Ciúme.
C I Ú M E
O verbete, que norteia os pensamentos dela desde sempre, estava ali a dar as caras novamente.
E ela respirou. Respirou. E respirou de novo!
Quem seria a tocar a campainha que interrompeu a ligação?
Antes de ter a chance de ponderar e racionalizar, seu cérebro ciumento, ansioso e inseguro resolveu dar pitaco.
E, numa fração de segundos, já surgiu a primeira fanfic.
Aquela fanfic que, claro, fazia mais sentido que ser o entregador de comida. Aquela explicação de que, ÓBVIO, devia ser alguma mulher batendo à porta.
O peito apertou.
A respiração ficou ofegante.
A vontade de chorar e gritar apareceu de novo. Sempre aparecia. Era SEMPRE um sofrimento.
Desde SEMPRE era assim.
Até que chegou uma mensagem: "O celular desligou. Pera que já te ligo de novo."
Devia soar tranquilizador? Devia. Era da natureza dele não deixá-la esperando. Ele costumava explicar sempre porque já conhecia as ansiedades dela.
Mas não tranquilizou!
E ela seguiu, criando força pra respirar entre uma especulação e outra. E cada uma era mais mirabolante que a outra! Porque, claro, ela sempre ia pensar no pior cenário. E o pior cenário era ela perdendo aquela felicidade de ter alguém como ele.
Mãos geladas. Cigarro aceso. Pensamento a mil! Como é que ela aceitava viver assim consigo mesma?
Queria era gritar, brigar e vociferar com ele. Afinal, ele sabia que ela era assim e DEVIA se ocupar de evitar que esse tipo de coisa acontecesse. Devia ser preocupação dele.
Certo?
ERRADO!
Era uma questão DELA. Ela precisava trabalhar isso e não permitir que isso interferisse de forma maléfica na rotina. Ouvir essa vontade de gritar era dar ouvidos à tal sabotadora que vivia dentro dela. E isso ela não admitiria que acontecesse. De novo, NÃO!
Restava esperar, entre uma tragada e outra daquele cigarro. O cigarro que economizou durante toda a tarde na luta pra abandonar o vício. Restava só pela hora em que ele desocupasse pra retornar e continuar a ligação.
Seria uma espera interminável. Mesmo que durasse poucos minutos. Pareceria uma eternidade. Porque seu cérebro só ia se acalmar quando ouvisse a voz dele.
Novamente, todo o sofrimento teria sido em vão. E ela até se ia censuraria por ter gastado tanta energia.
Ela trataria de perguntar o que estivera ensaiando enquanto esperava. Numa entrevista disfarçada (ele percebia, claro!) ia dar conta de quem, o que e como tinha sido aquele intervalo de tempo que passou a esperar.
Precisava aprender a se acalmar. De preferência, sem sofrer.
Porque deixar de ser ciumenta já não parecia viável àquela altura.
Comeu.
E esperou.













