❛ — BUT ( NΘBODY'S ) HΘMξ。
Vagava sozinho pelas ruas da cidade, completamente vazias obviamente. Já era madrugada, o relógio já havia marcado meia-noite há tantas horas atrás, só não sabia exatamente quantas. Havia perdido completamente a noção de tempo dentro do bar, ele também não queria saber quanto de seu tempo havia desperdiçado lá, poderia desperdiçar o resto de sua vida lá dentro e mal nenhum o faria. Não tinha nada a perder, isso porque já tinha perdido tudo há muitos anos atrás.
O vento que lhe soprava o rosto e os cabelos era gélido, mas não ligava, até porque a serpente já não ligava mais para muita coisa, no estado em que se apresentava muito menos. Conseguiria se passar por sóbrio facilmente, mas ainda fedia a bebida, isso era notável. Apesar de ignorar totalmente o frio ele podia senti-lo, de uma maneira tão irritante e odiável, podia senti-lo. Sentia o vento cortando-o, e a sensação era horrível. Parece que estava bêbado o suficiente para voltar a sentir algo de novo, e odiava a si mesmo por ter conseguido tal proeza. Não precisava de sentimento algum, são todos, todos inúteis, sem exceções. Por que estavam todos eles voltando agora? Por que? Aquilo doía, doía tanto.
❝JÁ NÃO BASTA A MINHA VIDA TER SIDO FODIDA COM ESSA PORRA DE MALDIÇÃO?! HEIN -------- ?! PRECISA ME DAR EMOÇÕES OUTRA VEZ?!❞
Gritava para o imenso vazio da noite, com a cabeça erguida para o céu. Talvez ele estivesse tentando questionar Deus, mostrar sua indignação. Oh, mas que bobagem, tinha tempos que não acreditava mais nele, por que faria isso? Se essa criatura tão divina realmente existia, então por que o deixou a chegar em tal estado? Se Viper acreditasse nele, sem dúvidas ele seria o número um de sua imensa lista negra.
❝Oh céus, por que fizestes de mim tão miserável?❞
「machucado por dentro. sem nenhum
lugar pra onde ir, para secar seus
olhos. despedaçado por dentro.」
Por pouco as pernas não amoleceram, por pouco não caiu de joelhos ali mesmo. Não podia fraquejar ali, estava tão perto de casa. Não podia fraquejar ali, era sozinho, dezenas de pessoas o odiavam, mão nenhuma seria oferecida a ele. Continuou sua caminhada até chegar na porta de casa, não estava tão bêbado a ponto de não conseguir por a chave na fechadura, mas antes de virá-la encostou a cabeça, por alguns instantes, na porta.
Os sapatos faziam um forte barulho contra o chão da casa, era o único barulho no local, responsável por quebrar o silêncio absoluto que havia ali antes. Andou até a sala de jantar, o cômodo tinha uma enorme dimensão, e parecia maior ainda pelo fato de que ele era o único a desfrutar dele.
Parou diante dum espelho que por ali havia, ficava perto de um vaso -- onde uma vez havia flores, mas ele as deixou morrer --, e ficou a encarar o próprio reflexo. A destra passou pelos fios de azulados do rapaz, livrando-se do cabelo que lhe cobria o rosto e revelando a íris da serpente, a pupila de coloração escarlate. Tocava o próprio rosto, agora com as duas mãos, com extrema delicadeza.
❝É por isso que sou sozinho, não é? Eu pareço uma aberração. N-Não. Eu sou uma aberração. É por isso que me deixaram, não é? Como alguém poderia gostar de uma coisa, como eu?❞
Maldito fosse aquele mago, iria trazê-lo de volta a todo custo. Faria com que ele pagasse por tudo. Faria com que desejasse nunca ter nascido. Faria dele tão miserável quanto ele era agora. Estava disposto a pagar qualquer preço para isso, e não mudaria de ideia tão fácil.
Continuou a andar pelo cômodo, até parar, novamente, diante de uma tela, esta cobrida por um tecido negro. Havia recolhido, virado, coberto e guardado todos os retratos do passado que haviam restado naquela casa. Não precisava de memórias, já não pertencia mais a família que aparecia neles, aquele garoto que aparecia nelas estava morto. Ele era outro agora, e Viper Venom não tinha família, nem ninguém. Não queria, nem precisava.
Hesitou várias vezes até puxar o tecido que cobria o grande retrato, uma pintura, dos van der Venski. Não deveria, não podia fazer isso. Iria se arrepender amargamente, sabia disso, mas num impulso acabou por fazer. O manto negro foi direto ao chão, e serviu como tapete para o garoto que, lentamente, se aproximava mais da tela.
「mas eu ateei fogo à chuva. a assisti
cair enquanto eu tocava seu rosto. ela
queimava enquanto eu chorava, porque
eu a ouvia gritando seu nome.」
O olho esquerdo começou a ficar marejado, aos poucos a vista começou a embaçar, já não podia ver o antigo retrato, com seu antigo eu, com sua família. E nunca mais viria a vê-los, não podia, não era mais da família, era praticamente um demônio na terra. A do mesmo olho as lágrias desceram. As mãos passavam pela superfície da tela, algumas vezes até a socavam. Fechou os olhos com força, ainda chorando. Gritava, urrava, para o imenso vazio.
"Oh céus, por que fizestes de mim tão miserável?"