[13] CASAMENTO
A noiva entra. No caminho para o altar, vê minha prima entre os convidados; trocam um olhar afetuoso. Ela fecha os olhos como num abraço apertado. Me cativa testemunhar um momento carregado de tanto significado, ao mesmo tempo tão sutil. Sob o véu, noto o aparelho auricular. Aquela história, aquela amizade: são verdadeiras.
[...]
Sem motivo aparente ela começa a me contar sobre um de seus aniversários. Eu estudava fora da cidade; ela ainda menor de idade. Não era comum que alguém se preocupasse em comemorar essa data com ela. Minha mãe, por compaixão, quando podia tratava de fazê-lo. E essa memória que ela me confidencia foi uma dessas ocasiões: minha mãe, junto do meu irmão, levou um bolo para ela; e os três cantaram parabéns.
Então me relata que minha mãe chorou, dizendo que não sabia se eu era feliz, porque eu não me abria.
Minha reação ao saber disso é de irritação! Eu estou o tempo todo falando sobre mim; sobre o que penso e o que faço! Meus projetos artísticos – como o processo de criação deste livro! Mas a reação dos meus familiares nunca é de interesse. E não estou exigindo que eles tomem gosto pelas mesmas coisas que eu, ou que partilhem das mesmas opiniões que as minhas, mas muito me incomoda não ser enxergado além da minha sexualidade.
“Eu não ligo, mas a família comenta”, minha prima diz. Percebo sua intenção: quer estabelecer um ambiente seguro para entrar na questão. Digo enfim que, na época da faculdade, eu estava em um círculo em que me sentia confortável para ficar com quem quisesse. Ela dá sequência com algumas confissões de sua parte, e me dou conta de que o propósito em saber da minha intimidade é uma espécie de contrato que permite que ela exponha a sua própria.
[...]
Na próxima sessão, meu terapeuta explica que contar para as pessoas sobre minha sexualidade é uma forma de conquistar sua confiança, enquanto escondê-la faz com que todas as outras esferas da minha vida sejam duvidáveis. Compreendo, mas ainda desejo ser um indivíduo reconhecido pela minha atuação no mundo, e não pelas minhas preferências sexuais.
Minha vida toda tive a sexualidade questionada, em praticamente todo ambiente em que frequentei, desde criança até a idade adulta. Ciente do interesse dos outros nisso, decido tratar neste livro também sobre minhas experiências sexuais. Não me incomoda falar sobre sexo. Não tenho tabu. E se eu tiver que expor minha intimidade para ter minha verdade legitimada, que assim seja.
Imagem: Tom Pumford.
















