Lembra de quando te pedi para parar o carro, tal como se tivesse atropelado alguém, apenas para buscar uma flor na rua e lhe dar? Ela certamente ficaria mais linda adornando seus cabelos do que naquela rua vazia...
Lembra dos cafés das manhãs que eu insistia em acordar mais cedo para fazer, sempre com o mesmo suco de morango e laranja que você insistia em gostar? Pode não saber, mas não é do meu feitio acordar cedo ou preparar qualquer coisa quando estou sozinho...
Se lembra de como eu perfumava a casa para recebê-la? Talvez nem tenha percebido isso, na verdade, mas era cuidadosamente feito para que pudesse chegar e se sentir melhor...
Lembra do chocolate que eu insistia em ter guardado no armário só para quando você chegasse? Do umidificador de ar com essência que acalmava? Foi para você. Para te ajudar a descansar melhor, porque sabia que sempre dormiu mal. Nunca mais usei rs.
Lembra da forma com que te incomodava só por estar te observando em silêncio, quando acordada ou prestes a dormir, só por achá-la a coisa mais linda do mundo?
Se lembra das vezes em que, por te ver triste, tentava fazer qualquer piada para te fazer sorrir? Não costumavam funcionar sempre, mas não valia a pena reforçar sua tristeza com a minha, que existia só por vê-la triste...
Se lembra de como deitávamos sempre grudados e de mãos dadas por cima da cabeça até o sono vir? A dor no pescoço e o braço dormente valiam a pena, pois aquela era a forma que eu tinha de estar mais próximo de você. E não me esqueço é claro, de que sempre deixava que eu apoiasse a perna sobre você... Era como eu gostava de dormir. Perto. Despido, as vezes de roupas, sempre de medos.
Lembra do trajeto que eu fazia para te visitar quando ainda não havia se mudado para minha cidade? Não sei se sabe, mas você aparecendo na janela sempre me pareceu uma pintura de Monet e eu enfrentaria o trânsito mais caótico so mundo só para rever isso, de novo, de novo, de novo...
Lembra de quando oferecia te levar em casa, em sua cidade, mesmo tendo que voltar sozinho depois? O fazia por cuidado, é claro, mas também pq, assim, poderia ficar mais tempo ao seu lado.
Lembra como quis me explicar como era ser neurodivergente depois de uma discussão em que disse que não queria que brigássemos nunca mais? Não sabe o quanto procurei entender e ler a respeito para tentarmos ficar juntos e bem, e isso tomou mais tempo do que imagina...
Lembra do poema escrito no espelho do quarto daquele Hotel estranho em qje ficamos em Rio Pomba/MG? Ele dizia, com muita sinceridade que, mesmo em face do maior encanto, o amor que sentia por você me encantaria mais o pensamento. E isso ainda perdura, acredite ou não...
Lembra de quando estive contigo no Hospital e voltamos para casa em seguida? Quando dormiu, você não sabe, mas fiquei a noite inteira acordado te olhando, sentado ao pé da cama e na beirada da janela de nosso quarto. E não me arrependo nem de um minuto sequer, mesmo depois de um dia inteiro de aventuras. O quanto me penitenciei por ter feito você tomar o remédio errado você não imagina...
Lembra de quando, naquele rapel que fizemos, você caiu na água e gritou? Naquele momento, talvez não tenha percebido, mas eu chorei. Ver sua reação de susto e de medo e minha impotência diante daquilo mexeram muito comigo...
Lembra do carinho que eu gostava de fazer em seus cabelos? Poderia passar horas fazendo isso, e era mais terapêutico, acredito, para mim do que para você, pq esquecia tudo que estava ao redor .
Lembra de quando apertava sua mão quando andávamos de avião? Hoje não sinto mais medo, talvez por ter acostumado, mas acredito que, se voasse contigo novamente, faria da mesma forma que antes, só para ver você rir.
Lembra da pasta de dentes que usava porque era a única que conseguia usar? Dos sabonetes que me ensinou a perceber que são (e são mesmo) os melhores? Da caixinha de remédios que me deu? Pois é, eu uso, e essas coisas, pequenas, são partes suas que ainda ficam comigo.