~Todas as flores que não te enviei, Felipe Rocha
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@mundoliteratura
~Todas as flores que não te enviei, Felipe Rocha
~ Todas as flores que não te enviei de Felipe Rocha
Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênesis da infância, A influência má dos signos do zodíaco. Profundissimamente hipocondríaco, Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Já o verme – este operário das ruínas – Que o sangue podre das carnificinas Come, e à vida em geral declara guerra, Anda a espreitar meus olhos para roê-los, E há de deixar-me apenas os cabelos, Na frialdade inorgânica da terra!
~ ANJOS, Augusto dos. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 203.
Resenha: A Terra Longa de Terry Pratchett & Stephen Baxter
Um livro de ficção científica incrível é super original. Nessa história a humanidade descobre que existem outras milhares de planeta Terra paralelas que fica conhecida como Terra Longa.
As pessoas descobrem por meio de escritos de um cientista recluso como construir e utilizar um pequeno aparelho desenhado para ajudar as pessoas a se locomoverem entres as milhares de Terras paralelas.
Entretanto, alguns conseguem se locomover na Terra Longa sem necessidade de utilizar tal aparelho, conseguem "saltar" naturalmente.
A narrativa gira em torno principalmente de dois desses "saltadores" naturais, que partem junto a um homem robótico em busca de descobrir mais sobre as diversas Terras e seus diferentes habitantes.
Achei o final estranho mas descobri que há uma continuação e já estou ansiosa para ler.
Poesia
Certo de estar perto da alegria comunico finalmente que há lugar na Poesia Pode ser que você tenha um carinho para dar ou venha pra se consolar Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda Bemvinda
— Chico Buarque de Holanda
A Viagem de Cilka por Heather Morris
Que livro pesado, ler vários livros sobre os horrores do holocausto não te preparam para o que lemos nessa história, por mais que seja em parte uma narrativa ficcional, a tentativa da autora em narrar a história de vida de uma adolescente de 16 anos que dá nome ao livro, Cilka, em sua terrível jornada pelos campos de concentração nazistas e campos de trabalho forçados soviéticos.
Impossível não se emocionar e se arrepiar com a narrativa de vida de Cilka, sua juventude toda tendo sido roubada ao ser enviada para Auschwitz, onde por milagre consegue sobreviver aos horrores perpetrados pelos nazistas por longos 3 anos e enfim, com a liberação do campo pelos soviéticos, o que era pra ser o fim do horror, se transforma em um novo modelo de prisão e desumanização, agora perpetrado pelos soviéticos.
Uma leitura forte e impressionante.
Parece que passamos a acreditar mais na extinção de nossa espécie que na transformação radical da organização da vida na Terra; ou, ainda, no abandono de nosso mundo, como sugerem projetos de escapismo extraterreno de colonização de outros planetas, especialmente Marte. A facilidade – e, por vezes, até o entusiasmo – com que se aceitam as narrativas de fim do mundo é diretamente proporcional ao ceticismo com que se rejeitam as ideias de um mundo igualitário e justo.
Estrela vermelha, Aleksandr Bogdánov
"Todos somos produtos do nosso meio. Cada um de nós carrega o mapa de nossa vida impresso na pele, na maneira como caminhamos, até no modo como crescemos."
~A Garota que Lia as Estrelas - Kiran Millwood Hargrave
RESENHA: A Raposa do Cerrado - José Leonídio
A vida no cerrado
O livro narra a vida de uma pequena cidade no interior do nordeste, no cariri, mostrando como as pessoas viviam, como se davam as diversas relações entre fazendeiros e trabalhadores, entre homens e mulheres, etc.
Ao longo da narrativa, somos levados a acompanhar a trajetória de vida de Raimundo e Maria, sendo Raimundo vaqueiro da fazenda de Tobias, o maior fazendeiro e mais rico produtor rural da região. Conhecemos a vida de Maria a esposa, dona de casa e mãe, que no momento inicial da narrativa está grávida de mais um filho, que ao nascer receberá o nome de José.
A narrativa geral do livro gira principalmente em torno da vida de 5 personagens: Tobias, Raimundo, José, Luis e Tatiana. Tobias acaba por se aproximar cada vez mais da família de Raimundo, chegando a se tornar padrinho de José, mas não por amor ao menino apenas, mas também por ter se apaixonado pela filha de Mãe Preta, que ajudou no parto de José.
Tatiana, irmã de José desde pequena dá mostras de não desejar a mesma vida que todas as mulheres que conhece levam, não quer apenas ser mulher do lar parideira de filhos, sonha mais alto, quer estudar e crescer na vida, entrando na política para conseguir melhorias para seu povo e sua terra.
Luis é um filhos de fazendeiro rico, porém é inicialmente desprezado por todos, inclusive pelo próprio pai e a família, o motivo: Luis é aleijado e não pode anda, teve polio e perdeu o movimento das pernas. Somente mais velho, e com a ajuda de seu irmão José, seu maior amigo e defensor, consegue ser respeitado demonstrando seu valor.
Raimundo pai de José consegue com muito trabalho e humildade dar vida melhor aos filhos, por sua competência e honestidade ganha a confiança do patrão Tobias e passa a ser seu braço direito.
Enquanto vemos o desenrolar da vida desses personagens, somos apresentados à mazelas da vida nesses rincões do interior, a exploração do trabalhador rural e pobre, a interferência política sempre em favor dos mais grandes, nunca com o desejo de melhores condições de vida aos mais pobres.
Um momento emblemático do livro é a narrativa da epidemia de sarampo, que fez inúmeras vítimas entre os mais pobres mas não geraram comoção entre os grandes políticos da capital, que se recusavam inclusive a enviar médicos para controlar a situação e cuidar das pessoas. Quando enfim um médico é enviado, ele se depara com a normalização da morte, crianças levam seus irmãos menores para serem enterrados como se fosse algo normal e corriqueiro.
Ao longo da narrativa vamos pouco a pouco vendo esse cenário mudar, com as novas gerações tomando os espaços de poder, com José, Luis e Tatiana assumindo a postura de políticos e conseguindo enormes melhorias para sua terra como a chegada da energia elétrica, a chegada de um banco e as melhores condições de vida e trabalho de seus novos funcionários.
Uma leitura maravilhosa, que em muitos aspectos me lembraram das obras Torto Arado de Itamar Vieira Júnior e Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez. A forma de narrar a vida cotidiana e os percalços da vida dessas pessoas trouxe a sensação de estar assistindo a uma novela, uma novela da vida cotidiana. A forma como tudo é narrado, as ligações familiares e de compadrio entre todos os personagens faz com que pareça uma história real, e em muitos aspectos muito da narrativa é de fato real em nosso país. Uma leitura maravilhosa, um pouco demorada, mas valeu cada segundo. Recomendo demais!
Recomendação: A Orgia dos Duendes - Bernardo Guimarães
Noite das bruxas
O livro trás um poema gracioso que narra uma festa ao longo da noite onde se reúnem bruxas, lobisomens, mula sem cabeça e outros seres fantásticos para celebrarem suas maldades livremente.
Temos um misto de referências folclóricas europeias aliadas a outras tantas referências ao folclore brasileiro. Ao final da leitura temos a impressão de ter sido parte de uma divertida e macabra dança festiva num mundo fantástico livre de qualquer régua moral.
Uma leitura que começou despretensiosa e acabou me surpreendendo bastante positivamente, curti demais o poema, é além de tudo uma leitura divertida.
"O Atticus tinha razão. Certo dia disse que só conheceríamos realmente um homem quando calçássemos os seus sapatos e caminhássemos dentro deles".
O Sol é Para Todos de Harper Lee
Resenha: O Inferno Somos Nós - Karnal, Coen
Como alcançar a cultura de paz?
Um livro para ser lido com calma e muita atenção. Ao longo da conversa entre o professor Leandro Karnal e Monja Coen somos convidados a fazer diversas reflexões sobre nós mesmos e sobre o mundo em que queremos viver.
Tal qual é dito diversas vezes ao longo desse maravilhoso diálogo, como podemos alcançar uma cultura de paz se não nos conhecemos intimamente? Como cobramos do mundo àquilo que não construímos em nós mesmos? Para alcançar a cultura de paz devemos conhecer o que é ser humano, devemos olhar para dentro de nós mesmos e vermos que o eu também é o você, somos todos um. Queremos sempre mudar o outro acreditando que os erros sempre estão nos outros. Precisamos perceber que também existe em nós todas as possibilidades humanas.
Segundo Monja Coen, há uma expressão no budismo que diz: "cada ser que encontramos é um ser iluminado disfarçado a nos mostrar o caminho". Nós nos reconhecemos no outro, e ao buscarmos uma cultura de paz, devemos reconhecer que o outro também sou eu. Somos fruto de uma cultura de violência e ainda existimos nela, a busca pela cultura de paz é difícil, e somos apresentados diariamente a escolhas que nos levam mais perto dessa cultura de paz, mas que também podem perpetuar a cultura de violência na qual estamos inseridos.
No diálogo se fala em processo, compreender-se a si mesmo e compreender-se como parte de um processo, o eu não é sempre o mesmo eu todo o tempo, não somos um só, existem vários Leandros ao longo dos dias e das semanas e está tudo bem, somos processo.
Como diz Monja Coen: "Conhecer a si mesmo é conhecer o que é o ser humano, a mente humana, como ela é formada, do que foi alimentada para que se manifeste de determinada maneira e como esse sistema pode ser modificado".
Uma excelente reflexão, um livro para ser lidos e relido inúmeras vezes.
ESPERA...
“Planto algumas verduras no jardim. Rego, olho e espero que cresçam. Eu as observo, adubo, rego, projeto, mas não posso forçar a beterraba a crescer. Não posso abrir as pétalas de um botão de flor, não posso forçar o casulo a abrir para ajudar a borboleta — ela precisa do esforço para sair do casulo e voar livremente. Espero. Crio causas e condições favoráveis. Aguardo. Esse aguardar é sereno. E por haver esperado, quando a mágica da vida acontece, há júbilo, gratidão e alegria.”
~ Monja Coen