Ele deveria ter se esquivado de Mei-Ling, com definitiva certeza — não era conhecido por ter a maior das paciências e, ao que tudo indicava, a chinesa tendia a exaurir qualquer um —, mas não era como se tivesse, mesmo ali, uma posição consolidada. Não poderia ignorar a influência chinesa no comércio de armas e no Índico, de modo que uma relação favorável com a realeza seria interessante — estimulada, aos olhos de Roger. Portanto, quando percebeu a aproximação cada vez mais iminente, Victor se dispôs a segurar a chinesa, antes que os dois caíssem, oferecendo a ela apoio suficiente para mantê-la estável. “It’s fine, Your Highness.” Acenou brevemente, retirando as mãos dos braços da morena tão logo percebeu que o equilíbrio de ambos havia retornado à naturalidade. Veja, conhecia-a suficientemente bem — suas anotações não falhavam e Victor era observante o suficiente para saber o tipo de toque que melhor era recebido — para ter certeza de que qualquer contato indesejado seria repelido tão logo não fosse mais estritamente necessário. “Não é como se fosse me quebrar caso caísse, mas talvez um pouco mais de cautela, da próxima vez?” Arqueou uma das sobrancelhas, o tom educado denotando, entrelinhas, que esperava esbarrar com a princesa outras vezes. Não que houvessem segundas intenções por parte de Prior: ele simplesmente sabia que Mei-Ling não o escutaria. Ante suas palavras, entretanto, Victor precisou abrir um sorriso enigmático, metendo as mãos na calça de alfaiataria. “Suponho que seja um assunto recorrente, mas…” Respirou fundo. Veja, Prior já não aguentava mais falar sobre o Brasil. “Não. Lovely country, though. Beaches and Samba. Temo que conheça tão somente o essencial, o que as cartilhas mostram vez ou outra… Nada como isso.” Referia-se ao Festival de Parintins, é claro. Não havia muito a falar sobre o Brasil, em verdade: nunca fizera parte dos planos de Roger, e muito menos de Victor. Controlar as Ilhas Australianas já seria um trabalho complexo o suficiente e não via como um Estado tão distante pudesse incutir tanta influência no continente.
Se havia uma pessoa no instituto que Mei-ling nunca tinha conversado muito bem, a não ser breves cumprimentos aqui e ali, essa pessoa era Victor e ela não esperava que ele fosse ser comunicativo consigo naquele momento em que ela se mostrava tão animada. Não negaria que sempre o havia visto como alguém chato que só sabe seguir as regras dos pais e aquilos que os pais querem mas não fazem ideia do que era ter uma opinião própria ou uma vontade própria, fora que nunca parecera ser muito de conversar com as pessoas… talvez ela estivesse errada, mas aquilo ela só iria saber falando com ele e esperava é claro, que sua constatação estivesse equivocada já que não era a melhor em julgar as pessoas apenas pelo modo como se portavam. Mesmo um pouco desconfiada com a presença dele falando consigo, ela resolveu deixar de lado abrindo um sorrisinho brincalhão para o mais alto. - Acredito que em você não iria quebrar se caísse, mas eu por outro caso. Seria como bater em um muro, já que você parece que comeu aquele bolinho da Alice in Wonderland que faz a pessoa crescer bastante. - soltou em um tom de brincadeira, querendo talvez fazer ele se soltar mais ou simplesmente amenizar o clima ali entre eles. Os braços da chinesa se cruzaram na frente do peito enquanto o ouvia, a cabeça caindo levemente para o lado enquanto o olhava de maneira curiosa - E somente o essencial é o que? Desculpe a curiosidade, é que eu gosto de aprender sobre essas culturas diferentes. - encolheu os ombros olhando para a mesa de doces atrás dele e apontou para um de chocolate que estava dentro de uma forminha de papel cor de rosa, ai estava mais um problema de Mei-Ling... ela se distraia muito facilmente ainda mais com comida e possibilidades infinitas de causar o caos no evento - Já comeu aquele doce? É bom?