Texto que eu gostaria de postar de forma não-anônima
Hoje, eu me revelo uma pessoa transgênera. Me identifico como uma mulher trans, respondo por Lívia e pelos pronomes ela/dela.
Não tenho nenhuma pretensão de apagar o passado, não me ofendo com erros involuntários sobre nome, apelido ou pronomes -- mas algumas pessoas se ofendem, então, sempre respeite.
Mais da metade dos meus 26 anos foi vivida sob a identidade de um homem gay, ao menos para meus amigos e familiares mais próximos. Se eu nunca te contei, é porque provavelmente eu temesse ser desrespeitada ou sofrer qualquer outro tipo de represália.
Mesmo assim, eu nunca me senti plenamente à vontade para dizer, seja aqui ou até nos ambientes mais receptivos, abertamente "eu sou gay". Me perguntei porquê, e agora está claro para mim: essa não é a minha verdade. A verdade é avassaladora e não respeita as barreiras que a sociedade coloca.
O que faz algumas pessoas não se identificarem com o gênero apontado ao nascer é uma pergunta para a qual a ciência não possui resposta. É algo presente desde sempre, sendo mais ou menos visível de acordo com o grau de abertura das diferentes sociedades para tal.
Durante muito tempo eu busquei essa resposta. Queria entender o que havia de errado comigo, como eu poderia consertar esse "defeito" que me impedia de viver plenamente com a identidade e o corpo de um homem gay, um rótulo que sofre muita discriminação mas mais amplamente compreendido e aceito pela sociedade.
Tentei -- tentei muito e de muitas formas diferentes -- negar que passar por uma transição e adotar uma identidade feminina era o meu desejo mais profundo. Mas a verdade, novamente, ela é avassaladora.
Procurei muita ajuda profissional para entender porque eu tinha tanta dificuldade em ter relacionamentos estáveis com outras pessoas. No percurso, ficou claro que o relacionamento que precisava de atenção era o meu comigo mesma. Precisava me conhecer e gostar da pessoa que eu sou, da minha identidade.
Eu teria todos os motivos do mundo para não estar aqui dizendo o que eu estou dizendo. A discriminação e o risco de vida no país que mais mata pessoas LGBTQIA+, especialmente T; a possibilidade de perder relação com pessoas que eu considero, amigos e familiares; os riscos profissionais, com a carreira que eu construí até aqui.
Para entender como uma pessoa trans se sente, relembre. Com quantas pessoas trans você trabalha ou estuda? Imagino que você saiba que nós existimos, mas onde nós estamos? Certamente são poucas jornalistas, assim como poucas médicas, advogadas ou qual mais profissão de nível superior você puder imaginar.
Apesar de tudo, de tudo, eu estou aqui. Iniciar a transição mais "tarde" limita o potencial das mudanças físicas. Me vi e me vejo diante da perspectiva de que, faça o que eu fizer, possivelmente eu nunca "pareça uma mulher", mesmo sabendo que o "parecer mulher" varia muito de acordo com a ótica de cada um de nós.
Mas esse não é o mais importante. Somos seres sociais e é claro que o respeito à minha identidade por parte da sociedade é importante para mim. Só que o mais importante no final do dia é que eu goste de quem eu sou, me sinta representada pela identidade e pela imagem que eu apresento. Se essa imagem não "parecer uma mulher cis", mas sim parecer a de uma mulher trans, de uma travesti, não tem problema, porque é isso que eu sou.
Estou aberta ao diálogo. Posso responder dúvidas, ajudar a ampliar o entendimento a respeito do tema. Perguntas agressivas ou opiniões não solicitadas, naturalmente, serão ignoradas, certo?