Telefone fixo
O baque surdo do telefone no gancho. E um olhar furioso. Quem ele pensa que é? Término por telefone fixo em pleno século XXI. Tudo bem que Helena tinha telefone fixo em pleno século XXI. Mas, enfim... in-jus-ti-fi-cá-vel uma coisa dessas! Aquele lá só podia ter perdido os últimos miolos da cabeça mesmo!
Helena fica encarando a relíquia vermelho vivo, que ganhara no natal passado da prima distante de uma tia avó, para esperar as lágrimas descerem. Desçam! Desçam! Desçam!! Lágrimas que não desciam. Seu rosto queimava tanto com o sangue que ali se acumulava que suas bochechas pareciam que iam decolar para o além, mas as lágrimas mesmo que eram boas não vinham!
Cansada de encarar o telefone fixo vermelho ela olhou para Chinchila. Chinchila não era uma chinchila. Por incrível que pareça, Chinchila era uma gata cinza de orelha em pé e olhos amarelos. Mas Helena havia achado que ela era a única chinchila no meio do mar de gatinhos para adoção dentro da caixa. Gatinhos sortidos e uma chinchila. Mas a diferença de uma chinchila para Chinchila era que a primeira jamais olharia para ela com olhar acusatório, deitada no braço do sofá.
Gatinha má. Nada daquilo era culpa da Helena, oras! Ele que resolvera terminar pelo telefone. Te-le-fo-ne (Helena gostava de colocar em ênfase cada uma das sílabas de uma palavra quando estava sob fortes emoções). Helena mostra a língua para Chinchila e o que a gatinha-chinchila faz? Mostra a língua de volta! Estou ficando maluca!
A língua de Chinchila é rosada, parece vermelha. Vermelha que nem o telefone. Que nem a blusa de frio que Helena está usando. Rapidamente Helena tira a blusa de frio. Vermelho não é mais sua cor predileta. Arrancar fora a blusa de frio, não a língua da Chinchila!
Chinchila parece que pressente o pensamento que rumina na cabeça de Helena e pula do sofá, passa pelo corredor e vai para não se sabe onde. Dormir, comer, dormir, comer: vida de gato. Uma das sete, pelo menos. Mas tudo isso era feito com a língua vermelho telefone de Chinchila.
Nenhuma lágrima e o casaco está jogado no chão. Vermelho é a pior das cores.
Providências precisam ser tomadas! Já!
Cansada de esperar pela aguinha salgada proveniente das regiões oculares, Helena espatifa-se exausta no sofá em meio a tudo o que havia de vermelho na casa, espalhado pela sala ao seu redor, revirado. Nada de vermelho e derivados nessa casa. Podem ir tirando o cavalinho da chuva senhoras Rosa e Laranja. Nada de maçãs, melancias, laranjas, tangerinas e morangos. Algo deveria existir para suprir essas carências alimentares.
E no raiar do dia seguinte, debaixo do bloco de Helena, a placa: Bazar Vermelho – traz o amor.
- a.p.












