sido a companhia da irmãzinha em meio ao caos. As notícias dos jornais também eram uma enorme fonte de informação e muitas delas traziam o nome do príncipe mexicano ao lado do de Neftis. E talvez fosse pelas graças de Seshat naquele instante, mas Toth não se sentiu preocupado ou enciumado com a aproximação da irmã e Juan.
— O que posso dizer? É bom manter os ouvidos atentos e usar cotonete com moderação. — A acusação de que o egípcio as vezes parecia a mãe era totalmente plausível, já que ele aparentemente havia herdado coisas boas e ruins de ambos os pais. Era um sortudo ou não? Na Academia Avalon, era muito difícil que alguma coisa envolvendo as irmãs ou os amigos não acabassem chegando ao seu conhecimento em algum momento. Não que ele fosse um detetive, stalker ou coisa semelhante. As notícias pareciam persegui-lo. Considerava isso uma benção, diferentemente da ignorância. Toth ao ouvir “não era de fato um amigo” sentiu o coração pular uma batida. Ouvira rumores também a respeito de uma possível aproximação entre Neftis e outra pessoa. — Você não precisa falar, mas eu espero que não tenha sido nenhum alemão. Aquela família é uma bomba prestes a explodir, Neftis. Não se envolva com eles. — o tom usado era sério, assim como os olhos castanhos que fitavam o rosto feminino. Toth raramente fazia uso da sua “autoridade de irmão mais velho ” (porque ninguém levava a sério), porém viu a necessidade disso agora. — Sai pela porta da frente e fui ajudar as pessoas na cidade. Enfrentei um dragão com Aaron enquanto estávamos de babá e depois fui verificar os sobreviventes no túnel. — simplificou sem, contudo, mencionar a presença de uma certa princesa canadense que desde aquele dia fatídico parecia ter feito morada em seus pensamentos.















