Achei muito educada a atitude dela de pedir desculpas pela ausência e justificar-se com uma desculpa plausível e verdadeiramente eficaz, o que estava mudando o meu julgamento sobre a garota. Mas não foi o pedido de desculpas nem a justificativa que mudaram completamente a visão que eu tinha dela. Não mesmo! Ela disse que poderia resolver meu problema de fome e por mágica, o que já me assustou no passado, mas que o instituto tornara comum, fez surgir uma porção de alimentos. – Caralho! Se você me pedir em casamento agora, eu aceito. Você é um anjo?.- Depois dessa frase, todo o meu pensamento pessimista foi embora rapidamente e eu só conseguia sentir satisfação, felicidade e admiração por aquela garota que eu mal conhecia, mas já me dava comida. Kelly era uma pessoa maravilhosa. O banquete podia ser menos saudável e mais gorduroso? Podia. Mas comida é comida, está ótimo. Então ela ainda sentou para me acompanhar. Definitivamente educada. – Retiro o que eu disse antes, desculpa. Podemos andar, podemos fazer qualquer coisa. – Mas tudo que é bom, normalmente dura pouco, e a comida começou a fugir de mim.
Aquele era, com certeza, o meu pior pesadelo. Tão ruim que nem sequer nas piores noites ele aparecia. A comida fugia de mim, desaparecendo quando tocava e rolando para longe. Entrei em pânico e desespero tentando comer sem conseguir. O que poderia ser feito? Provavelmente não era culpa da Kelly, já que ela parecia tão preocupada quanto eu. O que será que atrapalhava as ações bondosas de um anjo tão caridoso? Será que eu estava sofrendo por ter sido uma pessoa ruim? Mas eu me certifiquei de não falar nada de ninguém… Pelo menos não nas costas… Não sempre… Eu não merecia aquilo de forma alguma. A pessoa cheia de bondade ainda me pediu desculpa. – Não precisa se desculpar, sei que não foi culpa sua, mas… mas… – O choro já estava voltando. Mas, antes que pudesse se desmanchar no drama pessoal, observou que uma multidão vinha gritando alguma coisa enquanto se aproximava. Eles pareciam tão animados. Podia ser uma festa e… O que festas têm? Comida! Muita comida! – Cansei de correr atrás de comida que não me quer! Vamos, Kelly, deve ter comida no meio daquela festa! – Falei animada, sem reparar que, no entanto, as pessoas gritavam “bruxa” várias vezes… Mas podia ser algum ritual local. Não era realmente importante. Na pior das hipóteses era só por eles para dormir.
Estava se sentindo mal por Lira. Dissera á ela que ajudaria, fizera toda a magia e de nada resolvera. O pior era que a outra ainda parecia sofrer enquanto Cornelia, que não tinha o menor problema em relação á fome, conseguia pegar os alimentos que quisesse e quando quisesse. Por mais que a garota disse que não tinha sido culpa da loira, ela sabia que era sim sua culpa. Afinal, o feitiço fora dela. Mas o que poderia ter dado errado? Lira, porém, parecia pensar ter achado sua fonte de salvação na multidão que avançava, a mesma multidão que continuava a caminhar até elas e repetir “bruxa”, sem parar. -Lira, eu não acho que seja uma boa ideia. -comentou. -Eles não parecem tão amigáveis. -Nelly se levantou, encarando as pessoas e esperando que estivessem perto o suficiente para ouví-la. Eles carregavam tochas e ferramentas pesadas, com uma determinação estampada. -Olá, eu sou Cornélia e está… - “Bruxa! Bruxa! Bruxa”. -Esta aqui é minha amiga Lira. Nós não sabemos como viemos parar aqui e… - “Maldita! Filha das Trevas” -Nós queríamos… - “Bruxa!”. Junto com o último grito e em meio á frase incompleta da feiticeira, um objeto se projetou em direção da mesma. Num reflexo rápido, Cornélia acenou com a mão, fazendo com que a coisa parasse antes de atingí-la. Era um martelo. -Mas o quê...- murmurou, sem compreender. Ao mesmo tempo percebeu que a multidão parecia mais irritada e ainda avançava, formando um semi circulo ao redor dela, pouco a pouco.
-Lira, saia daqui. -disse, sem tirar os olhos da multidão. -Sei que você está com fome, mas precisa sair daqui. Agora. - Outra coisa foi arremessada, dessa vez uma das tochas e, do mesmo modo, foi parada pela magia de Nelly. -Parem com isso. -ela pediu, mas o coro continuava e agora não restava mais dúvidas de que era ela o alvo. -Parem, por favor. Não há bruxa nenhuma aqui. Sou uma feiticeira D’Anjou. Minha magia é de luz. -eles, porém, não davam sinais de ouví-la, cercando cada vez mais as duas garotas, aumentando o nível do coro e atirando cada vez mais coisas. Em um dos arremessos, um porrete desviou-se de Nelly e foi em direção à Lira, sendo parado pouco antes pela feiticeira, mas, diferente de antes, desta vez o objeto transformou-se em um pedaço de pão, caindo instantaneamente aos pés da morena. Cornelia olhou para a própria mão, sem compreender. Ela não fizera aquilo. Bem, ela não tivera a intenção de fazer aquilo. -Lira, eu… -queria se desculpar novamente com a garota, mas do que adiantaria? O coro continuava, a multidão cada vez mais irritada e o sofrimento de Lira ainda persistia, principalmente depois do último acontecimento. Cornélia fechou os olhos com força, respirando fundo algumas vezes. -PAREM!- gritou, sem saber o que mais podia fazer. Mas dessa vez, funcionou. Os sons cessaram e ela ouviu o baque dos objetos no chão. Abriu os olhos, mas assim que a visão focalizou, se arrependeu do que fizera. A imagem a sua frente era desesperadora: é claro que o barulho cessara, pois todos estavam agora mortos. Alguns com pescoços quebrados, outros com objetos como facas enfiados em sua garganta. -Não. -Cornélia disse quase num fio de voz. E então, outra coisa inesperada aconteceu. -Sim. -uma voz retrucou. Mas não era outra voz. Era a sua voz. Ou melhor, a voz da outra. Pois, bem a sua frente, havia uma imagem dela, como se fosse um espelho, exceto que pela Cornélia “refletida” tinha algo diferente. Era mais dura, mais intensa… Mais sombria.