Um sorriso leve permaneceu em seu rosto para o comentário do irmão mais velho do outro, sentindo sempre aquela leve ponta de inveja pelo relacionamento entre irmãos que o loiro nunca poderia experimentar realmente, mas também se divertindo com a relação que compartilhavam. Mas a leve áurea descontraída que ele havia imaginado logo se desfez e Scorpius se viu inclinando para trás como se Albus tivesse lhe dado um soco. Ao menos em seu amago doía como um. Fora impossível não engolir em seco com aquela afirmação e mesmo que todos seus instintos o alteassem para não olhar as orbes claras a sua frente, o loiro o fez e foi como se um segundo golpe o houvesse acertado. A culpa o comeu por dentro como se um verme vagasse pelo seu interior o lembrando o quão estragado ele era por dentro.
Por alguns segundos o herdeiro dos Malfoy voltou para o seu terceiro ano, quando Albus voltara a lhe contar alguma desculpa que seus pais criaram para não deixar o filho ir à casa do neto de Lucius Malfoy. Scorpius nunca se sentira um amigo tão miserável como naquela época, ao ver que ele não era bom o suficiente nem para passar uma semana com o melhor amigo longe dos olhares de seus pais. E o loiro sabia que não era uma decisão de Albus ali e isso tornava tudo pior porque mesmo quando encontrava uma pessoa que o quisesse por perto, essa pessoa não poderia ficar ali, pois o passado de sua família não permitira. E agora, bem ali, o sonserino passava por uma situação ainda pior.
O tempo escorreu tal como a eternidade aos seus olhos e mesmo assim o sextanista não encontrou as palavras que procurava, palavras que não deixariam seu melhor amigo escapar por seus dedos como parecia acontecer. Porque Scorp já estava perdendo a mãe, se Albus se fosse também…“Al…” Começou, ele mesmo não sabendo bem o que diria, talvez ‘me desculpe’ ou ‘minha mãe está morrendo’ ou quem sabe um simples ‘eu estou com tanto, tanto, medo, Al’, mas sendo impedido de proferir tais palavras ao ser surpreendido com o som abafado de uma pilha de livros que desabava no chão ao longe pela desatenção de algum corvino. Fora um ato pequeno, tirando sua atenção por leves segundos, mas sendo o suficiente para que a coragem que o loiro encontrara deixasse sua língua. “Eu… nós deveríamos terminar isso logo. Eu não vou ter tempo de fazer isso mais tarde com a ronda.” Se distanciou, amuando-se em si mesmo ao desviar os olhos dos claros a sua frente e focar em seu pergaminho, se odiando pelo covarde que era e como Albus não merecia o que ele estava fazendo.
A casa de Salazar Slytherin havia escolhido Albus por inúmeras características, mas uma delas era sua astucia, sempre fora capaz de se passar por vulnerável tempo o suficiente para que alguém abaixasse aguarda e então ele pudesse se vingar, obviamente a mesma astucia permitia que o jovem nunca fosse responsabilizado por todas as vezes em que colocara suas garras de fora, a indireta fora uma dessas artimanhas bem calculadas que planejara havia alguma tempo, talvez ele tenha treinado dize-la na frente do espelho quando não tinha ninguém com ele em uma dos banheiros, mas parecia que o melhor amigo também tinha as suas cartas na manga, quis azarar a pessoa que derrubara os livros e quebrara toda a continuidade da conversa dos dois sonserinos, em geral não tinha aquele tipo de pensamento, mas desde que percebera que algo não estava normal entre Scorpius e ele, não estava exatamente cem por cento em seu estado normal.
A face exibia um sorriso frustrado, daqueles que você simplesmente esqueceu de tirar dos lábios. Não havia a valer felicidade naquela curvatura, esta que emprestava ao semblante do rapaz um ar derrotista. Piscou demoradamente enquanto o ar entrava quase que solido em seus pulmões, não existia apenas algo entre eles, soube naquele momento que o que quer que fosse era sem dúvida algo grandioso, temia que fosse na verdade algo desastroso e sentiu-se tão impotente que mal fora capaz de reabrir os olhos, afinal que espécie de amigo ele era, se não fosse nem ao menos capaz de respeitar o espaço que o Malfoy necessitava. As palavras do outro foram como uma onda especialmente forte que puxa um naufrago novamente para o mar quando ele estava muito perto de terra firme.
Estava, de fato, na ponta de um desfiladeiro e por aquele que ostentava a posição de melhor amigo, o jovem Potter pularia quantas vezes fosse necessária, não podia deixar que Scorpius se afastasse, não deixaria que isso acontecesse, nem que ele tivesse que segura-lo pelas pontas dos dedos, ainda assim ele o manteria junto de si. Voltou a fitar a face alheia com uma convicção displicente, deixava vazar um pouco do quanto toda a situação estava sendo complicada, não que se julgasse um sofredor, mas porque não estava sendo capaz de apoiar o amigo como deveria. Deixou que os dígitos tocassem o pergaminho alheio por alguns instantes, como se buscasse não somente atenção, mas o contato com o mais alto. ❛ ── Eu vou te ajudar com tudo que precisar, não só com poções. E no tempo que precisar. As palavras soariam um pouco melosas para quem por acaso estivesse dedicando sua atenção aos dois, mas sabia que aos ouvidos do dono dos fios claros seriam entendidas da forma correta, pois cada uma saíra carregada do sentimento de parceria que apenas eles compartilhavam.