Feliz Dia dos Médicos?
Hoje recebi parabéns, ganhei chocolate, fui reconhecido pelo que faço. Mas abri espaço entre os mimos do dia para questionar se nós médicos estamos mesmo de parabéns. Essa sempre foi uma profissão historicamente reverenciada, idealizada e ainda hoje o é, mas fico intrigado com a quantidade de críticas que essa classe vem recebendo.
O médico caiu de status, as pessoas não mais se seduzem facilmente com o encanto do jaleco branco, não mais se satisfazem com um diagnóstico, um punhado de cápsulas e um tapinha saudoso nas costas. Há um desgosto coletivo com falta de atenção, consultas atropeladas, pompa demais e empatia de menos. O sistema muitas vezes não contribui, recursos escassos, grande demanda, remuneração baixa no SUS, mas ao meu ver também não justifica uma prática desbotada de afeto.
As pessoas reivindicam algo óbvio, mas ironicamente escasso na medicina, o cuidado, que em toda a sua simplicidade pode ser devorado em questão de segundos, seja pela frieza, seja pela impessoalidade que se dá num encontro entre um médico e um paciente. Esse encontro, por mais evidente que possa soar, trata-se da relação entre duas pessoas, mas é facilmente reduzido num encontro entre um técnico e uma doença.
É claro que o saber do médico é fundamental, a medicina baseada em evidências veio para o bem dos pacientes, a menos que a evidência deixe de ser eles próprios. Ouvimos menos, prescrevemos mais. Aparatos tecnológicos avançados acabam sendo mais atrativos, mas não têm diploma de medicina, não sabem o que é sofrimento, não passaram por coisas que gente passa.
Não acho que estejamos perdidos, muito menos que os médicos sejam os vilões da história, mas creio que diante de uma descrença tamanha frente a um ofício tão honroso, cabe a nós começarmos a reparar nas manchas em nossos próprios jalecos para que possamos repensar o que andamos fazendo com os nossos pacientes e talvez nos remeter ao que há de mais antigo na medicina, Hipócrates, que já nos dizia: “Antes de tudo, não cause o mal”.











