( vince )
Uma rotina de rondas tinha sido estabelecida pelos seus superiores desde que chegara à ilha, e Vince a seguia religiosamente sem se entreter muito com pormenores que não fossem ter qualquer uso para si eventualmente. Entretanto, não pôde evitar a curiosidade ao passar pela sala de música e avistar o britânico — preterido de todos os guardas de Hyacinthum, graças ao hábito de ignorar e destratar as demandas desses sem poupar palavras indóceis. É claro que ele era inglês, tinha pouca paciência com a costumeira soberba dos residentes desse país, traço que parecia acompanhar Damian. Ali, no entanto, o loiro parecia estar no seu próprio elemento, bem distante do comportamento intragável e rígido de sempre. Arqueou as sobrancelhas incrédulo, fosse pelo talento escondido do homem ou pela atitude educada deste consigo, levantando as mãos em defesa. — Só o suficiente para vê-lo se comportar como um ser humano agradável em público. — Sorriu em deboche, abaixando as mãos para colocá-las nos bolsos do uniforme em uma tentativa de disfarçar o próprio desconforto, sentindo o incômodo de quem havia pisado em uma situação privada. — É melhor tomar cuidado, mais demonstrações do tipo e os guardas vão desconfiar que você não é tão ruim assim. — Normalmente sequer trocariam duas palavras sem antes tomar algumas doses, afogando o discernimento no processo. Entretanto, desde o assalto aos vermelhos na instituição, sentia que qualquer um que não carregasse o adorno de um brasão familiar se recusava a existir, temendo represália. E apesar de tudo, estavam no mesmo barco. Ou pelo menos no mesmo oceano. Ma che diavolo¹… Suspirou, balançando a cabeça em negação, descrente do que estava prestes a fazer. — Foi bom, o que fez aí. Você já… teve alguma experiência, com isso? —
❛ Ah, cale a boca, Vince. ❜ – revirou os olhos ao deboche, cruzando os braços na frente do peito de maneira defensiva. o desconforto alheio, todavia, lhe fez sentir pouco mais convidativo à situação, compartilhando do sentimento alheio que estavam no mesmo barco, o que era um verdadeiro milagre. afinal, vince era tudo o que damian podia detestar em um combo numa única pessoa: guarda e italiano. a única coisa que lhe faltava que seu sangue fosse de uma coloração diferente da sua, mas acreditava que aquilo, na verdade, era o único ponto que traçava a linha entre o respeito e o desprezo, e provavelmente o que lhes trazia mais próximo quando podiam chamar um ao outro para beberem juntos e reclamar das próprias existências. continuou com os olhos pregados no outro conforme ele continuava a zombar de si, os lábios apertados um contra o outro, em uma clara expressão de desdém, até... o suspiro e a frase que o seguiu tomarem-no completamente de surpresa. –
❛ Eu... Uh, não. Nunca. ❜ – disse, o elogio fazendo com que suas bochechas ficarem ligeiramente tingidas de rubro, demonstrando claramente que não sabia reagir a elogios, muito menos vindos de vince; não que ele não estivesse acostumado a ver seu rosto corado, obviamente, mas sempre era por efeito de álcool, e não de elogios sinceros. pigarreou, soltando os braços e enterrando as mãos nos bolsos da calça, sem saber o que fazer com elas exatamente. nossa, como aquilo era constrangedor. estava, de certo, sóbrio demais para aquilo. --
❛ ... Valeu. ❜ -- agradeceu ao rápido enaltecimento, suas palavras quase um murmúrio. se alguém entrasse por aquela porta agora e lhe anunciasse que havia (finalmente) ganhado a pena de morte, damian comemoraria. no entanto, apenas se estabeleceu um silêncio desconfortável por alguns segundos. --
❛ Você por acaso veio me prender? Olha, eu juro mesmo que não fui eu que quebrou... Seja lá o que estiverem me acusando dessa vez... Haha. ❜ -- é claro que provavelmente tinha sido ele. havia perdido a conta de quantos “alvos de arquearia errados” havia tido somente naquele mês para ser considerado coincidência (e não irritar azuis e guardas, que era o seu intuito inicial). --










