Eu sempre olhei pra gente como almas gêmeas, sabe?
Ana Suy em um dos seus poemas de rasgar a alma, falou “amizade é o amor que deu certo”, e sempre que eu olhava pra nós, era exatamente isso que eu enxergava.
Eu te olhei com os olhos de ternura e amor que eu jamais olhei aos meus irmãos de sangue, afinal eles nunca compartilharam a vida comigo assim como você fez, como nós fizemos.
Eu te vivi, eu me rendi ao amor mais genuíno e sincero que senti por alguém.
Sabe aquela história que os opostos se atraem? Acreditei por um tempo isso não se encaixava quando o assunto era nós, pq o que mais fazia sentido naquela amizade era o fato de sermos exatamente iguais.
Porém, hoje eu acredito que esse tenha sido o começo do fim, ou o motivo do fim. Sermos exatamente iguais.
Pra falar a verdade, eu nunca entendi os reais motivos da tua partida, talvez eles não sejam os mesmos que eu imagino, ou talvez sejam exatamente os que fiquei por dias e dias tentando confabular.
Esse ano foi tão dolorido pra mim, desde a tua partida, na verdade, não houve um dia se quer em que não foi dolorido pensar, falar, relembrar..
Eu acho que quando a gente fala sobre os becos escuros da vida, automaticamente você conhece o caminho, tenho certeza que você já chegou lá de bicicleta.
Acontece que os caminhos escuros e sombrios nos quais me coloquei, não foi possível encontrar a saída nem mesmo com gps.
Me coloquei dentro de um beco escuro, úmido, frio e vazio, e simplesmente não soube sair de lá.
Não adiantou gritar, eu tentei por muito tempo, até perder a voz.
Não adiantou correr, pq a dor vinha antes mesmo de cansar.
Não adiantou me debater, pq as marcas, os arranhões e lesões já estavam impregnadas como tatuagem.
Em nenhuma dessas saídas eu te encontrei, então eu simplesmente optei por sobreviver ao silêncio, ao escuro e aquele beco.
Então depois de conhecer o caminho do inferno, eu comecei a pensar no orgulho.
Acho que existe muita coisa maior que o orgulho, né? Acho que quando a gente atravessa pela dor de existir, de existir em condições que a gente se odeia tanto a ponto de não querer mais nem respirar, acaba não fazendo mais sentido… sobre o que eu estava falando mesmo? Ah.. o orgulho.
Esse miserável filho de narcisismo, não faz sentido existir quando o existir não faz mais sentido.
Mas acho que esse texto era pra falar sobre você, né? Acho que me perdi de novo..
Então o ano novo pro escorpião começa sempre no aniversário, e não no dia 31 de dezembro.
Nesse meu novo ciclo, eu decidi que faria o melhor por mim, o melhor pelas pessoas que amo ou amei, e é isso que eu te desejo de aniversário.
Que você seja feliz, mas feliz de verdade. Que você se olhe no espelho e sinta orgulho de vestir tua pele, de habitar no teu corpo, de testemunhar tua vida. Que você se admire por ser quem você é, isso que verdadeiramente importa.
Paulo Freire deixa em uma carta para sua esposa Nita, todas as coisas que eu queria te dizer pessoalmente enquanto a gente mergulha os pés na água gelada do rio, mas não tive forças… “A boniteza da vida não está na compreensão rígida das coisas nem na lógica bem comportada que exigimos dos fatos, nem tampouco na nossa certeza em termo do que deve ser a própria vida. A boniteza da vida está na certeza da incerteza e na coragem de começar tudo de novo quando se pensava que já nada podíamos fazer. A boniteza da vida está em aceitar que até as sextas-feiras podem virar azuis e que nelas rosas, violetas, margaridas podem florir e sabiás podem cantar. A boniteza da vida está na capacidade de amar, apesar de tudo. A boniteza da vida está em perceber que amar é melhor que não amar, mesmo quando não amar, como tentação diabólica, pudesse parecer uma porta aberta a mil amores. Te amo convictamente.”
E é assim que me despeço, com a certeza que te amei convictamente.