A Politização do Cabelo Cacheado
Ao me mudar para a Irlanda, deixei de ter à mão recursos profissionais que me ajudavam a cuidar do meu cabelo enrolado. Foi bem complicado no início, quando meu cabelo começou a crescer sem forma, a ficar desnutrido e a sofrer os efeitos do clima daqui. Diferente do Brasil, aqui não há uma enorme gama de produtos especializados para cabelos cacheados, enrolados, crespos, embora haja alguma coisa. Me restou, então, buscar na internet algum tipo de ajuda. Bem, os vídeos tutoriais de cremes faça-você-mesmo (DIY), de cortes nos próprios cabelos, de dicas e mais dicas, foram um achado e tanto para mim. Fiquei realmente feliz com a quantidade de pessoas que está falando sobre isso e ajudando um bocado de gente por aí.
Porém, ao assistir esses vídeos, comecei a perceber algo: Assim como muita coisa que nos cerca e que tem certa relevância cultural hoje, o tema “cabelo cacheado, enrolado, ondulado, crespo” passou a ser uma militância política. Sem brincadeira. Ao mesmo tempo em que comemorei o fato de ter pessoas se dispondo a servir outras com suas experiências e dicas, também lamentei ver o discurso auto-destrutivo e mentiroso da auto-aceitação, auto-libertação, “empoderamento” e o desprezo à ideia de padrões e regras pré-estabelecidos[1] (como algo negativo) embutidos nas falas das meninas.
É impossível falar de algo como o cabelo, que está exposto em todos nós, logo no alto da nossa cabeça, sendo totalmente visível a qualquer um, e não pensarmos logo na questão da identidade. Todas essas moças, inclusive algumas que se dizem cristãs, foram cooptadas pelo discurso corrosivo e perigoso da cultura, de que você é definida(o) pelo seu cabelo! É claro que não dá para desconsiderar a mudança radical que big chops[2] vão trazer, porque realmente nos transformamos quando alisamos nosso cabelo. A fase de transição[3] costuma ser um meio de caminho difícil para muitas, pois mexe no cerne da beleza feminina: sua aparência. É aí que elas buscam auto-afirmação, afirmação externa (pessoas do seu convívio social) e “força” em si mesmas para continuarem até o fim, quando terão seu cabelo cacheado natural.
De fato, assumir aquilo que somos (esteticamente) é também assumir, de certa forma, uma identidade. Mas há que se ter muito cuidado aqui, pois nossa identidade não é inteiramente forjada por nossa aparência. Não somos o que vestimos, o que comemos ou o que usamos. Isso é apenas parte de nós, portanto, não podemos ser definidas(os) por um recorte da realidade. Somos mais do que isso. Somos seres humanos inteiros, feitos de corpo e alma, e mesmo que alguns não acreditem nisso, somos todos, sem exceção, feitos à imagem e semelhança de Deus. E é isso o que deve nos definir.
Ao invés de oferecer uma ajuda prática de como cuidar do cabelo cacheado, enrolado, crespo, as pessoas envolvidas nesse “movimento” tornaram a coisa numa discussão politizada e chata! Eventos são criados, palavras de ordem são gritadas[4], produtos são vendidos com todo esse discurso impresso em suas embalagens,
pessoas são cooptadas e enganadas a achar que são "livres para ser e fazer o que quiserem", sem se importar com os outros, e assim, o cabelo deixa de ser parte do que somos, para ser o todo.
Outro dia, descobri um rapaz que faz um trabalho muito bom em cabelos cacheados aqui na Irlanda. Ele é brasileiro e tem muito talento. Ele se define como um “artista do cabelo cacheado”, o que também ajuda a tornar seu serviço um pouco caro por aqui. Pessoalmente, tentei passar com ele, conhecê-lo e seu trabalho mais de perto, fiquei realmente empolgada com seu estilo, já que, antes de vir para cá, em 2014, conheci outro profissional, ainda em São Paulo, que já utilizava a mesma técnica que ele. A questão é que bem na época em que o procurei, seu website teve um problema sério e minhas mensagens acabaram não sendo entregues. Como ele nunca me respondeu por conta disso, então acabei desistindo. Ainda o busquei por email, no Facebook, fui até o salão onde ele trabalha, e nada! Foi nessa época, precisamente, que busquei ajuda em tutoriais de internet e desisti de passar com ele.
Enquanto buscava informações sobre seu trabalho, acabei encontrando uma página no Facebook sobre esse assunto. Lá ele participa ativamente, não apenas dando dicas sobre como cuidar dos cabelos, ou promovendo seu trabalho (a menor parte), mas conclamando mulheres brasileiras que estão morando aqui a participar de movimentos políticos, relativos ao cabelo cacheado! São palestras, performances teatrais, poesias, discussões, painéis, não sobre o cabelo cacheado e técnicas para cuidar dele, simplesmente, mas sobre auto-aceitação, auto-confiança, auto-estima, “empoderamento”, e especialmente, a “força” da mulher negra. Ou seja, além de abordar pelo menos 2 assuntos da agenda esquerdista, o feminismo e o vitimismo racial, eles incluíram também o cabelo enrolado.
Muitas pessoas envolvidas com isso são jovens e simples, pessoas que não estão atentas a esse viés politizado que foi dado ao cabelo cacheado e pessoas que, como todos nós, estão em busca dessa liberdade que o coração, sem Deus, tanto anseia. É triste ver o empenho, a devoção, o auto-engano e a entrega total dessas pessoas a algo que não pode, de fato, defini-las. Essa ideia vendida como auto-libertadora é mentirosa e transforma a beleza da mulher cacheada, enrolada, crespa, ondulada, em um ídolo[5]. Elas ficam tão obcecadas com isso, que não fazem outra coisa a não ser se auto-promoverem e promoverem às desavisadas uma busca por si mesmas. Isso é tão complicado! Não há nada de belo em nós mesmos, essa “viagem interior” só nos mostra uma coisa: escuridão, solidão e a realidade de que não somos capazes de dar conta de nada.
O pastor Guilherme de Carvalho, pregando em João 8:21–59, expõe bem nossa condição sem Deus:
"[Seres humanos] constroem sistemas, enganados por satanás, para não sentir a sua alienação de Deus. O mundo está alienado e em revolta contra Deus, mas isso é insuportável. Então nós criamos um sistema para ocultar essa alienação. [...] Esses sistemas expressam tanto a necessidade que o homem tem de Deus e do céu, quanto a recusa do homem contra Deus. […] Eu [digo]: ‘Não quero a realidade sobre Deus, nem sobre mim. Na verdade, eu não suporto isso' (sou incapaz de ouvir - João 8:43). [...] Então construo uma rede de mentiras para conviver com essa contradição. O problema de identificar o que é a realidade não está em saber ou conhecer provas de que Jesus é o Filho de Deus (o problema não está em Jesus), o problema é eu me enxergar, porque a origem da minha confusão (sobre o que ou Quem é a verdade) não é objetiva, ela é interna, é a mentira e a inautenticidade que está dentro de mim. Gênesis 1:26,27 diz que o homem foi feito à imagem de Deus, mas quando ele se esquece de Deus, ele esquece de si mesmo. E quando ele encontra a Deus, ele encontra a si mesmo."
No meio de tudo isso, mais do que nunca, é necessário convergir. E conversão significa volta. Quando estamos andando por um caminho e decidimos não mais seguir por ele, e então pegamos a estrada de volta, isso é conversão. No caso do cristianismo, a conversão seria uma volta a quê? O cristianismo é voltar a ter uma relação pessoal com o Deus Criador. Perdemos esse laço com Ele quando resolvemos que não mais queríamos ser Sua imagem, mas sim, iguais a Ele. Um dia, num jardim, a ideia perversa e distorcida de “autonomia” nos pegou de tal forma que aquele fruto nunca pareceu tão suculento e tão conveniente. A partir daí, perdemos a conexão direta com Deus e nosso coração ficou com um buraco enorme (usando um conceito agostiniano), do tamanho que só Deus poderia preenchê-lo. Daí nossa tendência religiosa a querer preencher esse vazio com qualquer coisa que não seja Deus, tornando qualquer coisa (geralmente boa e legítima) num ídolo.
O pastor Guilherme diz, ainda naquela pregação em João 8:21–59:
"Depois que você vê a Deus, constata: ah, eu sou assim! Porque você foi feito à imagem de Deus. O conhecimento de Deus e de si mesmo são co-relativos. [...] O problema de aceitar a palavra de Jesus é que eu vou ter que me ver. E eu não quero isso. Aceitar que Jesus é o EU SOU é ver que eu sou do diabo. Aceitar que a palavra de Jesus é a verdade e é libertadora é ter de admitir que eu sou escravo (mas eu achava que era livre, eu estava me enganando). Então terei que aceitar que sou um mentiroso, que sou inautêntico, que fujo da realidade de que fui feito para ser imagem de Deus mas eu me tornei imagem de outra coisa. Eu não quero enxergar essa realidade de queu fui feito para espelhar o Infinito, mas eu estou aqui, arruinado por causa dos meus pecados. Eu não quero admitir que tenho parte e responsabilidade nisso. [...] Por trás da investigação da identidade de Jesus está escondida a minha fuga de mim mesmo. De quem eu realmente sou e onde estou, em relação a Deus. […] A gente se engana para ficar anestesiado da nossa inautenticidade, da nossa alienação de Deus e de nós mesmos.”
Essa volta aos braços de Deus, no entanto, não se dá por via autônoma. É necessário que Ele mesmo, em Jesus, que é o Bom Pastor, nos busque (João 10:1–18). Então, se ouvirmos a Sua voz nos chamando, nós respondemos.
Portanto, somente Deus, em Cristo Jesus, pode nos dar identidade e liberdade. Só nELe podemos descobrir quem realmente somos, para o que fomos feitas, e que sim, a forma como fomos feitas por Deus é única e bela. Deus nos fez únicos e belos, com propósito, mas só podemos ver e entender isso à luz da Sua verdade, expressa na Bíblia. Só na Bíblia entendemos que aceitação é algo que devemos buscar de Deus, e não das pessoas (1 Coríntios 4:3–5). Libertação não se refere apenas a cabelo quimicamente tratado, embora isso represente, de certa forma, um “eu” inautêntico, e livrar-se disso, pode nos trazer alívio. A libertação de que necessitamos, contudo, é do pecado. A autenticidade que buscamos não está em nós mesmos; está, ao contrário, em Jesus. E a gente não compreende Jesus a partir dos nossos esquemas, da nossa vida; temos que interpretar nossa vida a partir de Jesus[6], do que Ele é, de como Ele se revela na Palavra e de como Ele revela o Pai a nós.
Fica evidente, então, que a vida não é sobre nós, mas sobre Jesus. Nosso cabelo, nossa aparência, nosso ‘eu' existem, são reais, mas não são o fim de tudo. "Abandona o egoísmo, ninguém é o fim de si mesmo”[7]. Continue a cuidar de seu cabelo (cacheado ou não). Faça isso com moderação (Filipenses 4:5), sobriedade (1 Pedro 5:8) e critério (Tito 2:6). Não pense de si mesma além do que convém (Romanos 12:3). E não se deixe mais enganar pelas artimanhas do diabo. Aceite quem você é porque Deus te fez assim, e Ele sabe o que é melhor para você, Ele te acha bonita assim, e só a opinião dEle é que importa. ;)
1- Padrões e regras não são algo ruim. Já no Antigo Testamento, Deus estabeleceu padrões e regras para Seu povo, para que ele fizesse diferença por onde fosse, para que ele mostrasse aos povos em redor quem é Deus (Deuteronômio 4:6,7). Hoje, Deus se revela em Jesus (Hebreus 1:1,2), mas Seu povo continua espalhando Sua glória ao viver uma vida coerente com os padrões bíblicos (Tiago 3:13; 1 Pedro 2:11,12). Portanto, padrões e regras são, sim, necessários, mas é preciso saber expor essas coisas para que não haja confusão.
2- Big chop é a expressão inglesa para o “grande corte”, quando corta-se o cabelo danificado pela química do alisamento ou relaxamento, em seu comprimento e deixa-se apenas o cabelo saudável, natural, que já cresceu.
3- A transição é outro termo do mundo cacheado atual, que diz respeito à fase onde a mulher deixa de tratar o cabelo quimicamente. Ele passa a crescer com a raiz natural, ficando somente as pontas com aquele resto de química.
4- Atente para as palavras usadas neste texto:
"Manifesto da Resistência Armada (Onde os Fracos Não Tem Vez):
Pelotão, esta é a comunidade para aflorarmos o orgulho de nossas raízes, da herança deixada por nossos antepassados, da mistura das mais variadas culturas, nacionalidades, raças, credos, da lambança deliciosa que nos torna o que somos, da nossa brasilidade.
Aqui, gostamos da curva, do caos, do incerto, do diferente, do coletivo.
Compartilharmos aqui o prazer de enfraquecer nossos opressores, que nos querem machistas, simples, desenroladas. Que desejam nos desconstruir com pranchas metálicas para nos domar o corpo e a alma.
Aqui, gritamos NÃO às falsas aparências, à ditadura da beleza imposta de fora para dentro. Em nós, somos nós que mandamos.
Cacheadas de todos os países, uni-vos! (Do original em alemão Curly aller Länder, vereinigt euch!)"
– Esta declaração é parte da divulgação de um salão de cabeleireiro especializado em cabelo cacheado, em São Paulo.
5- "Ídolo é qualquer coisa que seja mais importante que Deus para você, qualquer coisa que absorva seu coração e imaginação mais que Deus, qualquer coisa que só Deus pode dar. Um falso deus é qualquer coisa que seja tão central e essencial em sua vida que, caso você a perca, achará difícil continuar vivendo. Um ídolo tem uma posição de controle tão grande em seu coração que você é capaz de gastar com ele a maior parte de sua paixão e energia, seus recursos financeiros e emocionais, sem pensar duas vezes. […] Pode ser um relacionamento amoroso, aprovação dos colegas, competência e habilidade, circunstâncias seguras e confortáveis, beleza ou inteligência, uma grande causa política ou social[…]. Um ídolo é qualquer coisa que você olhe e diga: 'Se eu tiver isto, sentirei que minha vida tem um sentido, e então saberei que tenho valor, estarei seguro e em posição de importância.'” – Timothy Keller, Deuses Falsos (Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2010), p.15,16.
6- Pastor Guilherme de Carvalho: https://goo.gl/krRsGj
7- Stênio Marcius - Confissões de uma Figueira: https://goo.gl/0jClRz