Da leitura para a reflexão: Sobre os pesos que nos pesam
Estava lendo Música ao Longe, de Érico Veríssimo. Relendo, na verdade... pela-não-sei-quantas-vezes.
Parei um pouco. Resolvi vir escrever. Sempre me vem esse desejo no peito de escrever... Mas aí penso: escrever o quê? E para quem?
Não serve escrever para mim? Pois é... Era pra servir, mas acaba não servindo, né? Porque o interior da gente sempre quer mais. Quer escrever para ser lida, reconhecida... Quer virar uma Bruna Vieira da vida.
E quando me deparo com algumas resenhas inteligentes pela internet? Me sinto uma tola total. Fico pensando: eu jamais conseguiria escrever de tal forma.
Mas ok... Não vou ficar lamentando minhas limitações intelectuais. Vamos direto ao tema que me fez querer largar a leitura pra vir escrever.
Será que a idade… ou melhor, a maturidade (que vem de brinde com a idade) faz a gente enxergar certas coisas com outros olhos?
De outros ângulos? Muito provavelmente.
Sempre tive um enorme senso de autocrítica. Comparação... em diversas áreas da vida. A mais pesada? Aparência física.
Ultimamente tenho questionado ainda mais os padrões impostos por essa sociedade opressora. Não só os de beleza… todos, na verdade.
Mas já que toquei no de beleza, e sendo esse o mais pesado pra mim, é sobre ele que vou discorrer.
Nos últimos longos anos, corri contra a balança de diversas formas. Dietas, profissionais…
E hoje, o que me fez parar pra escrever este texto foi o simples fato de ser sábado, 11 da manhã, e eu estar na cama lendo… e agora escrevendo… sem estar minimamente preocupada em me exercitar.
Ter essa percepção me fez me autoquestionar:
O que mudou aqui dentro? Eu relaxei?
Relaxei no sentido de descuidar do corpo… ou relaxei daquela autocobrança exacerbada que me habitou nos últimos anos? Aquela que dizia que eu precisava me exercitar freneticamente, senão iria engordar?
Pensando bem… acho que foi a segunda opção.
Sabe por quê? Porque eu literalmente me cansei.
Cansei de ficar bitolada, pensando em dietas e achando que cada garfada fora delas iria me levar à ruína.
Cansei de me exercitar de segunda a sexta pela manhã… e ainda me obrigar, no final da tarde, a fazer mais 40 minutos de cardio intenso. Contando os finais de semana.
Quando finalmente relaxei… ganhei de brinde uns cinco quilos a mais na balança.
Não foi da noite pro dia. Foi ao longo de uns seis meses.
Esse “relaxamento” foi chegando aos poucos...
Como se um foda-se inconsciente tivesse sido ligado.
Me fazendo agir com mais leveza. Menos cobranças. Menos obsessão.
Não vou ser hipócrita dizendo que estou me amando com esses quilos a mais. Não estou.
Mas ao mesmo tempo, me olho no espelho e penso:
“Não está tão ruim assim.”
Dias como hoje, em que me olho e não me sinto tão mal...
E dias como ontem, em que me olho e bate o desespero… ao experimentar uma calça um número maior que o habitual… e ainda assim ela ficar apertada.
Buscar o tal amor-próprio.
Minha relação com meu corpo sempre foi problemática.
Já cheguei a ficar muito magra… muito mesmo… e mesmo assim, não era bom o suficiente.
É doloroso pensar quantas de nós, mulheres, passamos por isso.
Coisas que muitos homens nem sabem o que é… porque não precisam lidar com tamanha pressão estética que recai sobre os nossos ombros.
(Não estou dizendo que homens não sofram… mas esse fardo sempre foi, e ainda é, muito mais pesado para as mulheres.)
Agora penso: será que o amor-próprio, tão sonhado por mim, vai vir com um corpo maior?
Com um corpo que, pra mim, está fora do padrão?
Interessante… as ironias da vida.
Não estou aqui dizendo que a gente não tem que cuidar da saúde. Nem que precisa parar de se exercitar ou de comer bem.
O que quero colocar na mesa… é sobre os excessos.
Excessos que nos perturbam.
Que nos pesam… mesmo quando o corpo físico está mais leve.
Quantas vezes nosso corpo está fisicamente leve… mas a alma, profundamente pesada?
Que a gente possa se libertar desses padrões que nos prendem.
Que nossos corpos sejam livres.
Com suas marcas… suas dobras… suas sobras de pele.
Que o olhar do outro não nos machuque mais. Nem nos prenda.
Que a gente aprenda a se dar o olhar que tanto busca no outro.
E que nossa alma… nossa mente… estejam cada vez mais leves…
Distantes daquela severa autocrítica… que um dia… já habitou forte em nós.