Eu tenho uma lista de coisas que gostaria de fazer antes de morrer. Algumas são simples, quase pequenas demais para chamar de sonho. Outras parecem grandes, distantes, quase impossíveis. Mas todas nascem da mesma vontade imensa de simplesmente viver.
Quando você não tem escolha, aprende cedo que a vida nem sempre se parece com aquilo que imaginou e a realidade te empurra para outros caminhos. Em algum momento eu comecei a acreditar que talvez o sol realmente não brilhasse para todos. Ou, pelo menos, não da mesma forma. Então eu passei a viver no automático: Estudar. Trabalhar. Pagar contas. Sobreviver a mais um dia e suportar o peso de olhar ao redor e me ver sozinha no meio de uma multidão. Cercada de pessoas, mas sempre sozinha.
As memórias vinham carregadas de abandonos, medos e frustrações. Vinham lembrando de todas as vezes em que eu fingi ser quem eu não era, apenas para agradar os outros, menos a mim. Todas as vezes em que eu disse sim, quando meu coração gritava não. E todo o tempo que perdi vivendo uma vida que eu nunca quis viver. Escolhendo e me mantendo em uma profissão que não me faz feliz, apenas por não me deixar desempregada por muito tempo. Mantendo amizades que não me fazem bem. Insistindo em manter por perto pessoas que gostam da minha utilidade, mas não de quem eu realmente sou.
Eu me tornei a pessoa que cuida de todos, a que resolve, a que ajuda, a que escuta. Mas quando chega a minha vez de ser cuidada… eu me cuido sozinha.
Para não assistir o tempo passar enquanto meus sonhos se perdiam pelo caminho, comecei a dormir mais do que o normal. Dormir se tornou uma forma de escapar. Porque, quando eu estava acordada, a vida parecia seguir em câmera lenta, como se tivesse prazer em me lembrar de tudo aquilo que eu queria ter sido e não fui. De tudo o que eu quis fazer e não pude. De todas as vezes em que eu tentei, e ela… a vida respondeu com um forte não.
Com o tempo, viver começou a pesar. Minha cama se tornou minha melhor amiga. Ela sempre estava ali, oferecendo um lugar quente, uma coberta e travesseiros que pareciam me abraçar. Ela não fazia perguntas difíceis. Não exigia explicações. Apenas me convidava a esquecer o mundo lá fora. Ela me envolvia em silêncio até que meus pensamentos finalmente se rendessem ao cansaço e eu adormecesse. E quando eu acordava… o tempo já tinha passado.
Mas aí está o grande problema. O tempo não para quando eu estou dormindo. Ele continua correndo, com a mesma urgência de sempre. A mesma pressa silenciosa que ninguém percebe até que seja tarde demais. E você só entende isso quando a vida decide te acordar.
Porque chega um momento em que ela não pergunta mais se você quer despertar. Ela simplesmente te obriga a abrir os olhos. E quando isso acontece, você começa a questionar todas as escolhas que fez até ali. Você olha ao redor como quem enxerga o mundo pela primeira vez. Percebe que deu importância demais ao que era pequeno. Que carregou problemas que nunca foram tão grandes assim. Que muitas das opiniões que te feriram não tinham peso algum. Você entende que aquilo que disseram sobre você nunca definiu quem você realmente é.
E, naquele instante silencioso entre uma respiração e outra, surgem perguntas inevitáveis: Será que ainda dá tempo de viver a vida que eu sempre quis viver? Será que ainda dá tempo de experimentar tudo aquilo que um dia eu sonhei viver? Os lugares que imaginei conhecer, as versões de mim mesma que eu nunca tive coragem de tentar ser?
Será que ainda tenho mais uma chance? Mais uma oportunidade? Uma última tentativa de fazer diferente, de ser diferente?
A vida, que tantas vezes parece dura e impiedosa, talvez seja como uma mãe que ama profundamente o filho, mas que em certos momentos precisa segurá-lo pelos ombros e sacudi-lo para que ele desperte, porque ama o suficiente para não permitir que ele continue dormindo enquanto a própria vida passa diante dos seus olhos. Talvez porque essa seja a única forma de nos fazer entender algo que tentamos ignorar por tanto tempo: nós só temos uma vida. E por mais que ela venha acompanhada de frustrações, medos, perdas e caminhos que nunca saíram como planejamos… ela ainda é nossa.
Mesmo que nada tenha acontecido da maneira como imaginamos. Mesmo que os sonhos tenham mudado de forma no meio do caminho. Mesmo que tenhamos tropeçado mais vezes do que conseguimos contar… Ainda assim… a vida continua aqui, esperando que a gente finalmente pare de apenas sobreviver… e comece, de verdade, a viver.
Porque talvez o maior erro não seja falhar. Talvez o maior erro seja passar pela vida inteira sem ao menos tentar.
Viaje, sorria com a vida. Aprenda a olhar para o agora sem carregar o peso de pensar demais no amanhã. Coma a sua comida favorita sem culpa. Ouça música com o volume no máximo. Dance como se ninguém estivesse olhando. Pule, ria alto, se permita ser leve. Crie memórias. Tire fotos. Muitas fotos. Não apenas para registrar o momento, mas para lembrar, no futuro, que houve um tempo em que você escolheu ser feliz.
Ganhe tempo vivendo de verdade. Porque, no fim das contas, o tempo nunca é realmente perdido quando estamos vivendo algo que faz nosso coração bater mais forte.
Tire sua lista de coisas a fazer do papel. Pare de tratá-la como um sonho distante ou como algo que pertence a um futuro incerto. Comece a transformá-la em realidade, mesmo que seja um passo de cada vez.
Se existe um único sentido para a vida, talvez ele seja exatamente esse: viver.
E quando tudo isso chegar ao fim, porque um dia chega, que a gente possa partir levando boas histórias no coração. Que a gente parta carregando lembranças de tudo o que ousamos viver. Porque existe uma diferença silenciosa, mas profunda, entre as pessoas que apenas passam pela vida… e aquelas que realmente vivem.
Então, quando chegar a sua hora, escolha partir assim: morrer com memórias, e não com sonhos.