Era apenas mais uma noite comum, na qual Minryu, após seu expediente no trabalho, procurava por qualquer tipo de distração ou ocupação que o fizesse ficar o máximo de tempo fora de casa. O apartamento – mais desorganizado que oficina de bairro, diga-se de passagem – era grande demais, a solidão o sufocava, esmagava e desesperava até que não desejasse outra coisa a não ser estar nas ruas de Gwangju fazendo o que quer que fosse, exaurindo o próprio corpo para que, ao chegar em casa, não precisasse fazer mais nada além de dormir. Naquele dia em particular, havia sido expulso de todos os bares por onde passou, visto que, por não estar se sentindo particularmente paciente, acabou comprando briga em todos os estabelecimentos com qualquer bêbado que o incomodasse. Antes que descontasse o estresse e as próprias frustrações comprando uma carteira de cigarros, Ryu dirigiu-se para uma das pracinhas em que geralmente se apresentava, julgando que, talvez, apenas precisasse se distrair com algo que realmente gostava. Os movimentos, como de costume, vieram naturalmente ao ouvir as batidas que vinham de algum som num lugar próximo, street dancing e hip-hop eram sua especialidade, logo, era natural que suas performances chamassem atenção, de forma que pessoas paravam para assisti-lo. Algumas até mesmo deixavam alguns trocados aos pés de sua mochila; apenas para terem seus agrados devolvidos logo em seguida pelo rapaz que, da forma mais respeitosa possível, dizia-lhes que não fazia aquilo por dinheiro. Quando terminou, estava ofegante, transpirava tanto que a pele ligeiramente bronzeada brilhava à luz artificial dos postes, seu corpo ardia com adrenalina e a visão ligeiramente embaçada pelas gotículas de suor eram sensações familiares. Sim, ele gostava daquilo, fazia com que se sentisse vivo. Seus pensamentos foram interrompidos ao ver mãos diante de si, estendendo-lhe um objeto que não identificou de primeira do que se tratava, visto que ainda estava ocupado recuperando o fôlego e arrumando a própria roupa abarrotada. – Yah… isso é pra mim? – Indagou, entre arfadas, um pouco sem jeito. – Muito obrigado, mas eu não posso aceitar… Desculpe, não me entenda mal, é que eu não faço isso por dinheiro ou ‘pra ganhar presentes. Mas eu realmente fico agradecido pelo gesto.
Observou o reflexo pela vidraça de um loja, optando por prender os fios loiros e bagunçados. Fazia muito tempo que vinha pensando em pintá-los de alguma cor que fosse um pouco menos chamativa que aquele dourado, que, depois de tantos meses, já estava desbotado. Muito embora fosse uma marca registrada as madeixas claras e rebeldes, já fazia um certo tempo que vinha tentando mudar um pouco sua postura, e tentando recuperar a positividade que havia perdido tão nova para com o mundo em que vivia. Afinal de contas, era uma espécie de ato rebelde distanciar-se propositalmente dos padrões e regras estabelecidas pela sociedade conservadora, que repudiava não apenas seu modo de vestir ou a cor de suas mechas, mas também as tatuagens espalhadas pelo corpo, estas que agora estavam tampadas pela calça jeans azul, e a blusa de frio fina.
E, se Eunbin tanto reclamava de estar velha demais para certas infantilidades, sentia que estava se contradizendo afrontando pessoas que não só eram irrelevantes, como também não lhe importavam e, se não lhe importavam, porque continuava agindo como uma jovenzinha rebelde? Estava na hora de mudar um pouco. De tentar de verdade. Claro que não se afastaria de todas as coisas nocivas que fazia da noite para o dia só porque mudaria a cor do cabelo, até porque, se precisasse ser sincera, algum dia todos esses vícios que a faziam errar tanto acabariam a matando e ela tinha total ciência disso, mas, talvez se mudasse um pouco o exterior, isso já lhe daria uma sensação maior de conforto dentro do próprio corpo, que, em conjunto com a mente desgastada, clamavam por alguma mudança, por menor que fosse. Era uma forma de aliviar a consciência pesada, ela já não conseguia suportar mais a própria imagem.
Depois que terminou de ajeitar a franja com os dedos pálidos, finalmente continuou sua caminhada, agora com o vento gelado soprando a nuca nua. Direcionou-se primeiro até a loja de cosméticos, estranhamente empolgada com a ideia de que iria mudar de visual depois de quase quatro anos com aquele loiro na cabeça. Pediu dicas, olhou marcas, comprou todos os tipos de produto que achou que eram necessários para hidratar e administrar toda aquela química pela qual passaria novamente, e por fim escolheu a cor, um castanho que era quase preto. Céus, faziam tantos anos que não via a si mesma com uma cor tão escura! Riu, imaginando o choque que seria não só para si mesma após se olhar no espelho, como para todos os seus amigos que nunca haviam chegado a conhecê-la com uma tonalidade tão “natural”. Despediu-se das vendedoras com uma reverência moderada e organizou as sacolas nas mãos frágeis, optando por passear um pouco mais antes de retornar para seu apartamento, onde era muito provável que encontraria Vanilla dormindo em cima de sua cama. Diferente de quando havia deixado sua casa, agora o humor geralmente para baixo e pessimista havia temporariamente se transformado na mais pura animação; até passou em uma loja de conveniências para comprar um monte de baboseiras, que foi mastigando até chegar em uma pracinha não muito distante de onde estava antes, lotada de pessoas que iam e vinham, umas com pressa, e outras aproveitando o clima fresco de Gwangju. Percebeu também que, havia uma certa aglomeração ao lado esquerdo do local, próximo de uma ruela, e, guiada pela sua curiosidade, acabou enfiando-se no meio deles para entender o motivo de tanto alvoroço.
Assim que identificou o rosto de Ryu, um sorriso involuntário surgiu nos lábios avermelhados. Era bom observá-lo dançar porque lhe dava satisfação, uma espécie de orgulho que mantinha verbalmente em segredo, apesar de ser bem fácil de se decifrar pela forma como o observava. Eunbin, apesar das poucas maneiras e da forma agressiva de se portar diante das pessoas, possuía um coração sensível que se comovia facilmente, e, por ter um histórico perturbador em relação a sua própria juventude e todas as escolhas erradas que fizera, achava revigorante observar um rapaz tão novo praticando algo do que realmente gostava, principalmente se tratando de alguém por quem nutria tanto afeto. No final do número, não fez muito mais do que aplaudir, observando a pequena multidão se esvair, e, só então buscou no fundo das inúmeras sacolas em seu braço aquele pacotinho de guloseimas que ainda não havia aberto. O correto seria oferecer água, claro, mas como não tinha consigo, achou que não seria de todo ruim lhe dar doces. --- Aceita logo essa porcaria, pirralho. Eu ‘tô te dando um pacote de doces, não um saco de diamantes. Olha direito ‘pro pacote. --- Sacudiu a embalagem como se fosse um chocalho de bebê. --- E, você foi muito bem, inclusive. Meus parabéns.