Ela era uma mulher encantadora, esperta, engraçada e charmosa. Não a conheci quando jovem, mas tenho uma foto dela sorrindo e mostrando o dedo do meio para a câmera, de short jeans, em frente a um fusca azul, nos anos 80.
O sorriso naquela foto entregava toda a sua personalidade: um certo deboche cheio de charme, uma piada meio depressiva e uma paixão sempre regada de romantismo.
Ela me contou que, quando estava infeliz em um de seus casamentos, acordou um dia completamente de saco cheio e simplesmente foi embora. Só voltou porque a ex-cunhada ligou implorando, dizendo que seu então marido estava tentando se matar por causa dela.
Uma história quase shakespeariana, em que um homem não suportou a ideia do abandono e passou o resto da vida infeliz. Apesar de ter construído outra família, ele nunca superou. Quando eu era pequena e visitava a casa desse homem, ele sempre me perguntava como ela estava. Mais de trinta anos depois, ele ainda me olhava com tristeza e dizia que eu era a cara da minha avó.
Essa é apenas uma das muitas histórias de paixões e dramas que ela viveu. Eu cresci ouvindo essas histórias, testemunhando aquele charme incorrigível que ela carregava no sorriso. Sempre gostei de como ela ria. Adorava rir junto com ela. Quando gargalhava, era como se todos os problemas da vida desaparecessem por um instante.
Quando me perguntam do que ela morreu, eu digo que foi de tristeza e culpa. Mas não por causa de todas as suas decisões equivocadas ou pelo sofrimento que seu sorriso deixou espalhado por onde passou. Na verdade, ela morreu porque não suportou envelhecer.
Minha avó tinha coração de artista. Era romântica e moldava a realidade como se fosse um conto de amor e drama. Fez da própria vida sua maior obra de arte, mas nunca amadureceu o suficiente para encontrar prazer em uma vida tranquila. Ela precisava da emoção. Era inteligente demais, sentia demais para aceitar a monotonia da estabilidade emocional e da paz de espírito.
Já não nos falávamos havia três anos quando aconteceu. Ela me pediu muitas desculpas e tentou entrar em contato comigo várias vezes. Mas eu não guardava mágoa. Nem precisava perdoá-la, porque nunca a culpei. Eu me afastei porque não conseguia mais olhar para ela sem enxergar ali uma possível versão do meu próprio futuro.
“Você é a cara da sua avó”, era o que todos diziam.
O que não sabiam é que eu herdei mais do que o sorriso dela. Herdei também a sua alma inquieta. E chegou um momento em que já não pude mais suportar a sensação de não poder fazer nada.
Então decidi que faria por mim tudo aquilo que não pude fazer por ela.
Seguindo o exemplo dela, eu fui embora.